Gilberto Gil: relançamento em dose dupla

Gilberto Gil em dose dupla, pré-ministro daCultura, chega em CD e DVD. "Pierre Fatumbi Verger: Mensageiroentre dois Mundos" é um documentário de 1998, de Lula Buarque deHolanda, sobre o fotógrafo e antropólogo francês que, vindo paraBahia nos anos 30, revelou para nós um País em ângulos até então inéditos, e destrinchou nossas raízes africanas. Amigo de longa data, oatual ministro o entrevistou em Salvador e viajou à África, paramostrar os lugares de origem do candomblé baiano. "GiLuminoso",o CD, era parte do livro biográfico do mesmo nome, de BenéFontelles, em que o compositor desfila, só com voz e violão,canções intimistas que já tinham registros com banda ouorquestra. Não era essa a intenção, mas os dois trabalhos revelamfaces complementares de Gil, o político e o espiritualista, omúsico e o militante cultural. "Tudo no CD foi sugestão do Bené.Ele listou canções que abordam o tema da espiritualidade e tirei15 com as quais fiquei durante uma semana, até encontrar amelhor forma de interpretá-las sem a vestimenta dos arranjos",disse o ministro ontem, durante uma entrevista coletiva. "Já fizmuito show de voz e violão, mas gosto do companheirismo da bandae dos acréscimos que os músicos trazem a minhas canções. Amaioria delas, composta só no violão, recebeu um arranjo evoltou à forma original. A exceção é ´Tempo Rei´, que já nasceuna guitarra. Também foi a que me deu mais trabalho." Gil tem composto pouco, já que o Ministério lhe toma otempo dessa atividade. "Mas o que eu gosto é de tocar e cantar.Compor não é tão importante, até porque a música brasileira temcanções maravilhosas para abastecer meu repertório. JoãoGilberto é o melhor exemplo de criador que só fez três ou quatromúsicas", comentou. "Além disso, não me sinto mais obrigado afazer parte da engrenagem da indústria da música. Não precisomais prover o público de músicas novas, de atender a meu públicode quatro décadas de carreira, aos novos e aos que ainda devoconquistar. Apesar disso, pretendo ainda fazer um disco desambas, já compus alguns, mas não tenho prazo para lançá-lo." As 15 canções são dos anos 70 e 80 e mostram que Gil fazfalta sim como compositor. Seja parodiando, em "Preciso Aprendera Só Ser" ou "Super-Homem - A Canção", seja brincando com aspalavras, como "Metáfora" e "O Som da Pessoa", seja exercendosua espiritualidade, em "Retiros Espirituais" ou "Meditação".Duas delas, "Copo Vazio", feita para Chico Buarque, e "OCompositor me Disse", para Elis Regina, têm o primeiro registrocom o autor neste disco. "Este foi um critério de escolha dasmúsicas. Há outras sugeridas pelo Bené, mas já têm muitasregravações", explicou. No DVD, Gil participou da produção porque sua ligaçãocom Verger se deu em vários níveis, a partir dos anos 70. "Tem oreconhecimento pelo aristocrata branco e francês que escolheuviver aqui; a admiração pelo trabalho de inclusão negra noprocesso civilizatório; a elegância está na elegância do artistae sua maneira clássica de fotografar, que o coloca num patamarde Cartier Bresson; e por fim, o homem com quem aprendemos eensinamos e de quem ficamos próximos", diz Gil. O documentário olevou a Keto e Blomé, pequenos reinos do interior da África,onde ele participou dos rituais que os então escravos trouxerampara a Bahia. "Algumas coisas aconteceram só para a gravação,porque o nome de Verger abre portas. Mas muita coisa foiespontânea porque, ao contrário da Bahia, onde o candomblé équase uma maçonaria, para fugir às perseguições, lá todoacontece nas ruas, os ritos e as festas." O documentário foi exibido no GNT, mas o DVD teveacréscimos fundamentais. A entrevista de Gil com Verger, porexemplo, um dia antes de sua morte (inesperada, apesar de seusmais de 80 anos) veio na íntegra. As conversas com o fotógrafo eantropólogo Milton Guran durante as viagens entre os diversospovoados africanos também entraram. Guran segue a linha Verger efoi consultor do documentário. A música de Nana Vasconcelos foimantida. É preciosa e, em alguns momentos passa do son diretodas cerimônias para a composição do percussionista pernambucano,profundo conhecedor dos ritos e da música africana. O DVD tem um tom didático, sem cair na monotonia, e aConspiração Filmes o lança para atender à demanda de escolassecundárias e universidades para exibi-lo. Já o CD é purodeleite para quem gosta de ouvir o compositor Gilberto Gilinterpretando suas próprias músicas. Seu disco mais recente,"Eletracústico", é de 2004 e tudo indica que o músico continuaráministro, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reeleja. Ele recusa-se a falar sobre o assunto mas se diz satisfeito como que já realizou e capaz de fazer muito mais. "Ao contrário damúsica, onde sinto minha missão cumprida."

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