Gidon Kremer encerra temporada do Cultura Artística

O violinista Gidon Kremer faz a partir de hoje três apresentações em São Paulo, marcando o encerramento da temporada 2002 da Sociedade de Cultura Artística, que neste ano completou 90 anos de existência. Kremer, um dos mais importantes intérpretes de seu instrumento dos dias de hoje, vem ao Brasil acompanhado de sua Kremerata Báltica, grupo criado por ele e formado por jovens músicos da Letônia, da Estônia e da Lituânia.O repertório das apresentações - a primeira, hoje, e as outras duas na semana que vem (neste meio tempo, os artistas tocam em Buenos Aires) - é um exemplo do modo de trabalho de Kremer, nome bastante associado à defesa da música contemporânea. Hoje, serão interpretados o Adágio da Sinfonia n.º 10 de Mahler e As Oitos Estações, interpretação combinada das Quatro Estações de Vivaldi com as Quatro Estações Portenhas de Astor Piazzolla. (O compositor argentino dedicou esta peça ao violinista, que a gravou há alguns anos).Esta obra também está presente no programa de segunda-feira, que se completa por Last Round, de Golijov, Pour Guidon, de Wustin, e Don Aldebarran, de Pelecis. E, na terça-feira, Música Dolorosa, de Vasks, Concerto Fúnebre, de Hartmann, e o Octeto em Dó Maior Op. 7, de Enescu, compõem a apresentação.Estranheza - Causou polêmica, na década de 80, o pedido que Gidon Kremer fez, a Artur Shnittke, de uma cadência nova, de estilo moderno, para ser usada no Concerto para Violino de Beethoven, que ele gravou com Leonard Bernstein. A mesma estranheza com que foi acolhida a sua decisão de inserir, no primeiro movimento do Concerto para Violino de Brahms, uma peça para violino de Max Reger.Mas Kremer - nascido em Riga em 1947 - escolheu nunca trafegar pelas trilhas mais fáceis. Desde que concorreu, em 1967, ao Prêmio Rainha Elisabeth, em Bruxelas, esse aluno de David Oistrakh e Pavel Bondarenko surpreendeu por suas escolhas muito originais, o colorido pessoal, a intensa musicalidade.Está no sangue: o pai, seu primeiro professor, era concertista; e o avô, diretor do conservatório de sua cidade natal. Kremer sempre se interessou pela execução de obras pouco conhecidas; e sempre impôs sua visão individual à execução de peças consagradas, como é o caso das sacrossantas partituras de Beethoven e Brahms. Foi ele, numa época em que esse tipo de experimentalismo era malvisto na URSS, quem estreou o Offertorium de Sofia Gubaidúlina, o Concerto Grosso para dois violinos de Shnittke, e a Tabula Rasa, também para dois violinos e orquestra, de seu conterrâneo Arvo Pärt.As possibilidades abertas pela tecnologia também o seduzem. Ao gravar o Concerto Duplo de Bach, ele usou o recurso da superposição de faixas para fazer um dueto consigo mesmo. E a preocupação em revelar compositores novos e em trabalhar na fronteira entre o erudito e o popular - que marca muito o seu trabalho com a Kremerata Báltica - tornou-se mais forte a partir do momento, em 1981, em que Kremer deixou a URSS e instalou-se na Alemanha.A ele deve-se a fundação do Festival de Lockenhaus, na Áustria; em parceria com o violoncelista lituano Misha Máiski, ele formou um grupo de câmara que desenvolveu importantes atividades; e com a Kremerata - cujo título faz o trocadilho entre seu nome e a palavra camerata (formação de câmara) - o violinista faz programas em que oferece, como na excursão atual, peças dos autores bálticos Georgis Pelecis e Peteris Vasks, do romeno George Enescu, ou de um dos maiores sinfonistas do século 20, Karl Amadeus Hartmann, imerecidamente pouco conhecido neste país.Kremerata Báltica. Amanhã e dias 11 e 12 às 21 horas. De R$ 90,00 a R$ 180,00. Teatro Cultura Artística. Rua Nestor Pestana, 196, tel. 3258-3616. Patrocínio: Bovespa, Telefônica e Votorantim.

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