Cristine Rochol
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Gal Costa inova com releitura arrojada do cancioneiro dramático de Lupicínio Rodrigues

Show 'Ela disse-me assim' estreou em Porto Alegre, terra em que Lupicínio nasceu e morreu, e passou pelo Rio no sábado

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

30 Março 2015 | 20h25

Amores que legam rugas, separações que resultam em mágoas eternas, bebedeiras, traições. O sombrio e maravilhoso universo de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), nascido entre os anos 1930 e 1970, não se perdeu no tempo. Sonoramente, ficou ligado ao samba-canção, tendo Jamelão (1913-2008) como seu principal intérprete. Aos 100 anos de seu nascimento, o compositor gaúcho tem a obra recriada por Gal Costa, que o apresenta embalado por rock, boogie-woogie e carimbó.

O show 'Ela disse-me assim' estreou em Porto Alegre, terra em que Lupicínio nasceu e morreu, e passou pelo Rio no sábado (em São Paulo, será dia 8 de maio, depois de Curitiba e Salvador). “Cadê o CD para comprar?” - foi a pergunta que mais se ouviu na saída do Vivo Rio, tamanho o impacto causado pela reinterpretação do repertório que Gal aprendeu a amar quando criança, na Bahia, pelo rádio da empregada da família.

“A obra do Lupicínio ultrapassa a barreira do tempo. Quase todas essas músicas habitam minha memória desde a infância. Ouvia rádio com a empregada e nos deliciávamos com os temas de amor quase trágico. Os arranjos são modernos e procurei escolher canções menos óbvias do repertório dele”, Gal contou, por e-mail.

Não se trata de uma homenagem, advertem os diretores do show, o compositor J. Velloso e o jornalista Marcus Preto. “Não é rever a música de um coitadinho, que não toca mais. Esse não é o caso do Lupicínio”, explica Preto. “A Gal tem essa capacidade de ‘limpar’ o tempo da música, por ser uma voz sem vibrato, da escola do João Gilberto. Como fez com 'Volta' (do disco 'Índia'), em 1973, ela traz essas canções para um tempo qualquer do futuro”.

Só voz e teclado, 'Volta' é um dos pontos altos do show - e um dos números com roupagem mais próxima à original. Assim como 'Nunca, Esses Moços' ('Pobres Moços') e 'Ela disse-me assim'. Momento catártico, 'Vingança', um dos grandes sucessos de Lupicínio, parece ter nascido rock’n’roll, com direito a um solo de guitarra: versos bárbaros como “ela há de rolar como as pedras/ que rolam na estrada/ sem ter nunca um cantinho de seu/ pra poder descansar” ficaram ainda mais dramáticos. 'Que baixo!', 'Paciência','Aves daninhas', 'Quem há de dizer' e 'Homenagem' são lados B. O bis é com a suave 'Felicidade'.

O projeto foi ideia de J. Velloso, que é sobrinho de Caetano e Maria Bethânia. Ele nem sabia do centenário de Lupicínio (em 2014) ao começar a formatá-lo para o edital da Natura Musical. A empresa patrocina a turnê e também os futuros CD e DVD. “Pensei no encontro desses dois grandes artistas da MPB, na forma como os tropicalistas cantavam esse repertório, de forma inovadora, e na Gal como transformadora de músicas. Quando conheci Lupicínio, no auge da jovem guarda e da bossa nova, as pessoas torciam o nariz, por ser tão dramático. Mas no jeito do próprio Lupicínio cantar já tinha uma bossa nova escondida ali”, diz Velloso.

O centenário motivou tributos da conterrânea Adriana Calcanhotto e de Elza Soares - que se lançou ao sucesso em 1960, com 'Se acaso você chegasse', de Lupicínio e Felisberto Martins. Em 2009, Arrigo Barnabé o homenageou com o show 'Caixa de Ódio', registrado em DVD.

Acompanhada de guitarra, violão, teclado, violino, contrabaixo e bateria, o que Gal traz é um Lupicínio nunca ouvido antes. 'Judiaria' já havia sido “modernizada” por Arnaldo Antunes; agora são 21 canções fundamentais desse cancioneiro sob nova ótica. “Esse é o nosso Lupicínio”, ela enfatizou no palco.do filme de arte.

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