DANIEL TEIXEIRA/ ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ ESTADAO

Geração da 'audição ansiosa' faz músicas ficarem menores e mais 'objetivas'

Segundo artistas, produtores e as próprias plataformas, jovens não ouvem músicas com mais de dois minutos e meio de duração até o fim

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

Existe uma nova ordem no reino dos hits da música pop, e ela está sendo ditada pelos ouvintes de streaming, os consumidores de faixas disponíveis em plataformas como Spotify, Deezer e Amazon Music. Algo que já começa a ser chamado de “audição ansiosa” tem definido parâmetros do que seria um novo sucesso nas duas ou três pontas do processo. O compositor precisa pensar em canções com menor tempo de duração; o produtor tem de fazer com que tudo seja mais direto e funcional para que o ouvinte não vá embora e a própria plataforma deve responder rápido à nova demanda do ouvinte que ajudou a criar.

Uma boa produção feita em 2021 – e por boa entenda algo capaz de atrair milhares de ouvintes que não abandonem a faixa nos primeiros segundos e que, conquista das conquistas, passem a seguir o artista e a buscar por suas produções antigas – precisa, em resumo, ser objetiva e curta. Isso porque esse ouvinte que cresceu com o streaming não ouve, segundo as estimativas das próprias plataformas, músicas com mais do que dois minutos e 30 segundos de duração. Essa é a média. Se chegar a três, temos uma vitória digna de Grammy. 

Mas, o que são músicas objetivas? Aqui é preciso ouvir os produtores, figuras que se tornam tão ou mais importantes do que o próprio compositor: mediadores que transformam canções do novo e do velho mundo em possíveis potências de compartilhamento jogando no novo tabuleiro. Dani Brasil é um deles. DJ renomado nos Estados Unidos, com residências em Atlanta, Washington, Miami, Chicago e Nova York, é um nome forte da tribal house que, ao lado de Rafael Dutra, recondicionou o hit The Best, de Tina Turner, para milhares de ouvintes. “Antes, podíamos contar uma história, criar uma narrativa. Havia uma introdução, uma melodia crescente, um auge. Mas, hoje, as pessoas não têm mais paciência. As mensagens devem ser diretas, o impacto precisa estar logo no início.” Se isso é ruim? “O meu interesse é ter plays, quero que o ouvinte não vá embora e vou fazer de tudo para que ele fique.”

Outro nome da produção estelar, o carioca Tiago da Cal Alves, o Papatinho, DJ, beatmaker e produtor autodidata, viu tudo mudar desde que ajudou o grupo de rap ConeCrewDiretoria a acontecer, nos anos de 2010, e agora, quando já colaborou com Marcelo D2, Seu Jorge, Criolo, Black Alien e produziu Anitta nas faixas Tá com o Papato (1.830.652 visualizações no YouTube) e Onda Diferente, incluindo um feat (colaboração) com o rapper Snoop Dogg e Ludmilla (104.788.020 visualizações). Por suas constatações, o mundo musical não é mais da década de 2010. 

“Além das facilidades do streaming, a geração nova é bombardeada por informações rápidas ao mesmo tempo. Stories são de 15 segundos, músicas para o TikTok têm um minuto, o Twitter aceita pouco texto. Se sua música não for direto ao ponto, você perde esse ouvinte.” E ele sente que o encurtamento do discurso musical ainda não terminou. “A tendência é diminuir mais.” E joga o jogo. “Eu prefiro ter uma música de dois minutos ouvida por duas ou três vezes pela mesma pessoa a ter uma de quatro que ninguém ouve. Eu tento bater os dois minutos e meio, estourando.” Papato diz algo mais que pode chocar amantes dos álbuns de vinil, CDs ou de qualquer ideia de álbum. “Só os artistas que têm muitos fãs devem lançar álbuns. É muito difícil fazer uma pessoa ouvir um disco inteiro. Melhor é lançar uma faixa de cada vez.”

