Gerações se encontram no "Deep Purple In Concert"

Um verdadeiro encontro de gerações marcou a primeira noite do megaespetáculo "Deep Purple In Concert", que reuniu o peso da banda inglesa a arranjos da Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo, regida pelo maestro inglês Paul Mann, além do convidado especial Ronnie James Dio, considerado o melhor vocalista de rock de todos os tempos. Movidos pelo fanatismo e a curiosidade diante do inédito "concerto" da banda no Brasil, ao lado de uma sinfônica, os fãs lotaram as 2.705 cadeiras dispostas na Via Funchal no primeiro dia da turnê pelo País, intitulada Deep Purple in Concert, até dia 9 de setembro, em São Paulo. Com mais de 30 anos de estrada e cerca de 24 álbuns lançados, o Deep Purple é ao lado de Led Zeppelin e Black Sabbath, considerada uma das bandas fundadoras do rock pesado, tendo em sua atual formação Ian Gillan (vocal), Roger Glover (baixo), Steve Morse (guitarra), Jon Lord (teclado) e Ian Paice (bateria).A idéia de juntar rock e orquestra não é nova e o próprio Deep Purple já fez isso há 30 anos, quando gravou "Concerto For Group And Orchestra", peça escrita por Jon Lord, em parceria com a Royal Philarmonic Orchestra de Londres. A turnê Deep Purple In Concert comemora os 30 anos da gravação do Concerto e também traz as músicas do mais recente trabalho da banda, "Deep Purple In Concert With The London Symphony Orchestra", gravado ao vivo em setembro do ano passado, no lendário Royal Albert Hall, em Londres e lançado no Brasil pela Roadrunner Records.Em São Paulo, o repertório foi de 16 músicas, sendo faixas do novo CD, temas que fizeram parte do primeiro trabalho da banda com orquestra, além de sucessos como "Pictures of Home", "Sometimes I Feel Like Screaming", "Ted and Machine e para fechar a noite com chave de ouro, a clássica "Smoke on The Water", com participação especial de Ronnie James Dio, que também fez "Rainbow in The Dark", "Sitting in a Dream" e Love is All".De pai para filho - Pedro Rondon (43), que trabalha com informática, e seus filhos Jorge e Thiago, com 16 e 18 anos respectivamente, vieram diretamente de Brasília (DF) para conferir de perto os sucessos da banda. Eles chegaram em São Paulo no vôo das 14 horas e estavam contando as horas no relógio para conferir o show dos ídolos. "Sou fã da banda desde a minha adolescência. Quando fiquei sabendo que haveria o show, pedi para um amigo daqui de São Paulo comprar o ingresso. Não poderia perder essa oportunidade, que pode ser única", disse Rondon, referindo-se a primeira apresentação da banda no País, acompanhada por uma orquestra sinfônica. Jorge e Thiago afirmam orgulhos que cresceram ouvindo os discos do pai. "Crescemos ouvindo bandas de rock. Além de Deep Purple, também gosto de outras bandas como o Queen", disse o mais velho. Para não perder nenhum detalhe da apresentação e ter o máximo de conforto durante o "concerto", a família Rondon garantiu seu lugar num camarote, no valor de R$ 150,00. Quanto aos gastos com o show e a viagem até São Paulo, eles foram unânimes em afirmar que "vale a pena o sacrifício".Já a família do engenheiro paulista Willian Fernandes, 41 anos, é um bom exemplo do que a afinidade musical é capaz de fazer. Ele foi ao show acompanhado de sua esposa, Denise, 41, que é bióloga, e dos filhos Gabriel e Lucas, com 13 e 11 anos. Fanático pela banda, foi o engenheiro quem apresentou para família os clássicos do Deep Purple e de outras bandas do gênero. "Já assisti a um show do Deep Purple no Olympia, há dois anos, mas tenho certeza que a apresentação de hoje será bem diferente", destacou ele.Mas não é apenas o rock que mantém a família Fernandes sempre unida. O casal também costuma levar os filhos em shows de música popular brasileira, além de incentivar a prática de algum instrumento musical. Tanto é que o pai toca teclado em uma banda, a mãe era vocalista e agora, os irmãos Gabriel e Lucas, que já tocavam violão, estão