George Harrison relança "All Things Must Pass"

Em 1970, George Harrison já estava na vanguarda. Dois anos antes, tinha sido o primeiro beatle a sair com um disco-solo, a trilha Wonderwall Music. Em 1969, já tinha feito um álbum experimental, com sintetizadores primitivos, chamado Electronic Sound.Há 30 anos, no entanto, no calor da separação dos Beatles, era temerário para qualquer um dos quatro sair lançando algo. Pois Harrison não só lançou algo, como o fez com estilo. Nas notas que escreveu para esta reedição, Harrison até pede desculpas por ter sido tão ambicioso, fazendo essa "superprodução que parecia apropriada naquela época".All Things Must Pass trazia colaborações de Bob Dylan, Klaus Voormann, Phil Collins, Booby Keys, Alan White, Gary Wright, Gary Brooker, Jim Price, Pete Drake, Eric Clapton, Billy Preston e um só parceiro da ex-banda, Ringo Starr. E começava a reescrever a história de cada um dos Beatles em suas individualidades.Harrison estava mordido. Chamou o mítico Phil Spector para produzir o trabalho. All Things Must Pass saiu na sua época, como um disco triplo. Hoje já cabe num CD duplo, e retorna com cinco canções inéditas - I Live for You (um take que não foi usado), Beware of Darkness (versão alternativa), Let It Down, What Is Life (mixagem da qual nem mesmo Harrison lembrava) e My Sweet Lord (uma versão atualizada).Esta última, uma das mais famosas canções do ex-beatle, é polêmica. Ficou provado que era um plágio ("involuntário, segundo o tribunal") de He´s So Fine, composta por John Mack em 1963, gravada pelos Chiffons. Harrison ficou abatido na época, tanto que chegou a compor uma música em resposta ao processo, This Song. "Você tem que passar por isso para saber o que é", afirmou, em 1977. "Sofri demais durante o processo."No fim de 2000, no entanto, o veterano guitarrista já parecia ter definitivamente enterrado o passado. Definiu My Sweet Lord como uma obra "de grande espiritualidade" e que mantém seu apelo nos dias de hoje. A nova versão que ele mesmo traz no relançamento do seu disco é inacreditável. "Halleluyah, Hare Hare, Krishna Krishna", berra o ecumênico Harrison, em plena forma, acompanhado por um coral gospel.I´d Have You Anytime, a primeira faixa de All Things Must Pass, traz a primeira grande parceria de Harrison com Bob Dylan, o encontro de dois mitos. A sexta faixa, If not for You, foi presenteada a Harrison pelo bardo fanho, que já a tinha gravado também no seu disco New Morning.Harrison respeitou a circunstância histórica e mexeu pouco na sua obra. A foto preto-e-branco da capa original foi levemente colorizada. As músicas não sofreram remixagens ou retoques, apesar da remasterização.Cada uma daquelas canções de Harrison tem uma história. Apple Scruffs, por exemplo, foi feita por ele em 1967, quando os Beatles estavam gestando Sgt. Peppers. Literalmente, apple scruffs significa nucas de maçãs, mas "scruff" era uma gíria para designar pessoa mal vestida, "amarrotada". Para Harrison, era uma boa palavra para designar o que diferenciava suas tietes das bem vestidas secretárias de Abbey Road, sentadas ali nos degraus. Ele fez a música para homenagear aquele grupo de fãs mais insistentes.Entre as faixas "novas", destacam-se as boas versões acústicas de Let It Down e Beware of Darkness, com um dedilhado de violão e um vocal rasgado, tenso, que antecipa o John Lennon de Imagine. O disco com o qual Harrison cortou seu cortão umbilical dos Beatles é um grande trabalho, com todas as marcas do guitarrista: timbre original, ritmo, desenhos melódicos raros, agilidade e o vocal harmonioso, que dispensam adjetivos.A versão acelerada, roqueira de ladeira abaixo de What Is Life, outra faixa inédita, merece destaque à parte. Como é que Harrison não se lembrava disso? Talvez tenha parecido um pouco acelerada demais para o disco, mas o fato é que é uma obra-prima. É a 13.ª faixa do primeiro CD, instrumental, movida a uma guitarrinha nervosa e um clima de festinha no sótão.Senhores, esse é um disco respeitável de um dos mais respeitáveis dos Beatles (existiu algum que não merecesse atenção?) A obra está tinindo de nova, embora balzaquiana. Harrison, que escapou de se tornar o segundo mártir da banda, ao ser esfaqueado por um doido em sua mansão em Henley-on-Thames, em Oxfordshire, às portas do réveillon de 1999, mostra-se recuperadíssimo.Segundo o dramático relato do caçula dos Beatles ao júri no ano passado, ele já tinha entregue a alma após lutar com o agressor em sua casa de 120 cômodos, e sentia o gosto de sangue na boca, quando a polícia chegou e conseguiu salvar sua vida e a de sua mulher. Não toleraríamos mais essa barbaridade.

Agencia Estado,

19 de fevereiro de 2001 | 15h39

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