VERA DONATO / Divulgação
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Gilberto Gil faz música para Yamandú Costa

Compositor baiano cria canção citando o estilo de violão ágil e 'furioso' do instrumentista gaúcho

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2017 | 06h00

Yamandú Costa estava em um táxi, saindo do Aeroporto do Galeão em direção à sua casa, no bairro de Botafogo, no Rio, quando recebeu o vídeo em que Gilberto Gil aparece cantando para ele. Sim. Gil, do alto da poltrona da qual pode ver a música brasileira a dois palmos acima da mortandade, pegou o violão e compôs uma canção para o jovem violonista gaúcho Yamandú cheia de ginga e devoção. Isso mesmo. Gil faz em geral deferências às três colunas que seguram o teto de sua eterna casa de pau a pique que o acompanha desde a infância em Ituaçu, no interior da Bahia: Dorival Caymmi, João Gilberto e Luiz Gonzaga, com um Bob Marley de lambuja. Ele sabe a força que têm suas notas e suas palavras, não as desperdiça nem as coloca no tabuleiro das jogatinas para lançar moda. Gil está dois palmos acima disso.

Pois desta vez, entre um e outro horário dos medicamentos que toma para o tratamento de uma insuficiência renal, Gil apanhou o violão, lembrou da paixão furiosa que move as mãos de Yamandú Costa e gravou para lhe entregar, nas palavras do próprio violonista, “um abraço musical”. Mas foi mais do que isso. Gil estendeu um tapete vermelho a Yamandú, como se vê poucas vezes na música brasileira. “Eu mesmo não me lembro de uma música que fale de um músico dessa forma”, diz Yamandú, ainda sob o efeito anestésico do susto. É assim que Gil canta sorrindo enquanto é gravado por um celular: “...Yamandú, com seu violão ligeiro, parece que é pressa mas é só suingue à beça / e bossa e pulsação no corpo inteiro / Só quem segue o Yamandú / é o frisson do pandeiro / Vê se pegue o Yamandú, lá vai / o Yamandú não deu / e o Yamandú chegou primeiro”. Há, como sempre, um jogo harmônico acompanhando a letra, que Gil nunca explica. Aqui, seus acordes caminham cromaticamente, casa por casa, criando uma tensão e simulando uma corrida. É a forma de dizer sobre o estilo Yamandú de tocar, algo que fez o crítico Tárik de Souza chamá-lo de “Jimi Hendrix do violão” . “Eu vou hoje mesmo ver o Gil em uma festa na casa do (jornalista) Moreno para agradecê-lo pela música”, diz Yamandú. “Sinto que minha responsabilidade só aumentou, imagine Gil falando isso de você.” 

 

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