Garbage prepara novo disco para 2016: 'Será mais sombrio, mais romântico'

Grupo celebrou, em 2015, os 20 anos do álbum de estreia

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2015 | 06h00

Enquanto no palco o Garbage executava, na íntegra, o disco de estreia do grupo, lançado em 1995, a vocalista Shirley Manson percebia que aquela turnê de celebração das duas décadas do álbum não era mesmo para os quatro integrantes do grupo no palco. Diante de si, Shirley percebia as lágrimas, os risos, as memórias (boas e ruins) estampadas nos rostos dos que estavam ali para reviver aquele ano, mesmo vinte anos depois.

Garbage, o disco, marcou aquele 1995. O grunge se desfazia, em luto à morte de Kurt Cobain e ao autossufocamento diante de tantas outras bandas que passaram a pipocar por todos os lados. Com os vocais de Shirley Manson, o Garbage, a banda, não se enquadrava na mesma prateleira de Alice In Chains, Mudhoney e Foo Fighters, três grupos que também lançaram seus álbuns naquele ano. Era mais alternativo, estranhamente ousado, guitarras cobertas por camadas de trip hop, funk e punk, e preenchidos pelas ideias e vozes de Shirley. Marcou uma geração de inadaptados até mesmo ao grunge daquela primeira metade da década.

O ano de 2015 foi marcado pela comemoração dos 20 anos do álbum. Ao longo de dois meses no segundo semestre, Shirley se apresentou ao lado de Steve Marker (guitarra), Duke Erikson (baixo) e Butch Vig (bateria), para resgatar aquela memória afetiva dos fãs. Em 2016, contudo, o grupo volta seus olhares para a frente. A celebração, boa enquanto durou, agora é passado. Um novo disco, ainda sem título, está sendo erguido em curtas e intensas sessões no estúdio. Ao Estado por telefone, a vocalista e principal compositora da banda contou como foi a experiência de revisitar a primeira obra do grupo, assim como os planos para o novo álbum, sobre igualdade e comemora os novos movimentos feministas.

Quando começamos a negociar essa entrevista, você e o restante do Garbage haviam anunciado uma turnê para comemorar os 20 anos do disco de estreia da banda. Vi no site de vocês que não há mais shows previstos. A comemoração já chegou ao fim?

Sim, já acabamos. Era algo muito breve, que fizemos por sete semanas. Chegou ao fim há alguns dias (no começo deste mês).

Entendo. E onde está a sua cabeça agora?

Neste momento, está no novo álbum que estamos gravando. Estou, no momento, em Los Angeles, mixando algumas canções desse novo trabalho. Algumas coisas já foram faladas sobre esse trabalho, aliás.

Lembro-me que as sessões de Garbage, o álbum, foram conturbadas justamente pelas diferentes personalidades de vocês. Desde essa época, as gravações sempre foram assim? Como as coisas funcionaram nesse sexto trabalho de estúdio?

Bom, gravamos em Los Angeles, como disse anteriormente, e conseguimos criar um sistema muito peculiar de gravação. Percebemos que só funcionamos por uma, duas semanas, e depois é bom darmos um tempo nisso. Tirar um período distante, entre uma sessão de gravação e outra, nos obriga a manter as gravações curtas, algo que é muito mais produtivo para nós. É um processo mais fácil, não há espaço para brigas e longas horas no estúdio. Acho que dessa forma é mais fácil e excitante.

Como perceber que essa tensão criativa deixa de ser benéfica e faz mal para o grupo?

Acho que, quando você se junta a outras pessoas para montar uma banda, você está tão animado com o processo que ninguém pensa em discutir como será a dinâmica de estar em uma banda. Existe toda a excitação inicial de estar com outras pessoas e ver todos criativos. Logo que o trabalho começa, você percebe que as personalidades de cada um têm um fator muito grande para a coexistência de todos. São muitos talentos, por vezes muito distantes. Se cresce junto, briga-se junto. Acho importante encontrar uma forma de perceber como todos da banda trabalham de uma forma melhor.

Butch Vig disse, em novembro deste ano, que o novo disco de vocês ficaria pronto em fevereiro de 2016 e seria lançado em maio, dando início a uma nova turnê. Como estão esses prazos?

O que posso dizer é que estamos mixando o álbum. Temos duas canções prontas e estamos, neste momento, trabalhando em uma terceira. Queremos que saia na primavera (no hemisfério norte; aqui no Brasil será inverno).

Já são três anos desde Not Your Kind of People, o quinto álbum de vocês. Há quanto tempo planejavam o novo disco?

É isso que fazemos, entende? Fazemos discos. Mas Butch trabalhou com o Foo Fighters (no disco ‘Sonic Highways’, lançado no ano passado), então tudo ficou atrasado.

Como foi revisitar o primeiro álbum? Ele injetou energia em vocês para o novo trabalho?

O novo disco foi escrito ainda antes de a gente sair na turnê de celebração. Acho que posso dizer que ele soa bastante diferente do nosso disco anterior. É mais sombrio, mais romântico. A comemoração foi algo especial. Uma celebração nossa com os fãs do Garbage. Ou melhor, para os fãs da banda. Percebemos, no palco, que na verdade os shows não eram uma celebração do Garbage. Foi uma celebração para as pessoas que nos acompanhavam, pelas vidas delas, pelas memórias e experiências delas. Víamos pessoas chorando, rindo. Foi intenso. Mágico, mesmo.

O disco de estreia de vocês mostrava ideias sobre direitos humanos, igualdade. O mundo evoluiu nesse sentido?

A gente achava que todos mereceriam direitos iguais, não importando a orientação sexual. Acho que isso que é importante para nós e, a partir disso, sempre fomos proativos nessa causa. Sempre tentamos fazer com que nossa voz fosse ouvida. Se todos são felizes, todos se beneficiam. É uma bobagem não deixar as pessoas viverem suas vidas como quiserem.

As redes sociais têm ajudado nessa igualdade por direitos? Alguns movimentos como #MeuAmigoSecreto e #MeuPrimeiroAssédio vêm dando voz a diferentes tipos de assédios físicos e morais pelos quais as mulheres passam ainda hoje.

Sim, ajudam, eu concordo. As pessoas aí no Brasil têm se mostrado muito proativas com relação a isso. É inspirador de ver. Espero que continuem assim! Acho que o feminismo, direitos das mulheres, pulou algumas gerações. Houve uma involução a partir dos anos 1950 e é ótimo ver uma nova geração de mulheres que realmente se engaje sobre isso. A falta de igualdade de hoje é um reflexo da falta de luta pelos direitos das mulheres. Faltou atenção a esse quesito, mas as coisas estão mudando.

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