Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Frejat critica a dispersão do público nos shows e defende as biografias não autorizadas

Músico, que faz shows em São Paulo no próximo final de semana, luta por melhorias na lei de direitos autorais: 'O Lobão é ranzinza'

Entrevista com

Frejat

João Paulo Carvalho, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2015 | 05h00

RIO - Roberto Frejat mostra com orgulho os três quadros pendurados em seu estúdio na Lagoa, na zona sul do Rio de Janeiro. São grafites que retratam todos aqueles que, de alguma forma, inspiraram musicalmente o cantor e compositor. De Beatles a Rolling Stones, passando por Hendrix, Dylan e The Who. 

Em meio a astros do rock, há espaço para a MPB. Caetano, Gil, Gal e Bethânia se destacam diante dos inúmeros rostos do elenco de peso. Estão todos misturados. Ali, a segregação musical não existe. Este, talvez, seja o maior trunfo para influenciar Frejat. Naquele singelo espaço, grandes clássicos do rock nacional foram gravados. 

Aos 53 anos e uma boa rodagem na música, ele se reinventa o tempo todo. Parece nunca se satisfazer. Da memorável parceria com Cazuza à liderança do Barão Vermelho e uma carreira solo consistente, Frejat vem a São Paulo nos dias 31 de outubro e 1° de novembro para algo inédito: uma série de três shows acústicos. “Não me lembro de uma sequência de apresentações intimistas em lugares pequenos só com voz e violão. É a chance de tocar algumas coisas que eu quase nunca toquei ou não apresento há muito tempo”, diz em entrevista ao Estado

Figura primordial na luta pelas mudanças na lei de direitos autorais e a favor da publicação de biografias não autorizadas, o músico se posiciona politicamente sem papas na língua. “O fundo do poço não existe. Sempre pode ficar pior. Acho que vivemos um momento ímpar dentro da política brasileira. Nunca o processo democrático esteve tão contaminado por corrupção e ineficiência. O jogo político emperrou o País”, afirma. 

Sobre a polêmica com o Ecad, Frejat é enfático. “O Lobão confunde Estado com o Governo. O que nós fizemos foi colocar alguém para fiscalizar o Ecad, independentemente de quem esteja lá: PT ou PSDB. O Lobão é ranzinza e desinformado”, complementa.

Apesar de ácido, Frejat ainda abusa do romantismo em suas interpretações. O cantor e compositor acaba de regravar a música Só Você para a nova novela das 19h, Totalmente Demais, que estreia na Globo no próximo dia 9 de novembro. Escrita por Vinicius Cantuária, mas famosa na voz de Fábio Júnior, o artista se irrita. “Às vezes o cara ouve alguma coisa e não tem ideia de quem compôs ou escreveu aquilo. Recentemente, eu regravei Só Você para o casal Fábio Assunção e Juliana Paes. Todo mundo fala que a música é do Fábio Júnior. Mentira! A composição é do Vinicius Cantuária. Isso não pode acontecer. O público, por uma questão conceitual, deveria saber quem são os verdadeiros autores. Malandragem é outro exemplo clássico. Não é da Cássia Eller, mas minha e do Cazuza”, esbraveja. 

Você fará três shows acústicos em SP na semana que vem. Não é um formato muito convencional na sua trajetória, certo? 

Eu fiz pouquíssimos shows acústicos na minha vida. Idealizo isso desde 2010, mas só acabou acontecendo em 2014, quando o André Midani me chamou para tocar na Cidade das Artes. Essa apresentação com voz e violão é uma coisa meio Bob Dylan no começo de carreira. De pegar o instrumento e ter de apresentar canções com ideias fortes, mesclando amor e temas de impacto. Dessa forma, portanto, posso tocar algumas coisas que eu quase nunca toquei ou não toco há muito tempo. 

Foi problemático adaptar as músicas para voz e violão? Como foi a escolha do repertório?

Faço duas versões de músicas que gosto muito: Carpinteiro do Universo, do Raul Seixas, e Trocando em Miúdos, do Chico Buarque. No mais, todo o repertório do show é autoral. Tem coisas do primeiro disco do Barão Vermelho, lançado em 1982. Bilhetinho Azul e Por Aí, por exemplo, músicas que adoro e há anos não tocava. Há também parte do meu trabalho solo. Do disco Amor Para Recomeçar (2002) e Sobre Nós Dois e o Resto do Mundo (2003). 

Você é um dos defensores da nova lei de direitos autorais, aprovada no Congresso em 2013, que diz que o Ministério da Cultura deve fiscalizar o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). O que mudou de lá para cá? Houve melhoras? 

