WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Frejat encontra-se na canção em seu primeiro álbum sem o Barão Vermelho

Cantor leva consigo o gene da banda que fundou há quase 40 anos para fazer 'Ao Redor do Precipício'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2020 | 05h00

Ao deixar o Barão Vermelho, em 2017, Frejat se colocou no campo contrário ao que um dia esteve quando Cazuza resolveu sair do grupo, em 1985, para seguir sua vida, sua agenda e seus flertes com a música brasileira sem ter mais de submetê-los ao consenso. Frejat saiu oficialmente em paz com os outros integrantes, alegando incompatibilidade de datas e expectativas resolvidas com civilidade, e passou a degustar as ideias de um primeiro álbum solo. Depois do próprio Barão Vermelho lançar o primeiro disco sem Frejat, com Rodrigo Suricato fazendo a voz principal, Frejat lança seu primeiro álbum sem a banda que fundou, em 1981, há quase 40 anos.

As duas manobras da vida em torno do Barão, a primeira o deixando no lugar de um personagem tão forte quanto Cazuza e a segunda o fazendo sair sem levar a marca que fortalece por quatro décadas, acabaram por colocar em teste, mesmo em momentos diferentes, atributos que, se não fossem sólidos, já o teriam derretido. Muitos grupos se foram assim, quando seus líderes morreram. Só para ficar nos anos 80, não houve Legião Urbana sem Renato Russo e não haveria Paralamas sem Herbert Vianna, mas houve Barão sem Cazuza e Frejat conserva-se bem sem Barão.

Frejat não muda a história dos outros com Ao Redor do Precipício, o álbum que lança agora com o quarteto de produtores Kassin, Humberto Barros, Maurício Negão e ele mesmo, mas avança na própria, aos 58 anos, com uma solidez de caráter artístico que não tem sido comum nos precipícios a seu redor. Apesar de tantos nomes dirigindo uma sonoridade mais ao passado das ideias que ainda funcionam ou ao pseudo futuro de um som que talvez nem se torne futuro, nada ecoa mais do que um jeito de pensar canção que, algo diz a quem escuta, só pode ter saído de Frejat.

Quando se ouve Pergunta Urgente, que foi trabalhada como um dos singles antes do lançamento, algo faz pensar que se trata de uma autoria de Frejat. Mas não. Quem criou a música foi o monge budista Luis Nenung, que a enviou para o cantor em 2015. Como nada acontecia, o próprio Nenung a lançou em 2019, em seu álbum Incendeia a Tua Aldeia. “Essa quase fica de fora”, conta Frejat. “Ela foi mandada por ele, que tinha uma banda que gravava pelo selo do Dado Villa-Lobos. Eu havia me esquecido completamente, e acabei me lembrando quando estava reunindo material para o álbum.” E é com tudo o que ela não tem, nada que a queira tirar dos lugares quentes e comuns das grandes canções, o detalhe que a torna poderosa.

Pergunta Urgente abre com violão, piano e a voz de Frejat. “Uma pergunta é urgente / A vida segue se eu desviar / Uma resposta depressa / Só que talvez eu não queira escutar / Eu faço tanto por tantos / Eu dou o que nem poderia te dar / Eu tenho medo seguro / Guardo aqui dentro pra não te assustar.” É simples, instantânea, com um slide guitar matador e no tempo certo de uma boa balada, sedutora até nos deslizes de uma ou outra nota que não se alcança. Uma balada como tantas outras que ele já fez quando empunhou violões.

É preciso viver alguns anos para se chegar à fé que faz artistas acreditarem na força de algumas canções de três ou quatro acordes. Frejat fala sobre isso. “Simplicidade é a grande busca. É muito mais difícil e desafiador só deixar aquilo de que a canção precisa.” Ele, acusado no passado de ser a parte roqueira na divisão que teria feito Cazuza sair do grupo por escolher a música brasileira, diz o que inspira a ideia da simplicidade. “João Gilberto e Miles Davis sempre fizeram isso. João nunca teve excessos. Está precisando disso? Não? Então sai.”

Mas a canção é uma das faces do álbum. E Você Diz é um maracatu de acento trocado cheio de força, rock and roll, uma parceria assinada por Frejat, Luiz Melodia (morto em agosto de 2017) e Jards Macalé, com vozes sobrepostas das flautas de Carlos Malta. Planetas Distantes, feita com Dulce Quental, tem uma mão mais solta de Kassin, mais movimentada e eletrônica. Amar um Pouco Mais, uma das quatro parcerias com Leoni, parece uma aposta pessoal de Frejat dentre suas preferidas e algo que representa também uma outra face de sua composição, com um direcionamento pop seguindo por um ciclo maior. Um belo hit de rádio se isso ainda existisse.

Alice Caymmi canta A Sua Dor É Minha, feita com George Israel e Mauro Santa, guardada desde 2002 ou 2003. Frejat só toca guitarra e um arranjo de cordas tem a assinatura luxuosa de Arthur Verocai. E Tudo o Que Eu Consegui, com Mauro Santa Cecília e Antonio Cícero, quase vira disco music e preserva os arranjos criados por um homem que merecia ver esse álbum pronto, Serginho Trombone. Serginho, um dos trombones mais generosos à música brasileira, atravessando auges das carreiras de Jorge Ben, Gilberto Gil, Rita Lee, Sidney Magal, Luiz Melodia, Alcione, Ed Motta, Antônio Adolfo, Lenine, Sandra de Sá e Lincoln Olivetti, que considerou seu maior professor, morreu em abril, meses depois de ter um álbum solo produzido e realizado pela insistência e o amor de Frejat.

O tempo traz dilemas e, na música, não é diferente. Afinal, seguir os sinais das transformações ou a história que se escreveu? “Eu não quis ficar preso ao passado, mas ao mesmo tempo não quis também soar moderninho. Não soar retrô, mas também não soar como os mais novos, como algo forçado”, diz Frejat. Não deixa de ser uma racionalização, uma preocupação que ele não teria se tivesse 25 anos. E talvez seja aí, quando soa como se tivesse 25, sem preocupações com o passado ou com o futuro, que ele consiga ser o melhor dos Frejat.

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