LEO MARTINS/ESTADÃO
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Gaúcha Anaadi concorre a quatro categorias do Grammy Latino

Cantora de 31 anos faz em 'É Fake', hit de seu disco 'Noturno', a mistura de samba com funk que chamou a atenção dos votantes

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2018 | 06h00

Ou aquela voz já vivia ali dentro ou a fita cassete de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong tocando no Tempra vinho do pai começou a despertá-la. Ana Lonardi ouvia e sonhava ao mesmo tempo que era ela mesma a Sra Fitzgerald cantando Summertime enquanto o pai dirigia do Rio a São Paulo. Sua pequena, deitada no banco de trás, era silenciosamente invadida, secretamente transformada. 

Anaadi, o nome com o qual tem conseguido suas primeiras grandes vitórias, se lembra bem do dia em que descobriu a voz que Ella Fitzgerald começou a depositar ali. Anos depois das viagens de Tempra, um casal de amigos visitava os pais em casa e uma colega, Michele, a única que a ouvia cantar no quarto com um grave que parecia de outra pessoa, fez o desafio. “Por que você não canta?” Ana deu duas condições. “Canto, mas de costas e com as luzes apagadas.” E assim se deu a cena: Ana sobre um balcão cantando Summertime a capela, no escuro e de costas para cinco pessoas absortas na surpresa.

A voz de Anaadi transborda sem esforço e é quase como se precisasse conter um dique para não fazer inundar o entorno. Seu primeiro disco, Noturno, mostra essa força. Ele tem uma intenção pop de pista, cheio de influências da música negra americana dos anos 2000, de soul e R&B, mas com traços do samba que a impede de ser excessivamente influenciada pelas cantoras norte-americanas que tanto ouviu desde Ella. O samba é sua represa e sua salvação, a conexão com a terra em que pisa e o fator que pode ter feito os membros do comitê que escolhem os finalistas do Grammy Latino considerá-la apta a concorrer em quatro categorias.

É um feito raro. Gaúcha de Porto Alegre, 31 anos, Anaadi embarca para estar em Los Angeles na entrega do Grammy, dia 15 de novembro. Noturno, produzido por Leo Bracht, foi indicado ao Grammy Latino em quatro categorias: gravação do ano, artista revelação, melhor álbum pop contemporâneo em língua portuguesa e melhor álbum de engenharia de gravação. Vai brigar com grandes nomes em todas as categorias, e com uma América Latina efervescente em estouros de massa recentes como o DJ colombiano J Balvi. O álbum mais recente do uruguaio Jorge Drexler é forte na categoria engenharia de gravação e os discos novos de brasileiros como Erasmo Carlos e Xênia França são outros favoritos. Antes de embarcar, Ana faz um show único em São Paulo, hoje, a partir das 22h, na casa Jazz Nos Fundos (Rua Cardeal Arcoverde, 742, em Pinheiros).

É Fake é a canção que puxa seu disco, com clipe nas redes. Nasce de uma situação biográfica, o roteiro do homem que manipula a paixão feminina com mentiras, e se torna uma resposta. “Existe o homem de verdade / O moleque só imita /A embalagem é bonita/Só que o produto é de camelô/Nunca funciona direito/Parece perfeito/Só que não durou”. Um tempo de Bezerra da Silva faz o samba que quase não é samba ganhar força de hit.

É como se o tempo acertasse algumas contas com Anaadi. A única negra em escola de classe média em Porto Alegre não tem as melhores recordações desta época, e de outros anos que seguiram. “Eu sofria muito bullying. Era a gordinha, muito alta, a única negra. Fiquei por muito tempo uma pessoa sisuda. Esse tempo passou.” A música chegou e Ana sentiu-se como se encontrasse “sua turma em um clube de jazz.” Se o Grammy tem a ver com isso? Também tem. Antes das indicações, as portas pareciam se abrir com mais dificuldade. As casas de show titubeavam em agendá-la e mesmo a imprensa não a via com as mesmas credenciais. “Tem uma frase do Goethe que guardei pra sempre. Ela diz mais ou menos assim: ‘Nossos desejos são como pressentimentos das potencialidades latentes em nós’. Acho que, no fundo, nós ‘neuróticos’ só sonhamos de verdade com coisa possíveis.”

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