iniciando as aulas de guitarra. "Eu vim no show para ver o Steve Morse", disse o pequeno Lucas, referindo-se ao guitarrista do Deep Purple. Já Gabriel afirma que a intenção é formar uma banda entre a família, principalmente para tocar os clássicos do rock. "Esse tipo de união é muito bom e saudável. Temos uma afinidade musical e gostamos de fazer os mesmos programas. Como a música nos mantêm unidos, não sobra tempo para brigas", avalia Denise.Em nome da música - O estilo do músico finlandês Timo Kaarkoski, 32, com cabelos loiros na altura da cintura e jaqueta de couro, não esconde sua adoração pela banda. Há um ano vivendo no Brasil, ao lado da esposa Rita de Souza, 25. Kaarkoski disse que ganhou o primeiro disco do Deep Purple aos cinco anos de idade. "Já assisti cinco shows da banda na Inglaterra e na Europa. Este será o primeiro no Brasil e tenho certeza que o mais interessante nessa apresentação será a participação da orquestra sinfônica. Eu acho que vai ser ótimo", afirmou o finlandês. Rita confessa que das música da banda, conhece somente as mais conhecidas. "Acho legal o som, mas não sou fã como ele". Apesar de reclamarem do valor do ingresso, que variava de R$ 60,00 a R$ 150,00, os universitários Ricardo Tormena, 23, e Thais Lipari, 22, de Ribeirão Preto, racharam as despesas do combustível até São Paulo com os estudantes Ana Paula Araújo e Gustavo Arruda, ambos de 23 anos, de São Carlos, para assistir ao show. "Achei muito caro o valor do ingresso e na minha opinião isso é uma falta de respeito com o público fiel que curte rock", desabafa Tormena. Já Ana Paula acredita que por ser um show diferente, com participações especiais, o valor do ingresso valeu a pena. Para conseguir os ingressos de meia-entrada, vendidos somente na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE) no início do mês em São Paulo, os universitários contaram com a ajuda de amigos da capital que enviaram os mesmos via sedex. Mas em meio às reclamações durante a fila na entrada na Via Funchal, a turma demonstrou entusiasmo e uma grande expectativa em relação a apresentação do Deep Purple. Prova de que algumas pessoas são capazes de qualquer coisa em nome de um ídolo, o supervisor de vendas, Nelson Spinosa, 49, disse que aproveitando o "alvará" concedido pela esposa, comprou ingresso para os três dias do espetáculo. "Sou fã de carteirinha do Deep Purple e achei grandiosa a idéia da banda unir sua música aos arranjos de uma orquestra sinfônica. É uma maneira de mostrar aos fãs de rock, os detalhes e a importância da música clássica", avaliou Spinosa, que já assistiu dois shows da banda quando esteve na Inglaterra. "O desagradável é agüentar os comentários de pessoas que vêm ao show e não entendem o verdadeiro espírito do concerto, da mensagem da banda", disse Spinosa, referindo-se aos gritos e comentários que surgiram durante o início da apresentação da orquestra, como: "deixa de enrolar, queremos música, queremos Deep Purple". Loucuras - Spinosa, que é contrabaixista, lembrou ainda que entre as loucuras que já fez em nome do rock, quando era adolescente chegou até a vender seu carro para poder assistir o maior concerto de rock da história, os três dias do Festival Woodstock, realizado em 1969, em Nova York. "Não abro mão de ver meus ídolos de perto. Faço qualquer loucura mesmo", destacou.Aproveitando sua passagem por São Paulo para divulgação do novo CD acústico, o vocalista e guitarrista Pepeu Gomes que mora no Rio de Janeiro, disse que é fã da banda e amigo pessoal do guitarrista Steve Morse, com quem dividiu o palco durante uma apresentação em Munique, no Sul da Alemanha. "Além de ser fã, estou aqui por dois motivos: para dar um abraço em Morse e também para ter algumas idéias pois estou planejando para o final do ano um show com músicas brasileiras, acompanhado por orquestra", frisou Pepeu.

Agencia Estado,

10 de setembro de 2000 | 15h21

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.