GABRIELA BILO/ ESTADAO
GABRIELA BILO/ ESTADAO

Gay e rapper, artista quebra muros e desponta como promessa para 2015

Rico Dalasam se prepara para lançar o EP 'Modo Diverso'; nos EUA, ‘queer rap’ já é um movimento

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

14 Dezembro 2014 | 07h00

As flechas estão sempre apontadas para Rico Dalasam. Ele jura que podia vê-las queimando nos olhos dos colegas de um colégio alemão no bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo, onde ficou por um ano antes de jogar a toalha e desistir da bolsa de estudos que a mãe pediu em uma carta escrita aos garranchos. Era o único aluno negro. Ele não se esquece de como elas sutilmente o perseguiam durante os cultos de uma igreja evangélica na qual orou, fez grandes amigos e trabalhou por quatro anos antes de jogar a toalha e desistir de bater de frente contra os mandamentos dos homens. Era o único fiel gay.

A terceira verdade de Rico Dalasam também não respeita demarcação territorial. Filho caçula de uma mulher que criou sozinha cinco crianças depois de ver o marido tomar o rumo do beco quando a vida ficou dura demais, ele sentiu que o rap o representava desde que foi mordido pela primeira vez, aos 13 anos, ouvindo os Racionais MC’s cantarem Homem na Estrada. Entrou no circuito de shows como seguidor, começou a frequentar as batalhas do metrô Santa Cruz e descobriu que, além de protesto, rapper também podia falar de amor.

Aos 25 anos, Dalasam afirma-se como promessa em outra caminhada que deve mantê-lo na mira. Ele prepara o terreno para lançar suas primeiras músicas no EP Modo Diverso. Sua estratégia é oferecer cinco faixas para, depois de um breve intervalo, lançar outras cinco. Depois de sofrer uma decepção com um produtor de São Paulo, decidiu ele mesmo dirigir o clipe da música Aceite-c, que deve sair com o primeiro pacote. Aos poucos, começa a criar nome em um meio sem histórico no Brasil de representantes assumidamente gays. “Acho o trabalho do Rico uma parada indispensável para a nossa cena. Acredito que seja um dos maiores nomes de 2015 em diante”, diz Flora Matos, considerada a maior voz feminina do rap atual, com milhares de seguidores nas redes sociais. “Ele é um artista para se ficar de olho. É corajoso e vem na esteira da onda festiva da Karol Conka e de Flora Matos”, diz o jornalista André Maleronka, editor da Revista Vice.

Viver nos dois lados da ponte permite a Dalasam criar uma visão privilegiada sobre si mesmo. Ao mesmo tempo em que mora na periferia de Taboão da Serra, em um condomínio de prédios que fica em frente às quebradas de casinhas sobrepostas do bairro Intercap, onde cresceu, trabalha como cabeleireiro e com produção de moda selecionando peças em lojas caras dos Jardins. Em vez de procurar extremos nos dois mundos para opor um ao outro e legitimar-se no rap usando o discurso da vitimização, mistura tudo em um mesmo ecossistema no qual o vilão também pode viver dentro da vítima. “Eu gostaria de dialogar com todos. Não existe esse cara mediador de conflitos que propõe novos caminhos possíveis. Isso porque, muitas vezes, esses conflitos se encontram dentro de um mesmo lar”, diz.

Alguma parte da culpa, segundo Dalasam, pode estar no sentimento de culpa. “As pessoas sentem muita culpa na periferia. Culpa por ser negro, culpa por ser pobre. Muitos nascem e morrem sentindo esta culpa.” Um sentimento que tem explicação em um trauma histórico, mas também em fatos: “Eu chamava amigos para irem ao Sesc Vila Mariana e eles diziam que não iriam porque lá era lugar de playboy. Não era isso. Eles não iam porque tinham certeza de que sofreriam olhares atravessados, de que as mulheres iriam segurar a bolsa com mais força.” 

Do ano como aluno do colégio classe média alta do Paraíso, não ficaram muitas lembranças boas. “Eu fiz amigos, mas muitas vezes me sentia como se fosse um animal trazido da África.” E, dos tempos em que seguiu a palavra de Deus frequentando a igreja, que também deixaram amizades, sentiu o maior dos choques. A mesma casa que o ajudou a descobrir-se e a aceitar-se não poderia suportá-lo a partir do momento em que ele dissesse a verdade. “Enquanto eu frequentava os cultos, só algumas pessoas sabiam que eu era gay. No momento em que eu decidi ser eu mesmo, não pude mais ficar por lá. Em algum momento, aquilo passa a não caber mais.”

O rap, apesar de uma pretensa postura conservadora, nunca o desrespeitou. Dalasam sabe que as flechas poderão voltar quando ele crescer e sua vitrine ficar maior, mas não pensa nisso. Acredita que tem algo a dizer com uma verdade que pode criar pontes. “Aqui na periferia, a gente olha no olho, pega firme na mão.” Ser ele mesmo é o começo de um caminho que flecha nenhuma deve abater. “Se o papo for minoria, eu sou várias.”

Nos EUA, ‘queer rap’ já é um movimento

Rappers de estética e postura gays investem em superprodução de vídeo e de áudio e fortalecem a nova cena

Ao firmar-se como rapper gay, Rico Dalasam pode estar quebrando as barreiras do único gênero de música de massa no País que ainda não tem representantes assumidamente LGBT. O rap, historicamente, tem em suas letras homens e mulheres representados em papéis bem definidos e não raramente estereotipados. O rap não é declaradamente homofóbico, mas muitas vezes usa em suas crônicas figuras e situações de uma realidade que resvala no machismo, nada mais do que um retrato cultural. Mulheres como Karol Conka e Flora Matos já haviam começado a mudar isso.

Nos Estados Unidos, a cena já está sedimentada e ganha cada vez mais respeito sob o nome de ‘queer rap’. Os rappers gays norte-americanos levantam bandeiras sexistas e raciais ao mesmo tempo, investem em superproduções de áudio e vídeo e se profissionalizam com rapidez. Le1f tem 25 anos e é um líder. Ele não gosta de ser rotulado como “rapper gay” e já colheu boas críticas desde que lançou seu primeiro EP Hey, pelo selo Terrible Records. O site Stereogum o considera criador de um “momento histórico, um rap particular que causa muita empolgação”.

Um dos ídolos e inspiradores de Dalasam, Mikky Blanco lançou sua primeira mixtape em 2012, a Blanco Anjo Cosmic. Seu visual e sua performance têm influências de Lil’ Kim, GG Allin, Jean Cocteau, Kathleen Hanna, Lauryn Hill, Rihanna, Marilyn Manson e Anaïs Nin. 

Outro ícone que desponta desde o início da década de 2010 é Zebra Katz, nome artístico de Ojay Morgan, que ficou conhecido desde que lançou o single Ima Read, em 2012, e ganhou elogios do jornal The Guardian. Sua concepção seguiu uma estratégia de lançá-lo como um personagem, “o lorde das trevas do mundo da moda”. E suas mixtapes Champagne (2012) e DRKLNG (2013) garantiram a posição de destaque e o início de uma agenda de shows que incluíram a abertura de uma turnê para Azealia Banks.


Cakes da Killa, outro que já está sedimentado na cena, lançou em junho deste ano uma nova mixtape depois de prometer sair do cenário em 2013. / J.MARIA

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