Gal investe em repertório eclético

Até hoje, a cantora Gal Costa selembra dos tempos em que era uma garota na Bahia e respondiapelo nome de Maria da Graça (Gracinha, para os familiares).Quando colocava uma panela na cabeça e ouvia, fascinada, suaressonância. Na época, ela escutava as músicas interpretadas porJoão Gilberto no rádio e ia para baixo da panela imitar apostura vocal do cantor."Eu estudava a respiração do diafragma; ouvia agravação do João e percebia como ele sustentava uma frasepoética respirando de uma maneira sutil."Mas não era só a voz suave de João Gilberto o alvo de suasatenções. Crescendo com um rádio ao pé do ouvido, Gal apreciavade tudo, de Ângela Maria a Luiz Gonzaga, passando por Jackson doPandeiro, Orlando Silva e tantos outros. Esse amplo universomusical acabou, de alguma forma, influenciando a carreira decantora. O repertório eclético - salvo alguns projetos muitosespecíficos, como o CD Gal Canta Tom Jobim - é predominanteem grande parte de sua discografia. E com seu mais recente CD,Gal Bossa Tropical, lançado pela Abril Music e MZA Music,não é diferente.No novo álbum, Gal Costa faz um passeio por diferentesreferências musicais, usando como unidade para todas elas osarranjos tipicamente brasileiros. Ela canta, por exemplo, TheFool on the Hill, de John Lennon e Paul McCartney. "Sou loucapelos Beatles e achava o Paul McCartney um cantor maravilhoso.Acho ele ainda muito bom cantor, mas naquela época tinha umapureza." Outra faixa em inglês do repertório é As Time GoesBy, de Herman Hupfeld, eternizado pelo filme Casablanca,que Gal já havia interpretado, com sucesso, nos shows dedivulgação do disco O Sorriso do Gato de Alice.Com Ovelha Negra, de Rita Lee, encontrouidentificação. "Acho que essa música é a minha cara." E paradar maior autenticidade à letra na sua interpretação, Gal pediua Rita permissão para mudar uma palavra. No trecho da música"Foi quando meu pai me disse: filha, você é a ovelha negra dafamília", a cantora baiana substituiu "pai" por "mãe". Issoporque Gal Costa não conheceu seu pai. "Quando nasci, meus paisestavam separados, ele já tinha outra família, inclusive filhosmais velhos que eu", diz. Ela conta que os pais foram casadospor cerca de 8 anos e durante todo esse período tentaram ter umfilho. Os dois brigaram e, no dia em que se encontraram paraacertar a separação, ele a seduziu. "Minha mãe ficou grávida,mas eles não retomaram a relação. Então, ela se tornou meu pontode referência, foi meu pai e minha mãe."Nesse caldeirão musical que é Gal Bossa Tropical, háoutras garimpagens, como Mulher (Sexo Frágil), de Narinha eErasmo Carlos; Epitáfio, de Sérgio Britto (e recente sucessodos Titãs); a mexicana Marcianita, de José ImperatoreMarcone e Galvarino Villota Alderete, com versão em português deFernando Cesar; entre outras. Não faltaram homenagens a Caetano,em Desde Que o Samba É Samba, e a Vinícius de Moraes e TomJobim, em O Amor em Paz.Gal incluiu no repertório uma música inédita, OndeDeus Possa Me Ouvir, do compositor desconhecido Vander Lee.Desde os tempos de gravadora BMG, ela tem o projeto de gravar umCD só com músicas de compositores desconhecidos. E pretendecolocá-lo em prática na nova gravadora. "Minha relação com aAbril Music está sendo maravilhosa. Sinto uma coisa que eu nãosentia com a BMG, que é uma empolgação, uma vontade de colocarum disco na rua", afirma. "Mas o que me deixou feliz é que meuCD pela Abril custa R$ 18,00 nas lojas, enquanto meus discospela BMG custavam R$ 29,00. Caríssimos." O show de lançamentodo novo trabalho deve ter início em janeiro.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.