As plataformas mais ágeis identificaram as demandas de seus fregueses. “Eu não ouço nada com mais de três minutos de duração”, diz Mileny Ferreira, esteticista de 33 anos. “E só busco playlists por estado de espírito, como ‘música calma’, música para dormir’, essas coisas...” Bruno Vieira, head da Amazon Music no Brasil, conta que músicos e produtores que hospedam faixas na companhia têm um mapeamento que informa o que deu e o que não deu. “Analytics em tempo real permitem que eles tenham mais informações para criar estratégias e se conectar com a audiência. Podem realizar testes, lançar singles, fazer pré-lançamentos em redes sociais, entender a aderência das canções, saber onde as músicas têm sido adicionadas... Tudo isso traz insights.” 

Mas há algo importante que precisa vir para a discussão: as plataformas não são represas de produções pragmáticas para ouvintes ansiosos, mas polos distribuidores de artistas e consumidores representantes de três ou quatro gerações. Assim, o comportamento da maioria não é o de todos. Como explicar a Lulu Santos que suas músicas, agora, não podem ter uma introdução maior? Ou melhor, que introduções e solos de guitarra ou de qualquer instrumento são coisas tão démodés quanto a palavra démodé? Como dizer a Caetano Veloso que os ouvintes irão embora se ele fizer algo com mais do que três minutos?

Lulu fala primeiro: “Minha música Inocente (lançada há dois meses) tinha 4 minutos e dez segundos. Disseram que estava grande e editei para ficar com 3 minutos e 21 segundos. Quer saber? A música ficou melhor”. Caetano fala agora: “Amigos norte-americanos me contam que grandes nomes, como Kanye West, estão fazendo coisas muito mais curtas. Mesmo figuras já estabelecidas estão fazendo faixas curtas por causa dessa reação às longas. Eu sou de um tempo em que as canções podiam ter três, cinco, sete ou dez minutos, e continuo sendo desse tempo”.


Tempo curto já fez hits memoráveis

É preciso lembrar que João Gilberto, Dorival Caymmi e Tom Jobim nunca precisaram de mais do que três minutos

Apenas o banco de dados do Spotify recebe, por dia, mais de 40 mil novas músicas feitas pelo mundo. Ou seja, somando tudo o que já foi gravado pela velha indústria, que também foi parar nas plataformas, com a massa de novas produções que as companhias hospedam, já existem mais músicas no planeta do que terráqueos para ouvi-las. Uma boa questão de agora parece ser, e vale a filosofia, como não dessacralizar o ato único de uma canção? Como não esvaziar a magia? E, ao mesmo tempo, como criar uma canção que seja ouvida por alguém com menos de 25 anos até o final?

Caetano Veloso, com o álbum Meu Coco recém-lançado, falou com o Estadão. “Eu sei que estou sendo jogado nessa barafunda de canções que saem no mundo nessas plataformas. Mas eu digo que há o mesmo prazer infantil de amar as canções também pela sua quantidade. É engraçado. Porque eu também tenho essa ideia que você falou das canções sagradas, que precisam ser raras mesmo que haja milhões de canções. É uma dialética dessas duas coisas que eu não consigo... Só consigo ver como uma dialética.”

A exigência do tempo curto não é uma novidade entre as atrações psíquicas que uma canção deve ter para a conquista de um ouvinte. Elas soam como profanação por virem agora como um dos ditados para se fazer um novo hit, mas, na verdade, essa sempre foi a regra. Paul McCartney sabia que ultrapassava a linha do razoável em 1968 quando fez Hey Jude com sete minutos e cinco segundos de duração. Nada no pop era tão longo. Mas aí entrou algo que ainda pode derrubar todas as leis, a força de uma música, e o que era longo fica sempre parecendo curto demais todas as vezes que essa música acaba.

Os hits de Tom Jobim, João Gilberto e Dorival Caymmi estão na média dos três minutos. Águas de Março tem 3:32, Garota de Ipanema, 3:20; Samba do Avião, 2:48; e, pasmem, Bim Bom, com Stan Getz e João Gilberto, precisou de 2 minutos e 9 segundos para se tornar imortal. Curiosamente, o free jazz e o rock progressivo, duas frentes radicais que combateram ferozmente a ditadura dos três minutos, foram bem menos populares. Uma informação importante. 

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