Giron lança livro sobre Mário Reis

O jornalista e crítico Luís Antônio Giron lança nesta segunda-feira o livro Mario Reis - O Fino do Samba (Editora 34), em um sarau com a cantora Maricenne Costa e trio interpretando clássicos do cantor Mario da Silveira Meirelles Reis (1908-1981). Será no Pergamon Hotel (Rua Frei Caneca, 80), às 19h30.Giron chama o cantor de "o dândi do samba" e, em seu livro, o situa como personagem-chave do desenvolvimento da arte do canto na primeira metade do século 20. E também em fases posteriores. Para o autor, João Gilberto decalca seu estilo da fórmula inventada por Reis. "João está encapsulado no cérebro de Mario", ele diz."Nunca houve na história da MPB um intérprete como ele." Abaixo, entrevista com o autor, gaúcho de 40 anos que já trabalhou em todas as principais publicações do País e hoje é jornalista da Gazeta Mercantil, em São Paulo.Agência Estado - O sr. diz que Mario Reis simboliza a era da passagem da era mecânica para a era elétrica, quando o autofone dá lugar ao microfone. Como isso se dá com Mario Reis?Luís Antônio Giron - Em meados de 1928, o jovem acadêmico Mario Reis foi levado por seu professor de violão, Sinhô, o Rei do Samba, para cantar no estúdio Odeon, que se localizava na cúpula do teatro Phenix, como parte da sede administrativa da Casa Edison. Lá, desde agosto do ano anterior, funcionava um estúdio elétrico, com microfone e luz elétrica. Era uma novidade porque até então funcionavam as máquinas falantes, movidas a corda, e que registravam o som com o autofone - o cone que sensibilizava o diafragma de borracha, que por sua vez, fazia a agulha vincar a matriz de cera, rodando em um torno. O microfone permitia que os cantores dosassem as dinâmicas e ampliassem os padrões de interpretação. Ora, isso havia acontecido dois anos antes nos Estados Unidos e Inglaterra quando a Warner instalara a gravação elétrica; surgiram diversos cantores sussurrantes, mais tarde chamados justamente de "crooners" (sussurradores). O maior deles foi Bing Crosby. Mario Reis se valeu do mesmo corte epistemológico-tecnológico para criar um estilo brasileiro de cantar, a partir de um modo de operação elaborado por seu mestre, Sinhô. A forma de cantar no Brasil mudou não só por obra do microfone, mas da influência que Mario Reis exerceu sobre o modo de cantar ao microfone. Daí o coloquialismo, a síncope, a ironia, a escanção - dados novos no universo brejeiro nacional até então.O sr. diz também que, sem Reis, João Gilberto não existiria. Por quê?Existiria como indivíduo biológico e até como cantor semi-impostado, ao estilo de Lúcio Alves. Mas sua maneira especial de explorar as sutilezas da linha melódica e da fala baiana não teria sido possível sem a aparição da técnica de Mario. João levou adiante a descoberta da "bossa". Porque Mario não foi apenas um genial intérprete da ironia e do desencanto amoroso; foi um inventor de uma técnica vocal, de um estilo de cantar que pode ser chamado tranqüilamente de "brasileiro", em contraposição ao estilo lírico "italiano". A bossa nova, de certa forma, é filha da bossa. E bossa era um termo que significava, na época, um jeito suave de cantar, com sábia ironia.Por que chamaram Mario Reis de "Greta Garbo brasileira"? Chegavam a dizer também que "o Mario Reis não se mistura". Era um cantor das elites, em oposição a Orlando Silva o cantor das multidões?De certo jeito, era. Ele fazia questão de cantar e rir entre pares. Menosprezava essa abstração detestável inventada pelo século passado, denominada "grande público". Queria cantar olhando nos olhos do ouvinte, sussurrando em seus ouvidos. Rompeu como qualquer artista ensimesmado faria. Saiu subitamente de cena, com um apagão sensacional. E foi cantar para os amigos do country. Quando alguém estranho aparecia, costumava sussurrar: "Olha aí, gente! Tem roupa no varal!" E parava tudo. A que conclusão o sr. chegou sobre a suposta homossexualidade de Reis? O assunto está em moda na história cultural. Então foi irremediável enfrentá-lo. Há três versões sobre a sexualidade do artista: teria sido um abstêmio sexual, um puro, um Kant brasileiro; teria amado às escondidas, não revelando suas fontes de prazer; por fim, teria sido um gay enrustido numa época em que não existia a categoria gay bem balizada. Provavelmente era de tudo um pouco - um "pansexual" na acepção de outro Mario, o de Andrade.

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