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Gilberto Gil fala de novo DVD, política e Stevie Wonder

Músico baiano se apresenta com músico na Praia de Copacabana em 25 de dezembro

Jotabê Medeiros, de O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2012 | 07h00

Um grande show para encerrar o ano: Gilberto Gil e Stevie Wonder tocam na Praia de Copacabana, no dia 25, às 20 h, para um público estimado em um milhão de pessoas. A história de uma bela afinidade musical construída a distância tem mais um capítulo à beira do mar (antes, no dia 23, os dois fazem shows beneficentes no Imperator, no Méier).

Gil conheceu Stevie nos anos 1980, quando fez Só Chamei pra Dizer Que Te Amo, versão de I Just Call to Say I Love You, do cantor e compositor americano. Ambos negros, ativistas, ambos operários do ritmo. Stevie, funk soul brother que está no Olimpo da black music, mudou a face da música moderna com canções como Superstition (1975), base de tudo para dançar que viria depois. Gil foi o aríete do tropicalismo.

O encontro aconteceu em Washington. Gil estava em turnê e lembra como foi: “Estava ensaiando, passando o som de tarde, quando recebi um telefonema. ‘Stevie Wonder está em Washington e quer falar com você’. ‘Stevie Wonder? Aquele Stevie Wonder?’, perguntei. Tinha acabado de gravar a versão de I Just Call to Say I Love You. Liguei e ele disse que queria ver o meu show. Falei ‘claro’. E reservamos uns cinco lugares, ele veio com comitiva”.

Stevie subiu ao palco e tocou gaita em I Just Call. O americano estava em Washington para uma audiência no Congresso, no dia seguinte. Pleiteava o dia Martin Luther King. “Fomos jantar, depois fomos para o hotel dele. Estava hospedado no Watergate, aquele famoso do Nixon. E foi uma conversa longa, ficamos a noite toda, até as 7h30 da manhã. Ele falando sobre como estava receoso de represálias, sabia que eu tinha uma inserção política aqui no Brasil. E daí nasceu essa camaradagem. Quando ele veio fazer uma excursão no Brasil, pediu para que eu participasse.”

Depois disso, Stevie voltou a convite do já ministro Gilberto Gil, em 2006, para um simpósio sobre negritude em Salvador. Quando houve o Rock in Rio, no ano passado, Stevie era um dos astros. “Eu estava em casa, 1 h da manhã, e ele me ligou lá do camarim. ‘Gil, você não vem ao show?’ Eu não podia, tinha chegado de Salzburg, estava morto. Disse: amanhã vou lhe visitar no hotel. Fui, ficamos horas conversando.”

Erasmo Carlos, durante o mesmo Rock in Rio, indagado se gostaria de ver alguma banda em especial ali, respondeu: “Não. Já vi o Stevie Wonder, então já vi tudo!”. Agora, um milhão poderá conferir se Erasmo tinha razão.

“Gilberto Wonder” e “Stevie Gil” são duas faces de uma mesma moeda de ativismo soft, melódico, profundamente relacionado com o tipo de música que fazem: arredondada, dançável, harmônica. O primeiro atua com uma big band. O segundo vai à praia com sua banda estradeira. Revê-los em ação juntos é um privilégio que os brasileiros terão neste Natal.

A ideia original de juntá-los foi da prefeitura do Rio. “O prefeito Eduardo Paes consultou Flora (Gil, mulher do cantor). Perguntou se eu toparia, e se ela faria o meio de campo para chamar o Stevie. Ela se propôs, falou comigo. Eu disse: se é com Stevie, faço sempre”, contou Gil.

O músico está em uma maratona: acaba de voltar de turnê de 45 dias, que o levou de Miami (EUA) a Quebec (Canadá), entre outubro e novembro. Em março, reinicia temporada do show Concerto de Cordas e Máquina de Ritmo. Lança DVD novo pela Biscoito Fino. Na terça-feira, abre a exposição multimídia Gil 70, no Itaú Cultural. Na quinta, ele já estará em Exu (PE), fazendo o show Fé na Festa, em homenagem a Gonzagão.

Quando você e Stevie Wonder conversaram pela última vez?

A última vez que falei com ele ao telefone foi de Nova York, tava terminando minha excursão e liguei para ele. Vinha tentando falar há dias, ele estava muito envolvido na eleição de Obama. Dei sorte de pegar ele em casa. Ele atendeu e estava fazendo música, estava ao teclado tocando. Ficava tocando e falando. “Eu soube que escolheram um juiz negro para a Suprema Corte brasileira. É verdade?” Eu disse: “É, foi! O Joaquim!”. Ele é muito antenado com essas coisas, não para, o tempo todo. Eu falei com ele num dia, dois dias depois vi na TV que ele tinha cancelado um show que faria para uma instituição ligada ao Exército de Israel. Foi exatamente naquele momento que começaram os primeiros bombardeios na Faixa de Gaza. Ele cancelou, se associando à causa palestina.

Acha importante a eleição de Joaquim Barbosa para a presidência do Supremo?

Acho sim, claro. Uma das questões que vêm sendo discutidas no Brasil é a presença de negros em postos importantes do País. Quando eu fui para o ministério, um dos temas era esse também. Quando Pelé foi para o ministério. Juízes negros, professores negros, empresários negros. Ontem (terça-feira) mesmo estive com Condoleezza (Rice), ela fez uma palestra aqui ontem. É interessantíssima, uma pessoa muito qualificada. Ela agora dá aulas de Relações Internacionais em Stanford, em Palo Alto, que é de onde veio. Quando ministra, era secretária de Estado e fez uma visita à Bahia. Levei-a à Igreja do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, com um bando de artistas, Carlinhos Brown, Margareth Menezes. Ela adorou, ficamos amigos. Sempre que vou aos Estados Unidos nos falamos. Como estava aqui, ela pediu ao Nizan (Guanaes) que me convidasse para ir vê-la.

