Giana Viscardi faz show no Sesc Pompéia

E no meio de tantas cantoras chatas e sem nenhuma graça, eis que a paulista Giana Viscardi vem impressionando desde o primeiro CD-solo, Tinge (2001). Com o segundo, 4321 (Tratore), que lança com show nesta sexta-feira no Sesc Pompéia, em São Paulo, ela põe mais molho e pimenta na receita de samba, sem deixar de lado a influência nordestina. Giana cantou muito forró no início da carreira. Foi para os Estados Unidos, onde passou quatro anos captando os bons fluidos do jazz via África. No mesmo cobiçado e conceituado Berklee College of Music, onde foi estudar, em Boston, conheceu o violonista austríaco Michael Ruzitschka. Admirador de Baden Powell, entre outros ícones da bossa nova, ele tinha ido atrás de parcerias com brasileiros. Deu no que deu. Hoje, casado com Giana, Ruzitschka divide a autoria de várias composições com ela nos dois CDs e toca sambas com uma levada que nada fica a dever a muito bambambã brazuca. Morando de novo em São Paulo desde 2003, Giana admite que o acento mais chegado ao samba (moderno, mas não pop) no novo CD é conseqüência dessa volta. Não que não tivesse antes, mas o que faz é confirmar seu objetivo. "Tinge tem uma coloração mais nordestina. E também porque eu passei muito tempo nos Estados Unidos, as pessoas identificavam meu trabalho com o afro-jazz", lembra. Mas o que ela persegue, e traduz muito bem para seu universo, é a mulatice e a pegada estilosa de Gilberto Gil e João Bosco. "Tem muita gente que fica escondendo as referências. Eu não. O som deles é o que eu reverencio." O sambalanço de João Donato e a rítmica múltipla de Djavan entram tranqüilamente na receita. Em 4321, Giana dá banho de suingue, com capacidade de improviso jazzístico, toques daquela graça jovial que provoca sorrisos de satisfação no ouvinte, dominando a divisão do samba como poucas de sua geração. Em seu canto, que está menos parecido com a da Gal Costa dos anos tenros do que em Tinge, Giana também reafirma o prazer na fluência das palavras. "Meu envolvimento com música é bastante rítmico, por isso também sempre fui buscar muito o ritmo das palavras." Das 12 faixas do CD - que sai no Japão com três bônus - há só uma regravação, personificada, de Vem Morena (Luiz Gonzaga/Zé Dantas), com o violão citando Expresso 2222, de Gil. A faixa-título é samba-jazz bem donatiano. Gata Lúcida, como ela mesma diz, se parece muito com os sambas rápidos de Bosco. Em O Nome do Homem (inspirada no poeta português Fernando Pessoa) evidencia a familiaridade entre três gêneros: fado, xote e fox. No show de amanhã, Giana também vai mostrar mais os dotes de intérprete, cantando não apenas as saborosas composições próprias (o que a distingue de tantas clones de clones) como outras de Chico Buarque (Cantando no Toró), Tom Jobim (Fotografia) e o já citado Gonzagão. Chico César (parceiro dela em Deslumbrada Lua, que encerra 4321), faz participação especial. Além de Ruzitschka (violões e guitarras), Giana será acompanhada por Fábio Torres (piano), Sérgio Machado (bateria) e Márcio Arantes (baixo). É uma promessa que se consolida. Giana Viscardi. 90 min. 12 anos. Sesc Pompéia (344 lug). Rua Clélia, 93, 3871- 7700. Amanhã, 21 h. R$ 3 a R$ 10

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