Natalia Russo/AE
Natalia Russo/AE

George Harrison à brasileira

Dono de uma coleção de réplicas de guitarras utilizadas pelo ex-beatle, Marcus Rampazzo foi um dos poucos brasileiros a ter contato com o músico que revolucionou toda uma geração

João Paulo Carvalho - estadão.com.br,

29 de novembro de 2011 | 11h00

"Qualquer canção dos Beatles que você tocar sem a parte do George Harrison fica muito sem graça. Ele criava um riff, uma melodia. Não dá para imaginar a música sem isso aqui - diz, tirando o dedilhado de Help!. Como ele criou este solo?", afirma Marcus, referindo-se ao trecho inicial. Conhecido como o George Harrison brasileiro, Marcus Rampazzo, o Marcão, é guitarrista da Beatles 4Ever, primeira banda do Brasil a fazer cover dos Fab Four. Fã de carteirinha do ex-beatle, o músico é dono de uma coleção de réplicas de instrumentos utilizados por Harrison.

"George era a moldura do negócio, a peça que faltava a John e Paul.", diz Marcus ao iniciar a entrevista com o repórter do Estado em seu estúdio na Mooca, zona leste da capital paulista. Na entrada, fotos e mais fotos do quarteto de Liverpool. Um rosto, entretanto, ganha a preferência do músico: o de George Harrison.

"Tá vendo aquela guitarra ali na mão do George?", aponta para uma das inúmeras imagens na parede. "É uma Gretsch 1964. Foi a partir dela que comecei a colecionar instrumentos. Quando vi a guitarra na mão do George, no filme Help! (1965), eu me apaixonei. Já tive quatro modelos idênticos", complementa Marcus, antes de abrir a porta do quarto principal e exibir sua extensa coleção.

No local, todo cuidado é pouco para não esbarrar nas guitarras que ficam expostas no chão. "Acho que tenho quase todas que o George usou nos Beatles e também em sua carreira solo. Sempre que o vejo com uma guitarra diferente, corro atrás para consegui-la. Não dá para deixar passar", revela.

Marcus, que estudou Teoria Musical nos Conservatórios Ernesto Nazareth e Paes de Barros, conta que admiração por George Harrison teve início muito cedo. "Eu comecei comprando revistas e álbuns de figurinhas dos Beatles na época de colégio. Todos vinham até minha casa para admirar minha coleção. Com o tempo, juntei o fanatismo pelos Beatles às guitarras. Vem daí, portanto, minha preferência pelo George", conclui.

Marcus diz não ter conhecimento de quanto gastou com os instrumentos. "Perdi a conta. São mais de 40 anos colecionando. É impossível saber o número de guitarras que tenho", revela.

"Há alguma guitarra predileta?". "Bom, favorita é difícil, mas quero lhe mostrar uma muito especial", interrompe, indo em direção ao quarto ao lado. Trajando um conjunto jeans similar ao utilizado por George Harrison na famosa capa do álbum Abbey Road (1969), Marcus, que dedilha os primeiros acordes em pé, traz uma Fender Stratocaster com diversos detalhes. "Foram pintados à mão", diz, sem esconder o orgulho que sente do objeto.

"Linda, não é? O cara ficou muito tempo pintando isso aqui. Cada florzinha, cada detalhe. É a Fender que o George utilizava na época do Magical Mystery Tour (1967). Pedi para deixar igual a dele. Usei essa guitarra para tocar com o Beatles 4Ever no dia da morte do George".

Seguindo os passos da carreira do ídolo, Marcus também aprendeu a tocar instrumentos pouco comuns, como a cítara indiana - objeto de 20 cordas que emite ondas gama e muito utilizado para meditação.

"Within You Without You, do Sgt. Pepper's (1967), é a música mais difícil do George Harrison. Ela é tocada com uma cítara igual a essa aqui", diz segurando o instrumento. "Toda vez que vou tocá-la em algum show, fico três dias estudando a melodia. É muito complicada!", diz Marcus, com a cítara nas mãos, esboçando as primeiras notas.

Encontro com o ídolo. Apaixonado por automobilismo, George Harrison foi o primeiro beatle a visitar o Brasil, em 1979, para acompanhar o GP de Fórmula 1. Harrison era amigo do brasileiro campeão mundial Emerson Fittipaldi.

Quando soube da presença do astro no País, Marcus não hesitou e foi até a porta do hotel onde o beatle estava hospedado na zona sul de São Paulo. "Eu e mais um amigo fomos até lá. Lembro que fiquei na porta e o vi descendo do carro. Corri até ele e consegui trocar algumas palavras e tirar uma foto. Só que de repente apareceu uma moça gritando George, George, eu te amo, George e começou a agarrá-lo. Ele ficou um pouco assustado, deu tchau e entrou", lamenta.

O maior contato de Marcus com o ex-beatle, entretanto, foi feito de maneira indireta. Em 1989, o presidente do fã-clube Revolution (o maior da América Latina) encontrou-se com George Harrison e levou de presente uma fita em que Marcus tocava algumas músicas de sua carreira solo.

Em principio, George Harrison pensou se tratar de uma fita pirata dele mesmo tocando. Todavia, quando soube que era trabalho de um fã e músico brasileiro, George fez questão de gravar uma mensagem, parabenizando Marcus pelo trabalho. "George disse na mensagem que nem ele se lembrava mais como tocava aquelas canções. É o meu maior presente, sem dúvida", revela.

Ao falar sobre os 10 anos da morte do ídolo, Marcus faz uma longa pausa e respira fundo. "Ficar sem o George Harrison todo esse tempo foi uma tortura não só para mim, mas para todos aqueles que gostam de música.", afirma com os olhos cheios de lágrimas.

"Ele tinha uma coisa que eu não vejo mais nos dias de hoje: a nota certa no lugar certo. Ele não era de fazer solos marabalísticos e coisas muito rápidas, como o Steve Vai. O George Harrison tem uma diferença incrível de uma faixa para outra. Não tem sido nada fácil, mas oro por ele todos os dias", encerra, executando levemente os acordes de My Sweet Lord no violão.

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