A reeleição de Obama tem o mesmo simbolismo da primeira eleição?

Agora é mais o pragmatismo político, é mais a gestão mesmo, o que ele pode conseguir em saúde, educação, as reformas. A reeleição dele foi resultado de uma astuciosa aliança científica, a partir de avaliações da sociedade. Foi a consolidação de uma nova aliança social, que vem dos setores progressistas dos meios de comunicação, dos meios acadêmicos, negros, hispanos e as mulheres. As mulheres americanas foram o fator novo, o voto feminino. Michelle Obama tem sido sempre fundamental, foi ela que trouxe Obama para esse contexto da militância, todo o processo de desenvolvimento da carreira dele, primeiro como senador e depois como postulante à Casa Branca foi resultado desse protagonismo dela em Chicago.

Você viu que foi aprovado o Vale Cultura na Câmara, um projeto que você iniciou quando era ministro da Cultura?

Vi. Fico satisfeito, porque são projetos que merecem ser retomados, tinham uma certa acolhida da sociedade. Nós tínhamos criado um diálogo interessante com uma bancada de apoio à cultura, cerca de 300 deputados e 30, 40 senadores envolvidos. Havia toda uma construção que Marta está demonstrando interesse em retomar.

Um interlocutor do ministério no governo, naquele momento, era o José Dirceu. Como vê o caso dele?

O Dirceu foi um interlocutor importante. Acompanhou todo o processo. Mais recentemente, já no decorrer do julgamento do mensalão, ele esteve em minha casa na Bahia e também na minha casa no Rio. Tenho um apreço pelo Dirceu, sinto muito tudo isso que aconteceu com ele. Mas, ao mesmo tempo, na medida em que essas questões passaram a ser apuradas, investigadas, etc., etc., acho muito natural que exista um tribunal que se disponha a julgar e a dar um epílogo a tudo. É o que está acontecendo.

Nunca pensou em escrever uma autobiografia?

Não. Primeiro, não tenho muito gosto por essa história de fazer uma investigação de minha própria vida. Também não tenho muito apreço pela valoração do significado de minha inserção na história da música, da cultura.

Não é excesso de modéstia?

Talvez seja. Mas é verdadeiro, não é falso, não. E fica um pouco também a coisa de que o meu negócio é cantar, é fazer música. Todo momento em que eu me dediquei a escrever foi por causa de uma demanda circunstancial. Pode ser até que eu venha a fazer mais tarde. Mas escrever para mim, quando penso na ideia de um livro, em uma escrita mais prolongada, penso sempre em ensaios, coisas filosóficas, sobre determinados temas. 

Há um verso na sua canção Máquina do Ritmo que diz: “No futuro, você vai cantar o meu samba duro sem querer”.

Falando para a máquina, né? Aquela canção é feita de múltiplos diálogos. Tem um diálogo com uma figura idealizada que, na minha concepção, é o João Gilberto. É um diálogo com a máquina e com o João Gilberto. 

É uma tradição sua, o exame da arte confrontada com a nova condição eletrônica. Isso começou com Cérebro Eletrônico?

Foi Lunik a primeira. Depois tem o Cérebro Eletrônico, depois tem Vitrines, que é dessa fase também. E Futurível. Essas três últimas foram feitas na prisão. Daí vêm Parabolicamará, Banda Larga Cordel e agora Máquina de Ritmo. E que mostram uma evolução. No começo, eu ainda tinha uma visão distópica. “Poetas, seresteiros, namorados, correi/É chegada a hora de escrever e cantar/Talvez as derradeiras noites de luar.” Uma visão ainda receosa. “Cérebro eletrônico comanda/Manda e desmanda/Mas ele não anda/Só eu posso pensar se Deus existe/Só eu posso chorar quando eu estou triste.” E aí vai relaxando, porque os resultados vão ficando mais evidentes.

Máquina do Ritmo aborda a questão dos sons sintetizados, programados, tomando conta do fazer musical. Mas você não fala dessas coisas com um sentimento de obsolescência.

Pelo contrário. Os meninos ficam: ah, porque o som analógico era melhor, mais potente, mais denso. Os valvulados davam um som melhor. Tocar com os monitores de alto-falantes no palco. Eu nunca estranhei nada. A estreia do show Qanta, no Palace, recebi naquele dia meu primeiro ear phone. Nunca tinha usado, não sabia o que era. Botei na estreia do show. De lá para cá, nunca mais usei monitores de alto-falantes. Eu gosto, não tenho rejeição. Ao contrário, assumo a posição de apologista, faço a propaganda. Acho que tudo isso resulta de um desejo humano muito profundo.

Qual é a aspiração?

Acho que, no fundo, é o Super-homem. A transposição da consciência, uma infiltração da consciência humana pelos processos maquínicos. As próteses, as interfaces, as cirurgias, os implantes: tudo isso. No plano físico e no plano mental, o desenvolvimento acelerado da neurociência, os drones, a nanotecnologia. Se não há um certo receio? É evidente que sim. Célula-tronco, há uma discussão profunda sobre os impactos éticos e morais disso. Os limites, aonde pode, aonde não pode ir. 

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