Ginga brasileira renova black music

Resposta dos negros americanos ao preconceito praticado nos EUA, a cultura de música black no Brasil assumiu novas características. Ao jazz, soul e funk do norte misturaram-se o samba e outros gêneros brasileiros. Nestas terras, as letras passaram a tratar de assuntos oriundos do samba, como a malandragem e o futebol. Uma das marcas desta nova geração de músicos black é recuperar o que se fazia nos anos 70, com James Brown, nos EUA, e Wilson Simonal, no Brasil. Num segundo momento, agregaram-se elementos eletrônicos oriundos do hip-hop. O que fica, de tudo isso, como no passado, é a importância do ritmo, do balanço."A música negra caminha em ondas que sempre influenciam os outros gêneros e se renovam constantemente", diz Max de Castro. "Temos que nos espelhar na música de Benjor, de Simonal, para dar continuidade, mostrando a riqueza sonora e rítmica de nossa música", completa Cláudio Zoli.Essa variedade de cores, característica em todos os músicos black desta geração, marca a sonoridade dos brasileiros. "Por isso, nosso trabalho vem recebendo ótimo reconhecimento no exterior: contribuímos com nossas características a um som que, naturalmente, é mais comum a eles do que a nós", diz Simoninha, para quem "o samba é elemento central de nossa black music". O CD de estréia do compositor é o que melhor agrega essas características. Em Volume 2, a ponte entre o passado e o presente é evidente. Johny Alf, Benjor e Simonal, revisitados, ganharam roupagens modernas. Nas novas composições, ele mistura hip-hop com bossa nova, soul com samba. São duas as introduções do CD. A primeira é eletrônica, com passos, batidas, risos e scratches. A segunda, um arranjo de metais ao estilos das bandas gospel americanas.Roda de Funk, do Funk Como Le Gusta, é fenomenal. O tom do álbum é de festa, de jam session. As participações de Sandra de Sá, Banda Mantiqueira e Fernanda Abreu, representantes mais antigos da música black brasileira, engrandecem o trabalho desta big band. Um pouco ao acaso, o Funk Como Le Gusta nasceu na noite paulistana, fundindo soul, jazz, samba, MPB e hip hop de maneira ímpar. Samba Raro, de Max de Castro, é o mais experimental dos discos à disposição no mercado. O trabalho é calcado em hip hop e ritmos eletrônicos. O drum ´n´ bass é utilizado para desconstruir cadências características do samba. Já Pedro Camargo é mais pop. Seu som é mais próximo do rhythm´n´blues moderno, que se convencionou chamar de urban music. O gospel exerce grande influência no disco, principalmente nos arranjos vocais, pensados à exaustão e executados pelo próprio cantor.Vamos curtir uma juntos - Salta aos olhos, nesta nova onda de música black, a integração e o companheirismo existentes entre os músicos. Max de Castro é produtor e compôs para o disco de Simoninha. Jairzinho Oliveira e Daniel Carlomagno preparam seus CDs de estréia, mas já têm composições gravadas por Pedro Camargo, Max de Castro e Simoninha. Paula Lima é cantora do Funk Como Le Gusta, da Zomba e também prepara seu disco de estréia. Cláudio Zoli compôs para inúmeros intérpretes da MPB e, sempre que pode, aparece para uma jam com os músicos mais novos. "Somos uma geração que está aparecendo, que se identifica com diferentes períodos da música negra e se une para fazer as pessoas dançarem", explica Max de Castro. "Voltamos a ter uma cena musical muito bacana em São Paulo, por isso, estamos juntando forças."Max prossegue: "uma vez que você cria uma cena, que você cria um público para o seu som, e não o contrário, sabemos que estamos no caminhando certo". Há cerca de dois anos, em diferentes casas noturnas, músicos se reuniam para tocar música black. Foi isso, ainda segundo Max, que deu força ao movimento, suas diferentes origens. "Nós estamos precisando disso: ressaltar a riqueza que existe na nossa música", comenta Zoli. Para Simoninha não há absurdo maior do que a frase: "brasileiro não gosta de música de qualidade". "Isso é idiotice e eu fico muito feliz em saber que as pessoas estão saindo de casa para ouvir música black. Isso mostra que estamos todos a fim de descobrir coisas novas, bem feitas", diz.Todos têm plena noção do que os espera. À margem das grandes gravadoras, o caminho para o reconhecimento será um tanto mais difícil. Para Zoli, "o mercado atropela a música". Uma saída para isso, como aponta Simoninha, foi o contrato com a Trama, que possibilitou a todos eles gravarem da maneira como sempre sonharam. "Ser alternativo no bom sentido. Conseguir lançar meu trabalho sem precisar desses truques do mainstream, é isso que espero", finaliza Max.

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