John Shearer/AP
John Shearer/AP

'Fui obrigada a acelerar o processo', diz Madonna sobre disco que vazou na rede

Cantora se prepara para lançar disco 'Rebel Heart', cujas faixas foram colocadas na internet por hacker

Jon Pareles, The New York Times

09 Março 2015 | 03h00


Madonna estava perfeitamente produzida e chegou quase uma hora atrasada para uma entrevista em sua casa no Upper East Side na noite de quarta-feira. Ela parecia tensa quando se desculpou. “Chego atrasada em tudo, agora”, disse. Tudo tem sido assim, explicou a Rainha do Pop, desde dezembro, quando um hacker postou online canções inacabadas de seu novo álbum, Rebel Heart, lançado oficialmente amanhã. 

A resposta imediata de Madonna foi lançar as versões acabadas e muito melhoradas de seis canções para venda – e elas dispararam para o top 10 mundial. Em seguida, trabalhou freneticamente para terminar o resto do disco. 

O trabalho é ao mesmo tempo familiar – cheio de amor, dança, ação, blasfêmia, obscenidade, como a Madonna que conhecemos – e produzido, com um número enorme de colaboradores e refinado por múltiplas mãos sob a supervisão constante da cantora. “Eu queria pensar e escolher mais devagar”, afirmou ela. “Depois, fui obrigada a acelerar o processo. Agora estou tentando me recompor.” Ela continuou: “O que começou como uma experiência revigorante, edificante e alegre evoluiu para uma coisa muito louca. Um processo artístico estranho, mas um sinal do tempo, Somos todos digitais, somos todos vulneráveis, e tudo é instantâneo. Sucesso e fracasso, também. Descoberta instantânea, destruição instantânea, construção instantânea. É tão esplêndido e maravilhoso quanto devastador. Honestamente, é a morte do artista”. 

Conversamos em sua sala de visitas, onde uma pintura de Fernand Léger se impõe de cima da lareira. Uma grande mesa de café estava forrada de livros e pastas de fotos que Madonna vem usando para pesquisar para o roteiro do projeto de seu próximo filme, baseado no romance The Impossible Lifes of Greta Wells. Sofás imponentes de cor creme flanqueavam a mesa de café, mas Madonna preferiu se sentar no chão.

Ela abandonou uma prova de figurino para a turnê para estar na entrevista. “Este é meio traje”, disse. Madonna vestia preto, com meia-calça com losangos, calção preto, camiseta com botões frontais e um bolero com plumas pretas. Suas unhas estavam pretas e cintilantes, e ela usava pequenos brincos de crucifixo prateados. No dedo, ela trazia um anel em forma de caveira.

Recentemente, Madonna apresentou o single Living for Love em cerimônias de premiação como a do Grammy, usando um traje de toureiro, rodeada de homens com peitos nus e chifres de touros. Em 25 de fevereiro, ela sofreu uma queda perigosa na entrega do Brit Awards, em Londres. Um dançarino devia puxar a capa que ela vestia, mas o truque deu errado e Madonna foi jogada escada abaixo. Segundos depois, ela se levantou e continuou a dançar. “Não senti nada quando aconteceu”, ela disse. “Só me lembro de cair para trás e bater a cabeça. Mas estava com a adrenalina bombando e fui apanhada de surpresa. Decidi seguir em frente.” Ela continuou: “Se não estivesse em boa forma, eu não teria sobrevivido àquela queda. Mas sou forte. Sei cair, eu monto cavalos. Tenho uma força interior e sei que isso me salvou. Isso e meus anjos da guarda. Acredito que há o mundo físico e o mundo metafísico, e acredito que eles estão interligados – tanto acima, como abaixo. Acredito que ambos estavam operando para me proteger”.

Rebel Heart, como a maioria dos álbuns de Madonna, escancara seus conceitos. Ela havia planejado fazer um álbum com duas metades distintas, uma dualidade de rebeldia e coração, como indica o título. O álbum pronto, contudo, não está dividido dessa maneira; ele salta de um modo para outro. 

