Gil em Londres: esotérico e contracultural

As primeiras canções de Gilberto Gil no exílio em Londres, datadas de 1970, indiciam uma exploração do tema esotérico à qual corresponde uma apropriada utilização de linguagem cifrada. É o que se percebe em Minimistério, por exemplo. No título, de construção jamesjoyce-lewiscarrolliana, e no verso “aquela nova minimina, flor do ministério”, cabia inclusive uma alusão às sapatas (para a turma de Gil as meninas homossexuais pertenciam ao “ministério”). Com suas referências a “bruxos” como Walter Smetak e locais como a Gruta da Mangabeira, Língua do Pê também combina experiência lúdico-linguística e interesse por esoterismo - que Gil nutria desde o período da prisão, no ano anterior, no Brasil.

Carlos Rennó, Especial para o Estado

16 de agosto de 2014 | 16h00

Reminiscências de tempos e lugares sobretudo da Bahia se fazem presentes ainda em dois sinuosos e insinuantes, além de malemolentes, sambas, não à toa lançados por Elis Regina: Fechado pra Balanço e Ladeira da Preguiça.

Canções criadas em inglês, na maioria gravadas no álbum que lançou em 1971, dão conta da vivência no exílio. Em One O´Clock Last Morning, 20th April, 1970, Gil alude a um homem “tão triste” (é Caetano); na pop Nega, canção de amor, dirige-se a uma mulher, e no blues Mamma, à sua mãe. Em Volkswagen Blues, versão de Volks-Volkswagen Blues (a original em português), incorpora a dimensão da espacialidade nos planos físico e metafísico, expressando o impacto causado pela descoberta do cosmos, com as viagens espaciais, e das filosofias e religiões orientais.

A produção em inglês inclui composições com Jorge Mautner, dando início a uma associação que vai se reafirmar nos anos seguintes e se estender até os dias de hoje. Parcerias como The Three Mushrooms e Crazy Pop Rock conjugam comunicabilidade pop e complexidade temática, abrangendo tópicos que vão das drogas ao apocalipse, da tecnologia à ecologia.

Em termos composicionais, porém, o segundo e último ano em Londres foi mais importante pela criação de três das cinco composições de autoria própria que integrarão o álbum que Gil gravará ao voltar, Expresso 2222, e se tornarão hinos da geração contraculturalista no Brasil. A primeira foi a auto-referente Oriente, espécie de meditação sobre a situação no exílio composta em Ibiza, Espanha, refúgio de hippies de todo o mundo na época. A segunda, O Sonho Acabou. Gil parte da citação da famosa frase (“The dream is over”, verso de God) - com que John Lennon arquivou o deslumbramento com o desbunde e o psicodelismo - para preparar uma reordenação do seu diálogo interno. A gênese da canção se liga ao final dos sete dias do festival de Glastonbury, na Inglaterra, com as barracas sendo desarmadas e o acampamento abandonado.

Com a ideia de viagem expressa na letra, a canção-título constitui de certa forma uma alegoria da cultura dos modificadores e expansores de consciência do período, a par de sua conotação mística. Expresso 2222, de 1972, será um divisor de águas na obra de Gil, na MPB dos 70 e na vida de muitos seguidores, numa época em que se comprava um disco para se saber como iríamos viver nos tempos seguintes. Um LP era como um oráculo.

CARLOS RENNÓ É LETRISTA E JORNALISTA, ORGANIZADOR DE ‘GILBERTO GIL – TODAS AS LETRAS’ (COMPANHIA DAS LETRAS, 1996/2003) E AUTOR DE ‘O VOO DAS PALAVRAS CANTADAS’ (DASH, 2014)

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