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Gilberto Mendes lança novo CD em São Paulo

Regência precisa de Jack Fortner determina qualidade de interpretação memorável

João Marcos Coelho, especial para o Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2010 | 17h14

Definitivamente, Gilberto Mendes não é um, mas muitos. Alguns deles estão presentes no CD que o compositor santista lança nesta quinta-feira, 28, às 21 horas, no teatro do SESC Vila Mariana, pelo selo SESC. O título já diz tudo: A música de Gilberto Mendes - Vários compositores em um só compositor, do Modernismo ao Pós-Modernismo. As cantoras Martha Herr e Andrea Kaiser, a pianista Beatriz Alessio e o violonista Fábio Zanon, além do Ensemble Música Nova regido por Jack Fortner, responsáveis pela magnífica gravação, participam do concerto formado só por obras do CD.

Aos 88 anos, ele vibra muito ao assistir ao resgate de uma parte esquecida de sua criação musical - uma série de obras dos anos 60 estilo "neue musik", compostas logo após o impacto recebido na visita aos célebres seminários de música de Darmstadt, em 1959, capitaneados por nomes como Stokchausen, Nono, Pousseur, Berio e Boulez. E comemora registros muito bons de sua produção mais recente. O itinerário pode ser definido como uma caminhada do modernismo radical ao pós-modernismo atual.

O fascínio e a imensa atualidade de Gilberto Mendes tem a ver com seu estado criativo de revolução permanente. Ele jamais descansou sobre conquistas e/ou determinados "achados" composicionais, nem assumiu a simples clonagem da vanguarda européia. A prova maior desta atitude são as quatro primeiras faixas do CD, compostas entre 1961 e 1962 - um ano antes do Manifesto Música Nova, que Gilberto assinou ao lado de Rogério Duprat, Júlio Medaglia, Willy Corrêa de Oliveira e outros. São "neue musik", é certo, mas nem por isso chatas. Gilberto não consegue ser chato nunca. "Música de Câmara para 12 instrumentos", por exemplo, foi escrita em 1961, só recebeu há dois meses sua primeira execução pública pela Camerata Aberta, em São Paulo, e agora é gravada também em première mundial no CD. A estrutura da peça é dodecafônica, mas contrapõe, ao paredão serial dos dez instrumentos, dois velhos conhecidos nossos, o bandolim e o berimbau (só no ano seguinte, 1962, a dupla Baden-Vinicius lançaria os afrossambas "Berimbau" e "Canto de Ossanha"). Obra emblemática, foi o embrião do Festival de Santos de Música Nova, iniciado naquele 1962 e que agora recebe, em sua 45ª. edição, o lançamento do CD do selo SESC.

De igual modo, como acentua Lorenzo Mammì no excelente texto do encarte, esta marca do compositor, o 'estranhamento', aproxima o público de sua obra. Como o coro na excepcional cantata "Cavalo Azul" para soprano, coro masculino e grupo instrumental, que permanecia inédita por questões de direitos autorais dos versos de Cecília Meirelles. Rápido no gatilho, convocou o ótimo poeta santista Flávio Viegas Amoreira - e pronto, eis de pé uma obra-prima impossível: "neue musik" interessante e compreensível já na primeira audição. Outro exemplo, também indicado por Mammì, é a combinação de uma escrita pós-weberniana em "Rotationis" com pitadas de música popular nas intervenções do saxofone com o contrabaixo em Pizzicato.

Coincidências

As obras seguintes documentam uma surpreendente virada na atitude composicional de Gilberto, por aqui chamada de atitude pós-moderno; na Bélgica, seu editor transformou-o no líder do movimento da "Nova consonância". Gilberto é direto. Diz que sempre foi assim: muitos compositores diferentes ao mesmo tempo. "Simplesmente estou agora, em parte, coincidindo com esse tal de pós-modernismo."

Nesse sentido, O meu amigo Koellreutter, de 1984, representa o rito de passagem para o novo estilo, onde adota procedimentos minimalistas, "como a contração ou ampliação progressiva de pequenas células melódicas", escreve Mammì. O mesmo acontece, também, em outra obra antológica, Uma foz, uma fala, de 1993, sobre poema concreto de Augusto de Campos. Quem a ouve pergunta-se "mas é do Gilberto Mendes mesmo?", tamanha a diferença. E repete o espanto ao degustar as duas peças para violão solo finamente executadas por Fábio Zanon (Prelúdio e Quase uma passacaglia, de 2001). Neste perpétuo revirar criativo, ele assina obras sempre surpreendentes, como a recentíssima Sinfonia dos Navios Andantes, de 2009, onde Mammì enxerga uma novíssima postura: "Ritmo popular, no piano, marimba e bongôs, que funciona como ritornelo de um rondó, articulando episódios tonais e seriais. Esta contraposição é uma novidade, e pode inaugurar uma nova abordagem".

Novos e surpreendentes Gilbertos dão o ar da graça, portanto - e como sempre. No CD, a regência precisa do norte-americano Jack Fortner determina uma qualidade de interpretação memorável. Até porque o Ensemble Música Nova, criado na 42ª. edição do Música Nova, reúne um grupo variável formado pelos melhores instrumentistas e cantores especializados em música contemporânea de São Paulo. Além dos já citados, participam Cássia Carrascoza (flauta), Alexandre Ficarelli (corne-inglês), Luiz Amato (violino) e César Masano (percussão), entre outros.

Ficha técnica:

Lançamento CD "A Música de Gilberto Mendes", selo SESC, com concerto: hoje, 21 horas, SESC Vila Mariana (rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000); amanhã, 29, SESC Santos, 20h30 (Rua Conselheiro Ribas, 136, tel. (13)2378-9800).

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