Germano Mathias chega aos 80 com a ginga intacta

Sambista, que completa em junho oito décadas de vida, lança CD e participa de série de Fernando Meirelles

Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2014 | 02h09

"Germano Mathias, sambista de fato. Pendurou as chuteiras, mas foi um sambista extraordinário", disse Gilberto Gil em um show na USP em maio de 1973, após interpretar Minha Nega na Janela. Só que malandro de verdade nunca desiste, especialmente aquele que é 'doutor' por ter sido considerado o 'O Catedrático do Samba' pelo jornalista Randal Juliano. Se, a partir da década de 1960, a carreira de Germano Mathias entrou em ocaso, foi revivida nos anos 2000, com gravações regulares e DVD. Prestes a completar 80 anos no próximo dia 2, e chegando às seis décadas de carreira, ele lança um novo CD tendo o futebol como mote de boa parte das músicas, aproveitando a realização da Copa Do Mundo.

Parte desse repertório será ouvida hoje, em apresentação no Sesc Osasco - pelo projeto O Samba Pede Passagem - e em maior grau no lançamento de Meu Samba É de Futebol no Sesc Pompeia, no dia 13 de junho. É o retorno aos palcos de Germano, que deixou de fazer shows no início de 2014 após operar o braço direito, fraturado há sete anos em uma apresentação em São Luís do Maranhão. Os pinos fixados em uma intervenção anterior se soltaram durante a gravação de uma cena de briga de Os Atravessadores do Samba, episódio da série Os Experientes, no qual atua. Com foco nas situações da terceira idade, é dirigida por Fernando Meirelles e será exibida pela TV Globo. Mesmo sem data definida para ir ao ar, é um de seus muitos orgulhos.

"Chego aos 80 anos e não posso reclamar da vida. As coisas ficaram um período difíceis, especialmente na época do iê-iê-iê. Hoje está bem melhor. Quem na minha idade ainda é chamado pelo Meirelles para aparecer na Globo, fazer show e botar CD na praça?", questiona o sambista no sofá do pequeno apartamento na Vila Brasilândia, considerando que ser 'o último dos moicanos' é seu trunfo principal. Germano é adepto dos sambas sincopados, e imprimiu seu ritmo em músicas próprias e nas releituras de Geraldo Pereira e Zé Kéti. Na visão dele, não deixa sucessores ou semelhantes. O samba liso venceu a ginga.

Mas a síncope está presente no novo trabalho, dominado por compositores da antiga. Germano resgata Samba Rubro-Negro (Wilson Batista e Jorge De Castro), Bronca da Marilu (Jorge Costa e Américo de Campos) e Menino Prodígio (Severino Ramos), que no estúdio ganhou o codinome de Samba do Pai Cafetão, já que a música retrata a figura paterna em busca de riqueza por meio da possibilidade de o filho jogar futebol. O CD teria como título Germano Mathias na Copa, porém os protestos contra a competição mudaram os planos.

Nada de novo para quem soube se adaptar às adversidades do mercado, da vida e da sociedade. Seu grande sucesso, o mesmo que Gil interpretou no concerto da USP, não é mais cantado por seu autor. Versos como "eta nega tu é feia/que parece macaquinha" podem soar politicamente incorretos nos dias de hoje. "Os crioulos sabiam que a música não era racista e gostavam dela. Mas hoje tem o orgulho negro e associações desse tipo, que podem ver de outro jeito. É uma música engraçada, mas não quero problemas", diz Germano. A latinha de graxa e a frigideira ele também deixou de tocar por causa da fratura no braço. Afirma não sentir falta. "Eu continuo cantando, é isso que importa. Eu me cuido e não tenho tempo pra me queixar, apesar da saudade dos amigos. O Jair (Rodrigues) já foi, né?. Daqui a pouco vou embora também. Mas sou teimoso e vou me ver na Globo antes".

Em Os Atravessadores do Samba, Germano interpreta um sambista da velha guarda. Antes, ele já havia atuado na novela Brasileiras e Brasileiros (1990), do SBT, e nos filmes O Preço da Vitória e Quem Roubou Meu Samba?, ambos de 1959. A princípio, ele recusou o convite. "Lembraram que eu sou ator e falei que não sou, eu sou é à toa. Só que vi a oportunidade. Vou aparecer na TV e vender show pra caramba com essa participação. Pode escrever." É a crença de um homem cuja ginga pode até agonizar. Mas não morrer.

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