Funk deve fazer ponte com o hip-hop

O funk já é meio de comunicação entre o morro e o asfalto. Em São Paulo, ele fará também ponte com o hip-hop. É o que afirma Mr. Catra, funkeiro do Borel e um dos representantes do funk consciente e politizado do Rio. "Eu e (Mano) Brown somos irmãos de ideologia. Nossa parceria consiste no respeito mútuo. Os dois valorizam o funk e o hip-hop o que importa é que sejam movimentos conscientes", conta ele. "Assim como existe muito funk sem conteúdo cultural, ocorre o mesmo com o hip-hop. Não se pode generalizar."Catra lançou dois discos em São Paulo, O Bonde do Justo, em 1997, e Esconderijo do Altíssimo, em 1999. Ambos foram produzidos pelo selo alternativo Zimbawe. Mas o contato com o mundo rapper paulista é anterior. Segundo Catra, a aproximação ocorreu em 1992. "Foi nesse época que a rapaziada de São Paulo começou a levar o funk em consideração, pois sempre achavam que ele não tinha ideologia, que era só funk coreografado", lembra. "Eles viram que a música é do gueto, da favela." E por intermédio do produtor Primo Preto, que na ocasião era apresentador do programa Yo!, na MTV, Catra conheceu Mano Brown. Além de iniciar a amizade, Catra teve a chance de promover com Primo Preto um baile funk na casa nortuna ex-Nation (hoje Class), na Rua Augusta.A opção de Catra é pela "antimídia", assim como Brown. "Não gosto da exposição excessiva. Não vou ignorar o sucesso do funk na mídia nem recusá-lo. Além do que, todo mundo acha que o funk está chegando a São Paulo agora, mas em Santos ele está totalmente estourado", afirma. Apesar do discurso defensivo, Catra concorda que este é o momento para fortalecer a cultura funk e a sua carreira em São Paulo e, como outros funkeiros, em breve lança um CD. "Eu sei que a onda é essa por aqui, mas não vou deixar de fazer o funk consciente por causa da moda. Não há preconceito no funk. Há espaço para todo mundo."O cuidado de Catra com a mídia se deve, segundo ele, ao fato de o funk ter sido no início dos anos 90 associado somente à violência e ao tráfico de drogas. "A mídia foi aos bailes e só filmou as brigas. Isso existe até hoje. Onde há revolta, juventude sem opção de lazer, há frustração. Mas só entra em baile de corredor quem quer", diz. "Nessa época, ninguém fez questão de mostrar o baile do gueto, de paz, que integra as pessoas. Por causa disso, houve uma grande perseguição aos funkeiros e muito baile passou a ser proibido. Muita gente ficou desempregada e a violência no Rio aumentou." Catra reconhece o benefício da invasão do funk na classe média. "Foram eles consumindo os CDs piratas que levaram o funk ao auge", acredita. "O lance agora para agente dominar é manter o movimento unido."Catra, além dos funks conscientes, compõe hits sensuais. Um deles é a Montagem do Adestrador. Ele também é conhecido por criar proibidões, que são funks considerados agressivos. "O problema é o que proibido, quando sai da favela, parece ser agressivo e até fazer apologia ao tráfico. Não é nada disso. Assim como o rap, ele fala da realidade da comunidade que, infelizmente, tem de conviver com a violência, as drogas e polícia, que vive humilhando o negro pobre e favelado", diz.

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