Gavin ajuda a recuperar memória musical

Quem vem lá desta vez não é a compilação dois-em-um preguiçosa e mal-acabada da gravadora, não é a reprodução pirata tosca e ilegal do camelô e menos ainda um novo e desafiador programa que permita baixar músicas pela Internet. Em meio à névoa que paira sobre a problemática indústria fonográfica nacional, em alerta vermelho desde que comprar disco em loja passou a ser coisa rara, eis que surge um novo e intrigante personagem de bastidor: o rato de arquivo das gravadoras. Quem inaugura a modalidade no meio pop é Charles Gavin, baterista do grupo Titãs, o mais recente Indiana Jones das memórias musicais. Enquanto a banda finaliza seu novo disco, em Seattle, Gavin segue uma cruzada iniciada há três anos. Do seu garimpo sai agora uma caixa com 12 títulos nobres dos anos 60 e 70, muitos nunca lançados em CD e todos desaparecidos das prateleiras há bons 20 anos. A série, intitulada Samba & Soul, fechou com o que se fez de decisivo no primeiro momento em que a música preta brasileira baixou a guarda para a música black americana. Abre com Samba Esquema Novo, obra maior de Jorge Ben (ainda sem o Jor), de 1963, e fecha com Fêmea Brasileira, de 1979, da efêmera Lady Zu, "rainha da discoteca nacional", como lembra Gavin. Os discos, que hibernavam nos arquivos da Universal Music, serão vendidos separadamente. Chegam às lojas em torno de R$ 17 a R$ 20. Capa, contracapa e encarte são originais e não há faixas bônus ou nada que não tenha sido realmente gravado pelo músico na época. Mas que raios faz um roqueiro mexer com samba, disco e funk de tempos passados? "A preocupação em fazer com que a garotada de hoje conheça coisas que já ouviu falar, mas que não encontra em loja. Quando se tira um disco de catálogo das prateleiras, se acaba com aquele artista, com aquele disco e com aquelas músicas", diz Gavin. Gavin usa a fama para peregrinar pelos selos fazendo-lhes propostas. "Faço um verdadeiro workshop com os executivos das empresas para convencê-los de que o negócio é viável. Coloco na mesa do cara CDRs (CDs usados em gravações caseira) e vinis-piratas que as pessoas reproduzem por aí para provar que há um vácuo, que há gente que quer ouvir estas coisas." Nem sempre o discurso dá certo. Na Continental, Gavin chegou empolgado com a idéia de fazer uma série com artistas bossa nova da casa. Levou um sonoro "não" porque a empresa achou o projeto comercialmente inviável. "Ainda acho que vou conseguir sair com esta série." Entre os discos que já pôs no mercado, há trabalhos importantes como a estréia do Secos e Molhados, dois CDs com quatro álbuns de Tom Zé e outros dois da banda Ira!.Resta saber até onde vai o fôlego da terceira via aberta pelo titã. Em época de vacas magras, as gravadoras acreditam em boas idéias - desde que elas sejam revertidas em boas cifras.

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