Jamie Hewlett/Warner Music
Jamie Hewlett/Warner Music

Frente a frente, ou quase, com o Gorillaz, que se apresenta em São Paulo pela primeira vez

Banda criada por Blur Damon Albarn e o quadrinista Jamie Hewlett se apresenta no Jockey Club nesta sexta-feira, 30 – ainda há ingressos à venda, de R$ 140 a R$ 560

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

28 Março 2018 | 06h01

Ambos recém-separados, o vocalista do Blur Damon Albarn e o quadrinista Jamie Hewlett, da HQ elogiada Tank Girl, dividiam um apartamento na Westbourne Grove, no bairro de Nothing Hill, em Londres. Numa madrugada de 1997, assistiam ao canal MTV e debatiam a influência da emissora na cultura pop, numa época na qual sua programação era tomada por videoclipes de artistas do rock e do pop.

Decidiram criar um grupo que, em crítica, não existiria na vida real, apenas nas telinhas, com personagens em uma realidade próxima da nossa, porém absurda, elevada a situações surrealistas. No Gorillaz, Albarn (com a identidade mantida em sigilo por pouquíssimo tempo) teria a possibilidade de explorar uma estética sonora distante da direção guitarrística do Blur, com hip-hop e beats eletrônicos, enquanto Hewlett deu vida e personalidade a 2D (voz), Murdoc Niccals (baixo), Noodle (teclado) e Russel Hobbs (bateria). 

Dezoito milhões de discos vendidos depois, Albarn voltou a procurar o antigo companheiro de flat e de Gorillaz para colocar o grupo de volta em rotação, quatro anos depois de The Fall (2010). “Ele veio até mim, disse que gostaria de ver os Gorillaz de volta à ativa, nesse mundo.

E então seguiu para fazer suas coisas, um disco solo dele (Everyday Robots, daquele ano) e um novo álbum do Blur (The Magic Whip, de 2015). E eu fiquei imaginando o que havia acontecido com aqueles personagens, fui desenvolvendo-os, até que chegassem a um estúdio para um novo disco”, diz Hewlett. 

Com Humanz, lançado com barulho em 2017, o Gorillaz volta ainda ácido e crítico com a realidade. Desta vez, principalmente, porque para Hewlett, o nosso mundo está se aproximando, perigosamente, do surrealismo detalhado nos videoclipes do grupo. “A distância entre os dois mundos está diminuindo. O mundo está cada vez mais cartunesco, então pensei em como criar um encontro entre esses personagens e o que é real”, ele avalia. 

É com esse quinto álbum que o Gorillaz faz sua estreia em palcos brasileiros, na arena montada no Jockey Club – que foi usado como casa nas duas primeiras edições do Lollapalooza, em 2012 e 2013 –, em São Paulo, nesta sexta-feira, 30 – ainda há ingressos à venda, de R$ 140 a R$ 560. No palco, Albarn é o único integrante fixo da banda e comanda o grupo, enquanto no telão a nova narrativa de Hewlett apresenta os caminhos percorridos por 2D, Murdoc Niccals, Noodle e Russel Hobbs recentemente reunidos. 

“Alinhamos a história dos personagens e da música que Damon está gravando porque, logo no início, eu vou ao estúdio dele enquanto essas canções estão no início”, revela Hewlett. “Fico por lá, conversamos, brigamos – e tudo bem – e seguimos jogando ideias até que encontramos um lugar em comum. Então, eu sigo para o meu estúdio e vou desenhar o que combinamos.”

No lado musical, Albarn tinha suas baterias recarregadas e passou a colaborar com artistas já conhecidos da banda, como o parceiro costumeiro rapper De La Soul, e nomes da vanguarda do pop e rap, como a vocalista do grupo de punk Savages Jehnny Beth e o poeta e cantor Benjamin Clementine.

A lista de colaborações para o disco inclui também gente que se você ainda não ouviu falar, prepare-se, ouvirá em breve: Mavis Staples, Vince Staples, Danny Brown, Popcaan e Kelela. Por fim, Albarn ainda selou a paz com o ex-Oasis Noel Gallagher, banda com a qual viveu a maior rivalidade do britpop, durante os anos 1990. 

