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Gilberto Gil responde às questões de 14 entrevistadores em livro

Nova obra sobre o compositor reforça sua imagem de guru existencial

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2015 | 05h00

Mais que o cantor, para além do compositor, há o filósofo. Gilberto Gil sempre entendeu que tudo estivesse ligado a tudo e, assim, se permitiu abraçar desde os mistérios do mundo quântico que há de pintar por aí até as revoluções da Primavera Árabe sem apontar culpados e entendendo causas. Aos 73 anos, Gil tem a aura dos gurus, o sábio de cabelos brancos e movimentos suaves que não teme perguntas e não promete respostas, mas garante a mais profunda reflexão.

Este Gil está no livro Disposições Amoráveis, uma seleção de entrevistas nas quais responde a perguntas de 14 personalidades de formações e posições das mais divergentes, sempre intermediadas por Ana de Oliveira, que concebeu o projeto para sua editora, Iyá Omin.

Gil fala de assuntos agrupados em seis capítulos que tratam de temas como ciência e espiritualidade (“o espírito é o que está acima da dor, está acima do prazer, acima da finitude, do tempo, da duração, da encarnação, do ser e do não ser” ), cultura e raça (“o racismo contra judeus é um racismo de dimensão étnica? Ou de dimensão religiosa?”), e até música (“com esse disco Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, veio a vontade de tratar a música da mesma maneira e com o mesmo estímulo que a gente percebia nos Beatles. Eu e Caetano, Gal...”). Dentre os entrevistados, estão o teólogo Leonardo Boff, o ex-secretário de Segurança do Rio, Luiz Eduardo Soares, os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso e seus pares Jorge Mautner e Gal Costa. Por e-mail, Gil respondeu às seguintes perguntas do Estado.

Gil, com o tempo, você passou a se colocar cada vez menos sobre as questões e mais de forma horizontal a elas. Como se deixasse de contestá-las para apenas contextualizá-las no mundo. Esse movimento é também uma forma de proteção erguida por um artista de quem todos parecem querer saber de tudo o tempo todo?

Houve um tempo em que todos ou muitos queriam saber tudo ou quase tudo de mim o tempo todo. Hoje, já não tanto assim e eu já não vivo pensando em respostas pra tudo todo o tempo. Isso me livra um pouco do fardo inquisitorial e eu fico mais à vontade para assumir que sei que não sei. Apenas entender e contextualizar as questões postas por outros e por mim mesmo, em relação à extrema complexidade do mundo, me parece, cada vez mais, honesto o bastante.

Por outro lado, se o seu poder de reflexão foi ampliado, sua tomada de posicionamento se diluiu na imparcialidade desta reflexão. Fica cada vez mais difícil saber de que lado você está.

O entendimento de que o justo meio está na igual possibilidade dos extremos nos leva a isso que você chama de imparcialidade e só em situações extremas é possível estar em algum extremo, algum lado.

Sua figura tem saído do estágio de cantor/compositor para, neste pós-70 anos, se tornar a de um sábio. E você, curiosamente, tem falado como esse sábio. Tento entender se essa figura do mestre espiritual não seria um fardo pesado demais para ser levado por um homem que só gostaria, às vezes, de cantar uma canção.

Aquele que é sábio porque não sabe, só tem a sua ignorância a transmitir. Eu me referi ao fardo inquisitorial na resposta à sua primeira pergunta. Em vez de mais pesado, esse fardo se torna mais leve e eu fico mais livre para gostar, cada vez mais, de cantar minha canção.

Como foi que seu pensamento passou a funcionar desta forma? Digo, quando foi que o homem centrado na música passou a ver o mundo como se tudo estivesse ligado a tudo?

Não posso precisar quando, se houve um quando, ou se tendências inatas foram se manifestando estimuladas por leituras e vivências até que se transformassem num modus operandi. Creio que na própria produção musical, na composição de canções como Retiros Espirituais, Tempo Rei, Era Nova, Se Eu Quiser Falar com Deus e tantas outras, essa percepção de “tudo ligado a tudo” foi se insinuando e de certa forma se traduzindo em letras, canto e atitude, toda uma compreensão sobre a complexidade, a simultaneidade, a visão holística em 360 graus, o conceito quântico, a autopoiesis, a função regeneradora do perdão e da tolerância, o aprimoramento da noção sobre igualdade e diferença e tantos outros insights provindos das filosofias, das ciências, da política, das religiões e tudo mais. E eu continuei minha meditação mais permanente com a peregrinação cotidiana ao santuário da música, da canção popular.

Ou será que tudo esteve ligado a tudo mesmo quando você fazia música (bem, talvez tenha sido sua resposta acima, risos)?

Sim. A carga de humanismo e existencialismo, a recusa ao confinamento na racionalidade, o abraço confiante ao esoterismo e às ciências ocultas, um certo destemor da escuridão, uma certa confiança na máxima oswaldiana da “contribuição milionária de todos os erros”, e assim por diante. A Tropicália foi um exercício muito estimulante nesse sentido.

Queria entender um pouco sobre o caminho de seu pensamento. Certa vez, você me disse que falava muito porque, no fundo, não sabia falar, não conseguia o caminho mais sucinto. Esses longos períodos nas respostas não acabam prejudicando sua objetividade?

Sim, sempre fui e continuo, cada vez mais, pouco objetivo. Atribuo isso à dificuldade de domínio do vocabulário (tenho que recorrer a muitas palavras para chegar ao significado aproximado de uma palavra que não me ocorre ou que desconheço). A prolixidade me socorre à falta da concisão. Eu me acostumei. Difícil é acostumar os outros!

Você nunca se irrita, Gil? Nunca solta um palavrão? (Veja que curioso, já fica difícil imaginá-lo fazendo coisas terrenas, talvez pelo efeito da figura do sábio que lhe falei...)

Embora não pareça, posso ser irritadiço. Vez em quando, me exaspero, elevo o tom da voz, grito, mas não gosto de palavrão porque palavrão é concisão, não é?

A indignação da MPB dos anos 1970 foi parar no rap dos dias de hoje, você me disse em outra entrevista. Mesmo com tantos motivos para nos levantar e nos indignar, acha que esta função não cabe mais à classe artística estabelecida do País da qual você e Caetano fazem parte?

Talvez não mais na forma imprecatória que os rappers usam hoje. O Caetano e alguns outros continuam usando, com muita eficácia, um repertório de ideias ácidas e ásperas para reclamar, denunciar e manifestar desagrado.

 

DISPOSIÇÕES AMORÁVEIS

Gilberto Gil e Ana de Oliveira Lançamento: 4ª (dia 9), às 20h (convidados) e 21h15 (autógrafos). Unibes. Rua Oscar Freire, 2.500, tel. 3065-4333

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