Em uma atitude rara, Madonna se permitiu lançar olhares para trás em Veni, Vidi, Vici. A faixa constrói uma autobiografia triunfante com os títulos de suas canções. “Não gosto de me prender ao passado, mas me pareceu o momento certo”, avaliou. “Após três décadas, a pessoa tem de olhar para trás. Em muitos momentos eu paro e penso em todas as pessoas que conheci, com quem trabalhei, de quem fui amiga, com quem colaborei, de Basquiat a Michael Jackson e Tupac Shakur. Eu sobrevivi e eles não. E é agridoce pensar nisso. Eu queria parar e olhar para trás. É uma espécie de culpa do sobrevivente. Como foi que eu consegui e eles não?” 


Outra canção, a balada Joan of Arc, Madonna confessa que não é insensível aos incontáveis sacrifícios que enfrentou ao longo dos anos. “Sempre admirei a história de Joana d’Arc e o que ela simboliza, sua convicção”, disse. “Todos pensam em mim como impenetrável e/ou super-humana, mas a verdade não é essa. Estava tentando expressar isso.” 

O álbum vem sendo preparado há um ano e meio. Quando começou, Madonna queria simplesmente tirar algum tempo para escrever. “Neste negócio em que estou, você pode começar a se sentir como um hamster numa roda”, ela comentou. “As pessoas esperam coisas de você. E eu espero coisas de mim.” Ela decidiu dividir seu tempo entre o roteiro de Impossible Life e a composição de músicas. O empresário dela, Guy Oseary, sugeriu que ela trabalhasse com Avicii, produtor sueco de 25 anos que criou hits mundiais, e seus compositores.

Madonna fez seus melhores álbuns colaborando principalmente com um produtor de cada vez – William Orbit em Ray of Light, Nile Rodgers em Like a Virgin, Patrick Leonard em Like a Prayer – mas a conexão Avicii levou a uma metodologia pop atual de múltiplos colaboradores e a necessidade de retrabalhar canções para o máximo efeito: vieram Kanye West, Diplo, Ariel Rechtshaid e DJ Dahl. “O processo se tornou complexo”, acrescentou. “Todos com quem trabalhei são tremendamente talentosos, isso não se discute. Todos com quem trabalhei têm também que concordar em trabalhar com outras 5 mil pessoas. Tinha que tentar me encaixar.” 

Madonna insistiu em colaborar no que chamou de sua maneira “antiquada”: em vez de entregar faixas para serem polidas para posterior aprovação, quis refiná-las pessoalmente. “Eu nunca saio da sala”, contou ela. “Às vezes penso que isso os deixa loucos.” 

Toby Gad, um produtor que também compôs para Beyoncé, trabalhou em 14 canções com Madonna; sete delas entraram no disco, como Joan of Arc e Living for Love. “A primeira semana foi muito intimidadora”, ele revelou. “Era como uma fase de teste. Você tem de criticar, mas não pode ofender de verdade. Mas Madonna também gosta de críticos duros, honestos o bastante para dizer as coisas como elas são.” 

Rebel Heart pode ser o álbum mais diversificado de Madonna, abarcando Living for Love carregado de gospel, a zombeteira Bitch I’m Madonna, baladas como Goshtown e Heartbreak City, a paquera sensual de Best Night, o reggae de Unapologetic Bitch, e a divertida Body Shop, com os duplos sentidos automotivos apoiados pelo dedilhar de cítara. As canções também mudam à medida que avançam. As produções de West misturam ritmos abrasivos esparsos com estribilhos cativantes. “Isso sou eu”, disse Madonna, sorrindo. “É onde eu entro. É um casamento interessante de nossas estéticas.” Ela e West também compuseram uma música para o próximo álbum dele.

Aos 56 anos, Madonna não se sente assombrada por um mercado pop obcecado por juventude. “Não acredito que os artistas pensem em sua idade quando estão criando, certo? Só penso nisso quando outras pessoas trazem o assunto ou tentam me limitar dizendo ‘Você tem essa idade e por isso blá-blá-blá’”, comentou ela. “Porque eu fui marginalizada como mulher num mundo dominado por homens. Estamos numa indústria sexista ou um mundo sexista, sempre tive de vencer resistências.” Ela continua: “Jamais pude relaxar. Assim, como eu nunca relaxei, não vou dizer que as coisas eram fáceis. Para mim, sempre foi difícil desde o primeiro dia”. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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