Gal regrava antigos sucessos em novo CD

Com quase 40 anos de carreira, Gal Costa se iguala às divas internacionais da canção. Lançou clássicos, compositores que estão aí até hoje e revisitou a obra dos papas de nosso cancioneiro, como Ari Barroso, Dorival Caymmi e, mais recentemente, Tom Jobim. Por isso, em seu 26.º disco, De tantos Amores, não se preocupou em garimpar um repertório inédito ou pouco conhecido. Regravou hits antigos, na sua voz ou de outros e chamou o maestro Wagner Tiso para fazer os arranjos orquestrais e vocais."É de praxe cantoras como Billie Holliday e Sarah Vaughan gravarem várias vezes a mesma música, em épocas e com arranjos diferentes", comenta Gal. "Eu gostei de retomar canções que havia deixado de lado há muitos anos e das quais o público não se recordava. Além disso, como não sou compositora, não é fácil fazer um disco com 70 ou 80% do repertório inédito, pois hoje todo mundo grava o que faz. Ouvi muita fita, mas nada me mobilizou."Das 13 canções, 12 têm o amor como tema e a última, Caminhos do Mar, de Dorival Caymmi, entrou como Pilatos no Credo, por estar onipresente nas emissoras de rádio e abrir a novela Porto dos Milagres, da Rede Globo. A idéia do disco temático foi de Daniel Filho, que assina a produção com Wagner Tiso. Ela e o maestro são parceiros desde os anos 60, quando ele era do Som Imaginário, que acompanhava Milton Nascimento, e Gal, musa do Tropicalismo. "Fizemos o show Deixa Sangrar, que tinha cenários do Hélio Oiticica, e nunca mais paramos", lembra Gal. "Ele vem com as idéias que realizam as minhas intenções da melhor forma possível. Depois fizemos o Acústico de onde tirei algumas músicas deste disco."Em De tantos Amores, Tiso baixou o tom da voz de Gal para dar mais colorido a seu timbre. "É natural que, com a idade, a voz fique mais grave, embora eu tenha preservado os agudos", avisa a cantora. "Foi interessante explorar essas regiões, pois minha voz fica infantilizada nos tons mais agudos, o que também é normal."Essa mudança pode ser percebida nas cinco músicas do repertório de Gal, hits como Que Pena, Folhetim e Força Estranha, a cult O Amor e a guarânia Índia, do início dos anos 70. Nesta, os agudos estratosféricos originais dão lugar a uma segunda voz que evidencia o apuro técnico de Gal. "Não foi de propósito, mas ficou bonito. Duas vozes é sempre complicado porque a tendência é usar terças, mas o Wagner fugiu desse risco", comenta. Ele retabe com elogios: "Quando entro num estúdio com a Gal, me sinto muito à vontade porque ela me dá liberdade. Fiz os arranjos desse disco como se fosse para mim, em cima das músicas sugeridas pela Gal. O clima é bem bossa nova, como se tocava antigamente."Embora Tom Jobim tenha caminhões de canções de amor, Gal evitou gravá-lo desta vez. "Pretendo voltar a ele e achei que, se incluísse Tom, estaria me repetindo", explica. Em compensação, na versão de Sophiticated Lady, com letra nova de Geraldo Carneiro, Wagner toca piano exatamente como Jobim faria. "É uma música de repertório. Todo mundo tem uma versão para ela e eu ainda não tinha gravado", diz Gal. " É linda, mas muito difícil, especialmente na segunda parte e o arranjo do Wagner ficou maravilhoso."Para não fugir ao esquema de seus discos anteriores, ela gravou também o bolero Contigo Aprendi, e a seresta A Última Estrofe, que ganhou arranjo com grupo regional. "É uma música linda, do repertório do Orlando Silva, que sempre quis cantar", diz. Incluiu ainda Apaixonada, da trilha sonora do filme A Partilha. "Essa é quase inédita. O Caetano fez para o Quarteto em Cy, mas ninguém prestou atenção."ACM - Gal só sai de sua suavidade, embora fique a anos-luz de um discurso agressivo, quando comenta a repercussão de seu apoio ao ex-senador baiano Antônio Carlos Magalhães, quando ele renunciou. "Ficou parecendo que eu era contra o processo político, a favor do que ele havia feito. Fui dar apoio moral a um homem que fez muito pela cultura da Bahia e não apoio político a quem havia cometido uma falta e, por isso, deve ser julgado", explica. Ela avisa que não pretende fazer campanha para a volta de ACM ao Senado e vai manter-se longe da política partidária ou não, como sempre esteve. "Nesse ponto de minha carreira, não preciso me justificar com ninguém. Não devo favores a governantes e tudo o que consegui até hoje foi por minha conta. Estou tranqüila com minha dignidade como cidadã e como artista."Feito o desabafo, ela muda de assunto: fala do show que pretende fazer a partir desse disco. Ainda não decidiu se será um recital, como o que acaba de encerrar temporada, com músicas de Tom Jobim, ou cheio de novidades, com O Sorriso do Gato de Alice, que Gerald Thomas dirigiu em meados dos anos 90. Ela sabe que não há uma receita para agradar. "Quando eu venho clássica, reclamam que não arrisco e, quando corro riscos, me querem convencional", filosofa a cantora. "A gente nunca sabe o que fazer para agradar ao público e à mídia."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.