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Garota modelo

Alicia Keys fala sobre sensualidade feminina, Miley Cyrus e a perfeição

Roberto Nascimento , O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2013 | 10h35

Em um panorama povoado de diabinhas, é fácil esquecer das boas moças do pop. Aquelas que pais e filhos admiram, por talento natural e atitude ética, e que, se não inspiram tanto frenesi, amadurecem com mais dignidade, abraçando causas maiores, evitando a decadente busca pela atenção da indústria. Se isso fosse uma descrição de emprego, a vaga seria de Alicia Keys. Aos 32, a ex-garota prodígio do gogó aveludado, dona de mais discos de platina do que consegue pendurar na parede de casa, mãe, protegida do casal Obama, chega ao Brasil na semana que vem com a turnê de Girl on Fire (um show em São Paulo, no dia 12, no Espaço das Américas, e um no Rock in Rio, no dia 15).

O disco é um pronunciamento sobre sua maturidade artística, feito, de acordo com a própria, sem a pressão que a persegue desde de sua meteórica ascensão no início da década passada. Em entrevista ao Estado, Alícia falou sobre o disco, a infância, e comentou sobre a polêmica apresentação de Miley Cyrus no MTV Awards, recentemente.

Você tem dito que está em busca da imperfeição. É uma ideia um tanto contrária ao que vemos nos polidos lançamentos semanais. Como isso influenciou a gravação do novo disco?

Eu acho que todos nós, seja eu ou uma pessoa menos conhecida, algum dia, a caminho da escola talvez, já nos sentimos pressionados a sermos perfeitos. Às vezes, essa pressão vem de pessoas que conhecemos e amamos, o que dificulta as coisas muito mais, mas há um equilíbrio a ser encontrado, entre o que é sincero artisticamente e o que os que estão lá fora esperam de você.

Isso tem a ver com a sua formação pianística?

Certamente. Durante a minha adolescência. Isso foi uma das coisas que mais me marcaram nessa fase, e eu tento evitar isso. Cresci estudando piano clássico. Por ter começado tão jovem, não entendia quanta pressão havia sobre mim. Tinha de ser tudo perfeito. Há a precisão de cada nota, a rigidez das partituras. Um culto à precisão. Não me senti pressionada para fazer Girl on Fire. Claro que pensei na recepção, mas há um estado de espírito possível de ser alcançado quando se faz um disco, que é aberto e infinito, que faz tudo valer a pena. Aquele lugar em sua própria cabeça, ou no quarto do piano, em que se pode realmente expressar o que está se passando no momento. Quando estou lá, percebo que sou dona de mim.

Você é uma cantora modelo para jovens e pais que respeitam a sua abordagem menos explícita do espetáculo pop. Como vê por exemplo, um incidente como o de Miley Cyrus, no MTV Awards, em que a cantora fez movimentos considerados obscenos por muitos?

Eu acho que há uma extrapolação de certos problemas que agravam a nossa sociedade. Desde que somos jovens, nós mulheres, nos deparamos com esse conceito, de que temos de usar a sexualidade para chamar atenção. Não há nada de errado com isso. As mulheres são seres muito sensuais. É parte de quem nós somos. Mas há um equívoco, uma grave confusão, sobre como usar esse poder, e muita gente acaba achando que temos de ser exacerbadamente sexualizadas para chamarmos atenção. O problema, no entanto, é que mesmo assim funciona. Você vê um anúncio de carro com um homem no volante e a mulher sobre o capô. E isso fica no subconsciente de muitas. É uma grande confusão, e torna muito difícil para nós mulheres compreendermos que o nosso poder não precisa ser despejado em qualquer lugar, que podemos deixar aquela impressão sensual, poderosa e cativante, sem nos exibirmos dessa forma escrachada. É realmente triste ver essas coisas no dia a dia. Isso me faz compreender o quanto nós mulheres precisamos ajudar umas às outras a aprender que somos seres belos, e não precisamos desse tipo de exibição.

Você já se sentiu forçada a fazer esse tipo de coisa?

Quando eu era jovem, no primeiro disco, sim. Era maluco. Eu não conseguia acreditar. Era um assalto constante à minha pessoa. Tira mais da blusa, use algo mais curto, abaixa isso aqui, solta aquilo ali. Eu era tão jovem e confusa. Pensava: ‘Bem, esse cara é um fotógrafo famoso. Eu estou apensa começando. Ele deve estar certo’. No começo, você acha que pode confiar nas pessoas mais experientes. Uma vez posei para uma revista e fiquei envergonhada com o resultado, porque não queria ser vista daquela forma. Então percebi que tinha de me sentir confortável com a minha imagem. Tive que aprender a seguir meus instintos, respeitar os meus limites. É claro que é difícil fazer isso aos 17, 18 anos. Mas aprendi do jeito mais difícil. É difícil crescer em uma profissão pública, na frente das pessoas.

ALICIA KEYS

Espaço das Américas. Rua Tagipuru, 795,

telefone 3864-5566. Quinta-feira (12/9), às 22 horas.

R$ 150 / R$ 590. 14 anos.

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