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Funk Como Le Gusta volta com seu 'groove de filme de ação'

Para lançar 'Nave Mãe', novo disco de inéditas, grupo de funk faz neste sábado (3) e domingo (4) dois shows no Sesc Vila Mariana

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

02 Outubro 2015 | 23h02

Nada parecia maior do que o som daquele esquadrão vestido de macacões laranja que fechava as novidades da década de 90 em São Paulo. O Funk Como Le Gusta, com seus 11 integrantes e mais um ou outro convidado, surgia com a força de uma história abrangente sem necessariamente ser cantada e cinematográfica mesmo em sua narrativa muda. Depois de uma série de três discos autorais na inconstante sequência de 1999, 2004 e 2011, o grupo ressurge em um outro tempo e espaço, redesenhando o quadro em seus detalhes, sem desfigurar o cenário.

Quando o Funk surgiu, ainda havia a cisão mais profunda entre música instrumental e música cantada. Seu conceito ajudava a diminuir essa distância, entregando material interessante tanto para os pés quanto para o cérebro. Roda de Funk tinha o samba-rock Meu Guarda Chuva com Paula Lima e o samba malandragem 16 Toneladas na voz baixo do trompetista Reginaldo.

O Funk modelo 2015 muda as cores dos macacões para preto e branco e atua em outras frentes. Seus temas, todos inéditos, seguem sendo trilhas em potencial para filmes de ação. Muitos metais, muito groove segurado por baixo, bateria e percussão, pouca improvisação fora dos temas, todo mundo sabendo o que faz. O disco se chama Nave Mãe e terá dois shows de lançamento, hoje, às 21h, e amanhã, às 18h, no Sesc Vila Mariana (Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000).

Os novos traços são resultados de uma movimentação interna que elevou o guitarrista Emerson Villani ao posto de produtor. Do último disco para esse, saíram o trompetista cubano Jorge Ceruto e o baterista e percussionista James Muller. Saíram também os acentos caribenhos e as levadas de samba-rock que a voz de Paula Lima trazia, mas chegaram outras cores.

Autocarro Veloz, a música de abertura, mostra a sede que o grupo estava por um estúdio. Começa com o ruído de um motor de carro sendo ligado. A guitarra assume o tempo que o motor sugere e a caixa da bateria entra reforçando esse tempo. O que eles conseguem, ao final, com o som já encorpado por outros instrumentos, é a imagem do próprio carro arrancando. A guitarra vai para a frente na nova perspectiva. Ainda em Autocarro, o solo arrasador de Villani deixa um recado que não deixava nas intenções coadjuvantes dos outros discos.

A cara do conceito de Villani foi moldada em uma formação precoce, ainda nos anos 1980, quando ele tinha 16 anos e já se destacava nas aulas do professor de ideias libertárias Hamilton Vergel. Logo, começou a tocar com o anárquico grupo Patife Band, do baterista Paulo Barnabé, irmão de Arrigo. Com a morte do guitarrista Marcelo Fromer, em 2001, os Titãs chegaram a Villani por ligações sobretudo com Paulo Miklos e Sérgio Britto. Depois de sete anos na estrada, Villani passou a alimentar planos de atuar mais à frente de seus grupos. Foi aos Titãs, pediu para deixar o grupo e saiu pela porta da frente.

O que fica forte também em Nave Mãe é o canto mais usado do que em outros discos, com função de backing, não com a pegada crooner de Paula Lima. Ou seja, ele está ali, em geral, para valorizar as linhas dos instrumentos, não o contrário. As duas exceções são Você Verá e Yeah, Yeah, Yeah. Você Verá é assim, como diria BNegão, funk até o caroço. Sua forma lembra algo de Tim Maia dos anos 1970 para 80, com letra do início ao fim cantada com vozes dobradas. E Yeah, Yeah, Yeah, outra forte, recoloca o grupo na pista seguindo o espírito do baile black, mas delimitando uma linha divisória entre propostas. Mais uma assim no disco e o grupo firmaria uma segunda identidade que teria o vocal à frente de tudo.

O risco de sair do status de grupo instrumental de fazer os pés da plateia baterem no ritmo da música para o de big band acompanhante não preocupa Villani. “Nunca nos definimos como banda de música cantada ou instrumental. Desde o primeiro disco, fazemos os dois. Seguimos o que pedem os temas. Alguns nascem por melodias, outros, por letras.”

Motown Song é suave, quase AOR, a música negra de rádio branca dos anos 1980, talvez a menos Motown do álbum. Som de Preto segue na retidão calma do tema nos trompetes, sem pressa nem euforia, com a guitarra tirando as coisas do lugar em algum momento. E Tudo no Lugar é dos mais inspirados temas, com tudo entrando no lugar aos poucos depois de um começo de encaixes alucinantes.

Outro disco. Durante os quatro anos de recesso desde o último álbum, o grupo gravou ensaios e ideias para um disco com o pianista João Donato. Depois de terem um bom material para lançarem um álbum, entenderam que não era o momento. “Vivenciamos aquilo muito fortemente, mas não era a hora. Logo teremos um ‘plus’ na carreira, com um disco em que regravamos três ou quatro músicas nossas com Donato. Mas essa era a hora de Nave Mãe”, diz Villani.

Entre aparos e reparos, o guitarrista e diretor diz que o grande trunfo talvez esteja naquilo que ninguém possa ver. A energia que circula sobre a sala, diz ele, nunca foi tão leve. “Só está na banda hoje quem quis ficar e quem gosta de fazer o som que estamos fazendo. Quando um integrante não está curtindo, há algo ali que passa a não agradar aos outros. Esse disco foi uma espécie de cura, de desintoxicação dos últimos cinco anos”, diz ele, sem dar pistas de possíveis desentendimentos.

O Funk Como Le Gusta começou a quebrar uma barreira nos anos 1990, quando o termo “instrumental” ainda era um tabu, uma espécie de biscoito fino para ser degustado apenas por quem tivesse paladar desenvolvido para aquilo. Seu quarto disco segue reforçando a ideia de que música boa é aquela que dá vontade de ouvir de novo. E de novo.

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