Gilberto Gil vê delícia e angústia na era virtual

Novo trabalho no cantor e ministro da Cultura, 'Banda Larga Cordel', chega às lojas nesta quarta

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

17 de junho de 2008 | 16h09

Chega nesta quarta-feira, 18, às lojas o novo disco do cantor, compositor, violonista, acordeonista e ministro da Cultura brasileiro Gilberto Gil. Banda Larga Cordel (lançamento Warner Music Brasil), como o nome anuncia, sugere uma tentativa de aproximação temática entre o universo da tecnologia de informação de ponta e a cultura tradicional brasileira. Uma exploração poética das possibilidades do mundo high tech - em choque contínuo com a toada low tech da exclusão cultural e social. Muitos têm interpretado Banda Larga Cordel como mais um exemplar da fascinação de Gil pelo universo tecnológico, coisa que vem desde a Tropicália, quando ele compôs Cérebro Eletrônico e Futurível (1969), e que prossegue ao longo da carreira, com exemplares como Cibernética (1974), Parabolicamará (1991) e Quanta (1997). Ouvindo-se atentamente o álbum, vê-se que não é tão verdade nesse caso. Gil, na realidade, analisa fundamentalmente o impacto da tecnologia nas formas de produção popular, no comportamento do povo, na ambivalência moral que surge com a novidade eletrônica. A tecnologia está aí "para o bem e para o mal", foi o que ele disse. A canção que abre o disco é sintomática dessa revisão: Despedida de Solteira foi construída como se fosse uma daquelas parcerias antigas de Gil com Dominguinhos, e seu tema explora a reação do tradicional macho nordestino face à liberação sexual (que não se funda mais em uma antiga dualidade). "E assim nossa prosa prosseguiria/ O assunto era instigante, o horizonte promissor/ Excitante para um cabra tão galante/ Intrigante para uma cabrita em flor", diz a letra. A canção termina com risadas sarcásticas das meninas do coro feminino. E assim o tema das novas moralidades prossegue na segunda canção do disco, Os Pais, que fala da angústia de se criar um filho num mundo dominado pelo narcotráfico e por freaks de toda natureza. "Maior liberdade ou maior repressão? Dilema maior dessa tal de civilização." É como se Gil dissesse: o pai é moderno, mas a preocupação é antiga e é a mesma. Gil liquidifica todas suas referências musicais. A sonoridade nordestina, que ele já tinha fundido com o reggae no disco em homenagem a Bob Marley, agora serve para seu comentário sobre o paradoxo da tecnologia chegando ao sertão, o Ponto de Cultura chegando a Sousa, ao Vale dos Dinossauros da Paraíba. É esse o invólucro que embala o forró Não Grude Não, no qual Gil parece examinar sua própria condição transitória de ministro da Cultura e suas caravanas pelo interior do Brasil. "Numa cidade, sodade/ Noutra cidade, sodade/ Quem se escafede se antecede ao fim do fim." Mesmo quando ele parece sair dessa discussão, a discussão volta à baila. Por exemplo: na gravação de Formosa, canção de Baden Powell e Vinicius de Moraes, o samba de Baden é trazido à tona como se fosse um exemplar de um tempo no qual se inventava a modernidade, os afro-sambas ecoando a origem e o futuro. Uma simples seção de metais turbina o samba. É a mesma sensação que se tem adiante, com o Samba de Los Angeles. O que pareceria uma rendição ao império midiático de Hollywood surge apenas como um sambinha emprenhado por uma moda de viola, uma coisa quase rural que se contrapõe à lembrança das freeways de Los Angeles. É então que Gil vai à África, mas não pela via direta. Vai a ela por intermédio da world music cantada em francês, que foi a via pela qual a África passou a ter existência cultural no Velho Continente. La Renaissance Africaine é a segunda música de Gil com esse apelo (a primeira foi La Lune de Gorée, parceria com Capinam, uma de suas mais belas canções). "É a África e sua missão/ Chave para a verdadeira construção/ Do mundo civilizado." Por baixo de tudo, um baixo sintetizado e um beat programado. Com Olho Mágico, ele examina as perversões do voyeurismo exagerado. Já em Não Tenho Medo da Morte, depara-se com o envelhecimento e o ato derradeiro. É a música mais bonita do álbum, envolta no som de um triângulo, mas também em uma orquestra de cordas (regida por Jaques Morelembaum). Gil é prolixo em uma letra (Banda Larga Cordel), e faz um haicai de outra (Amor de Carnaval). É básico na formação rítmica de A Faca e o Queijo e Outros Viram (que toca só, ao violão) e escala uma big band em outra (Gueixa no Tatame). Além do "Deus dos esnobes", o sábio poeta tropicalista nos mostra que a chave essencial da modernidade ainda é pensar com clareza. E saber concluir com graça. Um belo disco.

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