Gilberto Gil lota o Carnegie Hall, em Nova York

Gilberto Gil, o ministro, está em férias. Mas Gilberto Gil, o artista, está trabalhando, para imensa satisfação de brasileiros que estão longe do País. No estilo João Gilberto, só com banquinho e violão, ele surpreendeu o público que lotou o Carnegie Hall, em Nova York, na noite de terça-feira, 20, apresentando um show intimista e alegre, feito de lembranças muito boas dos últimos 40 anos. O perfil do Carnegie Hall e o formato do espetáculo não permitiam extravagâncias, mas todo mundo dançou nas poltronas mesmo e fez coro com ele. Gil está em turnê pela América do Norte caitituando o disco Gil Luminoso, lançado no ano passado no Brasil pela Biscoito Fino e aqui, na semana passada, pela DRG Records. A turnê começou dia 15, em Toronto e, até dia 31, vai passar por dez cidades dos Estados Unidos. É a primeira vez em oito anos que ele se apresenta deste lado do continente. E é a primeira vez também que faz isso sozinho, sem banda, só com o violão acústico. Esse é o formato de Gil Luminoso, gravado em 1999 e concebido originalmente para acompanhar o livro homônimo de Bené Fonteles. Com 15 faixas, o disco refaz a trilha espiritual e filosófica de Gil. Mas nas duas horas de show, ele incluiu cinco daquelas faixas (Retiros Espirituais, de 1975, Super-Homem, a Canção, de 79, Metáfora, de 82, Tempo Rei, de 84, e Você e Você, de 93) e acrescentou 20 pinçadas dos discos que gravou a partir de 1969, o ano em que partiu para o exílio e deixou para os brasileiros Aquele Abraço. No começo do show, a voz arranhou um pouco, talvez por efeito do frio de fim de inverno no Hemisfério Norte, por não estar mais acostumada com a pauleira de shows diários, ou por estar com 64 anos, como ele mesmo lembrou ao cantar sua versão bossa-nova para When I?m 64, dos Beatles. Mas já na oitava música (Chiclete com Banana de Gordurinha e Almira Castilho, de 1958) as coisas entraram no lugar e o resto foi aquela festa de graves e agudos com que ele fraseia suas interpretações. Marina, de Dorival Caymmi, por exemplo, foi feita no ritmo que ele lhe dá no carnaval baiano, soltando o vocativo lá no alto. Recentes criações "Ele é uma máquina de alegria", definiu o americano Gregory Munna, professor de música que assistiu ao show em pé no terceiro dos quatro balcões do teatro. Munna, que pedia aos brasileiros que estavam ao seu lado para traduzirem os títulos de cada música, deu uma excelente definição para o artista que via pela primeira vez: "Ele é um guerreiro que ilumina e inspira a sociedade". Além de canções dos Beatles, de Bob Marley e de Stevie Winwood, Gil incluiu no show Farolito uma valsa do mexicano Augustin Lara (1896-1970) e, falando em inglês com a platéia, lembrou a importância do rádio, nos anos 50, como meio de acesso público para a difusão de obras como aquela. Das suas composições, só duas foram criadas de 2000 para cá. Máquina de Ritmo foi composta pouco antes de ele assumir o cargo de ministro da Cultura, em 2003, e gravada com softwares livres para dar exemplo do que ele defende para os seus Pontos de Cultura. A mais recente das músicas de Gil, o samba Outros Viram, foi feita nas férias de Natal de 2005, a pedido de e em parceria com Jorge Mautner. Como tem dito sempre em suas entrevistas, ele explicou para a platéia que, por causa da função que ocupa no governo, não tem mais tempo de compor. É pena. Seu público, com certeza, gostaria de ouvir e ver mais o Gil músico, não só quando o Gil ministro sai em férias.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.