Garra punk e sutileza folk no CD do The Levellers

Antes do grupo The Levellers, que tem seu CD Truth & Lies lançado no Brasil pelo selo ST2, o mesmo nome aparece duas vezes na história (pop) inglesa. Primeiro e originalmente, os Levellers, ?niveladores?, eram uma facção democrática radical do século 17. Queriam que todos os ingleses livres assinassem um contrato social, pelo qual teriam total participação na vida política e total liberdade religiosa - dentro das opções do cristianismo.Depois, já em 1980, Leveller foi o sobrenome adotado por Justin Sullivan, cantor de uma banda de folk-punk cujo nome também remetia ao século 17, quando o rei Charles I foi condenado à morte: New Model Army era o exército antimonarquista de Oliver Cromwell, no qual valiam os talentos bélicos, não a classe social. O NMA do século 20 cantava hinos políticos, como 51st State, premonição da subserviente Inglaterra de Tony Blair.Os Levellers formados em 1988 em Brighton, a mesma cidade do grupo Bristish Sea Power, recém-comentado aqui, são a ramificação mais recente dessa árvore genealógica. Aos Levellers do século 17 devem a crítica social. Ao Leveler do século 20, os cantos de guerra, a garra punk, a sutileza folk. O New Model Army e os Levellers soam parecidos, a ponto de lançarem mão de um violino, bem raro fora do rock progressivo.Se, além do NMA de Justin the Leveller, for necessário fixar mais dois pontos para localizar o tipo de música feita pelos Levellers, pense no Clash e no australiano Midnight Oil. Neles também estão presentes tanto a politização quanto a tendência a compor hinos. Isso quer dizer que a originalidade passa ao largo da banda de Brighton? Pergunta difícil. Porque Mark Chadwick (guitarra e banjo) e Simon Friend (guitarra e bandolim) cantam em uníssono com tanta convicção que dar a resposta sincera - sim, passa - parece injusto.Na estrada há tanto tempo, Chadwick, Friend, Jeremy Cunningham (baixo e capas maneiras dos álbuns), Matt Savage (teclados), Charlie Heather (bateria) e Jon Sevink (violino) produzem um som compacto, vigoroso e agradável de se ouvir, em que pese o abuso dos tempos médios, que pode tornar arrastada a audição do CD de cabo a rabo. Nele, percebe-se ainda toques de Led Zeppelin (Who?s the Daddy) e até de música orquestral indiana (na elegante coda de Sleeping, a derradeira faixa, única que varia os andamentos).Dada a sua ideologia musical, porém, nenhuma apreciação estaria completa sem atenção às letras. A que melhor casa com a melodia é a de Wheels, excelente música para animar multidões (os shows dos Levellers são lendários): ?Numa cidade construída sobre dinheiro/ Construída sobre o medo/ Não falsifique a vida, disseram-lhe mil vezes/ Veja que as rodas que seguimos girando/ Nos arrastam para trás.? É escutar uma vez e sair cantarolando.

Agencia Estado,

06 de setembro de 2005 | 21h13

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