Como uma banda virtual que se preze, a “viver” num mundo como o nosso, mais virtual do que nunca – com as redes sociais enraizadas nas relações humanas –, o Gorillaz se mostrou atual no seu retorno. Antes mesmo de colocar Humanz no mundo, Hewlett preparou “livrinhos” com a trajetória de cada um dos quatro integrantes da banda, publicados no Instagram do grupo – e as histórias tratam de baleias gigantes (de 2D), de um cativeiro na Coreia do Norte (Hobbs), um cárcere privado (Niccals) e uma trama envolvendo a máfia japonesa (Noodle).

“A história tem início na praia chamada Plastic Beach, que é onde vimos os personagens pela última vez”, ele diz. “E, agora, vemos eles tentando se adaptar ao nosso mundo.” 

GORILLAZ 

Jockey Club São Paulo. Rua Dr. José Augusto de Queiróz, s/nº, Portão 1. 6ª (30), às 21h.  R$ 140 a R$ 560. 

ENTREVISTA: Frente a frente com a banda  Gorillaz – ou, bem, quase isso 

Diante da pergunta sobre quem responde pelos Gorillaz – que “dão” entrevistas por e-mail –, Jamie Hewlett disfarça. “São os personagens!”, ele diz. Diante do silêncio do lado de cá da linha, ele segue: “Eu não posso responder. É como revelar a verdadeira identidade do Mágico de Oz. São os músicos, atores, comediantes, há muita gente que faz parte da nossa família agora. Na verdade, eles são mais reais que os popstars de hoje, que sempre mentem em entrevistas. Para mim, eles são mais verdadeiros”. A seguir, leia a entrevista por e-mail com 2D, Murdoc Niccals, Noodle e Russel Hobbs, como se fossem uma banda real: 

Foi fácil voltar ao ponto deixado pelo último disco da banda?

Murdoc Niccals: Voltar para onde estávamos? Não tenho interesse. O Gorillaz nunca vai para trás, nós somente vamos para frente, como um carro sem a marcha à ré e freios quebrados. É, pode ser perigoso, mas se você não fizer isso, você ficará estacionado, repetindo a si mesmo. 

De qualquer forma, foram anos distante da rotina das turnês?

Russel Hobbs: A vida na estrada é ótima, desde que você tenha um daqueles travesseiros de pescoço infláveis. Eu tenho dois. E evite ficar no mesmo andar que Murdoc nos hotéis. Ou melhor, fique em um hotel diferente do dele. Ele ainda não foi domesticado. 

Noodle, você viveu no Japão, o que trouxe dessa experiência para o disco do Gorillaz? 

Noodle: Todos os acontecimentos nas nossas vidas, pequenos e grandes, fazem quem nós somos. No Japão, eu passei sete anos caçando um demônio transmorfo. Acho que isso me ajudou a buscar a determinação necessária para conviver com Murdoc e os meninos na mesma casa de novo. Também descobri um café em Tóquio no qual você é rodeado por gatos e corujas de verdade. Eu não tenho certeza do que eu aprendi com isso, mas acho que o tempo vai dizer. 

O que esse título, Humanz, quer dizer sobre o disco e sobre a humanidade?  

Niccals: Você não consegue pontuar a música dessa forma. O que posso dizer é que Humanz, como todas as músicas, canaliza um sentimento. Algo que está em todos nós nesse momento, ao percebermos que a humanidade caminha para um lugar desconhecido. Estamos mudando como espécie, somos mais digitais. É humanos com um ‘z’. O que isso significa para a humanidade? Eu sei lá.

Qual foi a parceria vocal mais desafiadora?  

2D: Grace Jones! Nunca vou esquecer que nos conhecemos. Ela entrou no estúdio, me acordou, tirou seu casaco, olhou para mim e disse: ‘Pegue meu casaco’. E eu peguei. 

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