Garbage devolve atitude ao pop

A atitude está de volta ao pop americano.Músicas com títulos como Shut Your Mouth ("Cale Sua Boca"), Breaking Up the Girl ("Quebrando a Garota") e NobodyLoves You ("Ninguém Ama Você") estão no novo manifesto doGarbage. A banda criada pelo ex-produtor do Nirvana, Butch Vig, acaba de lançarbeautifulgarbage, que deixa de lado o excesso de ruídos eelementos eletrônicos em favor de influências do rock e do hiphop. O álbum traz, como bônus, um programa de computador quepermite infinitas montagens de quatro músicas da banda.O novo disco é bem diferente dos dois trabalhos anteriores doGarbage. Enquanto o primeiro álbum, que levava o nome do grupo echegou ao mercado em 1995, tinha um clima sombrio e uma forteinfluência da sonoridade suja emprestada do trip hop, Version2.0, de 1998, trazia camadas de guitarras, ruídos sobrepostosa beats eletrônicos pesados. beautifulgarbage é mais limpo e variado. Algumas faixas nemchegam a soar como Garbage, com a voz de Shirley quaseirreconhecível (ela chega a encarnar uma Madonna dos anos 80 emCherry Lips). O distanciamento dos elementos eletrônicos éoportuno, já que até nomes como Britney Spears e ´N Sync vêmusando produtores de trance para tentar levantar o nível de seustrabalhos. Embora as faixas rápidas (Androginy, o primeiro single, eSilence is Golden) tenham produção impecável, letrasconsistentes e bons vocais, o melhor do disco está nas baladas,uma tradição que foi vista em composições brilhantes no passado,como Milk e You Look So Fine. Cup of Coffee eDrive You Home resgatam a Chrissie Hynde que vive dentro deShirley em melodias emocionantes e produção sofisticada. SoLike a Rose, que encerra o álbum, é uma pérola do pop.O Garbage versão 2001 está muito longe do conceito de "banda deprodutor". Depois de três álbuns e shows em todo o mundo, abanda mostra que não está querendo apenas produzir variaçõessobre as mesmas fórmulas e que, apesar de estar mantendo um péfirme no pop comercial, fica à frente da maioria dos artistas domainstream. Uma prova disso é o "brinquedo eletrônico" incluído comobrinde em beautifulgarbage. Com o software instalado nocomputador, é possível rearranjar completamente quatro dasmúsicas do álbum. David Bowie já tinha oferecido algo similar,mas bem mais básico, nos anos 90. Sem medo de pirataria, a bandadisponibiliza beats, baixos, guitarras e vozes em blocosseparados, para ser montados como um quebra-cabeça em umaplataforma de design impecável. É possível ainda fazer tudo isso em colaboração com pessoasconectadas via internet, que podem ir conversando entre si pormeio de uma janela de mensagens em tempo real. Nos primeirosdias de funcionamento do serviço, a conexão chegou a ficardifícil por conta do alto número de participantes.Em uma época em que boa parte das gravadoras ainda está tentandodescobrir o que fazer com a evolução da tecnologia, o Garbagesai na frente dilacerando seu trabalho para oferecer um produtomais atraente aos fãs. Pode ser que o brinquedo possibiliteque algumas pessoas produzam e lancem remixes caseiros da banda,para o qual eles não ganhariam royalties. Mas o número deusuários que vai passar dias e dias montando e remontando asfaixas da banda apenas para se divertir deve ser bem maior.Empresas de música poderiam aprender bastante sobre marketingcom o Garbage.

Agencia Estado,

04 de outubro de 2001 | 14h06

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