Gil relembra seus tempos de sanfoneiro

As quatro músicas do disco deestréia de Gil pela gravadora JS Discos nunca foram regravadaspor ele. O compositor sabe as músicas, mas não lembra as letrasde maravilhas como Vontade de Amar: "Meu sambinha foi brincar, caiu/ Ficou quebrado, semquerer partiu/ E hoje ao meu lado, coitado/ Se queixa da sortepartida que a vida lhe deu." Em estúdio ensaiando para a turnê de lançamento do seupróximo disco, Kaya n´ Gan Daya (Warner Music), seleção decanções de Bob Marley, Gil falou à reportagem, por telefone. Eleestava se instalando (com banda, produtora, agente e todo o seuentourage) na nova sede da GG Produções, um casarão na Estradada Gávea, ao pé da Rocinha, no Rio, e sairá de lá apenas no dia16 de maio, para estrear Kaya n´ Gan Daya no Canecão. Gilberto Gil desembarca em São Paulo no dia 30 de maio,para apresentar no Directv Music Hall seu mergulho no mundo dascanções do papa do reggae, o jamaicano Bob Marley, um dos seusgrandes ídolos. Agência Estado - O que aconteceu que você nunca maisvoltou para a sanfona? Gilberto Gil - Eu a abandonei. Me apaixonei pelo violão,tudo passou a girar em torno do violão. Só recentemente euvoltei a tocar o acordeão. Gravei, no disco com o Milton, acanção Duas Sanfonas, que compus no acordeão. Você ainda toca bem a sanfona? Já não domino mais. Tenho muitas dificuldades. Mas se eu voltar a praticar com afinco, talvez eu volte a tocar comdesenvoltura. Como foi a circunstância da gravação do disco"Gilberto Gil - Sua Música, Sua Interpretação"? Nessa ocasião eu estava tocando sanfona e compondoestava me formando e tinha um grupo, Os Desafinados, comRaimundo Neto e os amigos do bairro Santo Antônio. Estavacomeçando a tocar violão, não compunha na sanfona, sóimprovisava. Nessa ocasião, eu conheci o Jorge Santos, que tinhaum estúdio de jingles. Ele precisava de alguém para tocarsanfona e me chamou. Vi uma oportunidade de mostrar as coisasque vinha compondo. No estúdio, eu gravei um disco com doisjingles, Coça, Coça, Lacerdinha e Povo Petroleiro, feitopara a Petrobras. Em seguida, gravei um single com a cançãoBem Devagar, com o grupo As Três Baianas - Cibele, Cynara euma prima delas, que depois viraria o Quarteto em Cy. Caetanogravou Bem Devagar no disco anterior a Noites do NorteA outra canção do single eu não me lembro qual era. O seu primeiro compacto tinha o subtítulo "A bossanova da Bahia". Por quê? Eu era fascinado pela bossa. Meu estilo já era umaderivação daqueles primeiros elementos da bossa nova que estavamsurgindo, com João Gilberto e outros. Jorge Santos aprendeu aapreciar o gênero por meu intermédio. Chegou a vender bem aquele compacto? Nada, não vendeu nada. Você tem uma cópia? Tenho uma cópia que me foi presenteada por MoacirAlbuquerque, baixista que tocou comigo no Refazendo. Tambémgravou Transa, com Caetano, em Londres. Eu não tinha maisnenhum. Por que você começou a tocar sanfona? Luiz Gonzaga. Eu era absolutamente apaixonado porLuiz Gonzaga. Quando fui para Salvador, estudar no ColégioMarista, passei a ter aulas de sanfona com o professor JoseBenito Colmenero, que era espanhol, tinha grande conhecimento dobandoneón, o acordeão por excelência do tango. Ele namorava umamoça chamada Regina e, quando abriu uma escola de música, deu aela o nome de Academia Regina. Sivuca passou por lá. Colmeneroera médico, formado na Faculdade de Medicina da Bahia, e asprimeiras aulas que tive foram no seu consultório, no Forte deSão Pedro. A sanfona eu ganhara da minha mãe (Claudina PassosGil Moreira), em 1951. Faz 51 anos que eu tenho essa sanfona. Eucontava essa história da sanfona no show que fiz com o Milton. O que acha de Jorge Santos relançar essas músicasperdidas? É interessante esse registro histórico. Ele foi oprimeiro homem do disco da Bahia, tinha arrojo, capacidade deaventura. O programa dele na TV, o Show dos Novos, queentrava antes do Silvio Santos, foi minha porta para o mundo damúsica. Ele condensa em suas gravações uma série de elementosinteressantes da história musical da Bahia. Ele gostava de bossanova no tempo em que ninguém gostava, se alinhou com movimentosde renovação. Na JS Discos, eu produzi o disco de capoeira deMestre Bimba, por exemplo. Você ainda acha que pode compor jingles hoje? Acho que sim. A característica central do jingle éa concisão. Você tem de fazer uma música muito compacta, deforma muito rápida. Tem de ligar fantasia e realidade e aliarisso à capacidade de sedução, de persuasão, mas também à poesia,à beleza. Em quase todas as minhas composições, eu uso a técnicado jingle, tudo isso permanece muito na minha atitude decompositor, além do desejo freqüente da concisão, que nem sempreeu consigo.

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