Muita coisa mudou desde a nova regulamentação do Ecad. Para começar, já entrou muito mais dinheiro. O Ecad diminuiu a proporção da participação dele, que era de 24,5% para 18%. O valor deve chegar ainda a 15%. O Ecad sabia que ia perder e começou a fazer uma campanha de boa imagem, diminuindo as porcentagens. Mais de 40% do orçamento do Ecad era de departamento jurídico. Como não tinha uma instância superior, que foi justamente a discussão que a gente teve, eles sempre ganhavam. Agora não. Existe um órgão regulador e fiscalizador (Ministério da Cultura). O dinheiro parou de ser retido. Eles queriam 2,5% do valor bruto da Globo. Você pode pagar 2,5% do valor bruto para direitos autorais, se você pagar coreógrafo, roteirista, diretor e músico. Agora, levar 2,5% do faturamento bruto só com a música? Não pode. O Ecad ia lá e botava a mão no dinheiro de todo o conteúdo. Isso está errado! Eu não posso ficar com o dinheiro do coreógrafo ou do roteirista.

 

Por que alguns artistas ainda se mostram contrários à fiscalização do Ecad? Lobão chegou a dizer que a lei autoritária permite que o governo persiga artistas não alinhados ao PT.

O Lobão confunde Estado com o Governo. O que nós fizemos foi colocar alguém para fiscalizar o Ecad, independentemente de quem esteja lá: PT ou PSDB. Essa é a questão. As pessoas que defendem a lei são alinhadas às sociedades artísticas, com salários. É muito claro que as pessoas que defendem a modificação da lei são pessoas que recebem e vivem daquilo. Quem está dentro do Ecad, obviamente, não quer perder a boquinha. Eles vivem do que a estrutura fornece para o autor. O Lobão é um caso a parte. Ele é ranzinza. Não tenho nenhum problema pessoal com ele. É meu amigo, companheiro de geração, mas ele está mal informado. 

Você faz parte do Grupo de Ação Parlamentar Pró-Música (GAP). Um pouco antes da decisão do STF, em junho deste ano, que autoriza a publicação de biografias não autorizadas, vocês se mostraram a favor da decisão.

Apesar de eu achar a Justiça do Brasil lenta e acreditar que a pessoa pode ter danos morais devido a uma biografia escrita de má fé, ainda prefiro isso à proibição de fatos verdadeiros. É muito importante que a gente saiba a história das pessoas. Muitas vezes são herdeiros que entram com ações para proibir as obras. Ou seja, eles mesmos querem esconder alguma coisa da vida da pessoa biografada. Eles preferem inventar uma verdade nova sobre alguém. O biógrafo vai responder por aquilo. A gente paga pelo que fala. Isso já basta. Às vezes, não dá para esconder certas coisas. Essa coisa de direito ao esquecimento é ridículo. 

Qual sua opinião sobre a atual situação política e econômica do País?

O fundo do poço não existe. Sempre pode ficar pior. Acho que vivemos um momento ímpar dentro da política brasileira. Nunca o processo democrático esteve tão contaminado por corrupção e ineficiência. O jogo político emperrou o País. Esse jogo Dilma e Cunha não vai dar em nada. A gente precisa criar uma solução para fazer política. O Brasil não está evoluindo como nação. É muito frustrante. A engrenagem política emperrou e ela não vai sair dali. O número abusivo de partidos políticos mostra isso. Se tem tanta gente criando partido é porque tem algo muito interessante dando certo ali.

O Barão Vermelho acabou oficialmente?

Não, a banda depende muito dos momentos em que eu estou disponível. Minha carreira solo é prioridade. Acho que o Barão fez uma quantidade enorme de discos. Teria o maior prazer em celebrar isso. Nós não estamos brigados, mas acho que fizemos tudo que poderíamos fazer dentro do estúdio. Acho que a gente poderia gravar uma ou duas músicas. Agora, gravar um disco inteiro, ficar no estúdio por mais de dois meses, isso não. Não tenho mais paciência para isso. Talvez uma turnê de celebração, como fizemos em 2012. 

Em 2015, completam-se 25 anos sem Cazuza. 'Exagerado', primeiro disco solo dele, também faz 30 anos. O que falar desta parceria musical?

A minha parceria com Cazuza é um dos maiores presentes que a vida me deu. Juntos, aprendemos a compor e fomos criando um corpo de canções que me deixa orgulhoso. Músicas que viraram a trilha sonora da minha geração e que permanecem até hoje no coração e na memória de várias gerações.

Ouve música por streaming? Como você consome música?

O público de hoje é muito disperso. É uma coisa de geração mesmo. Tem cara que nem assiste ao show na hora. Grava com o celular e vai ver em casa. É difícil construir uma carreira com um público que hoje em dia tem um déficit de atenção. As pessoas hoje buscam a música de uma maneira diferente da que elas buscavam na década de 1980. E isso não é necessariamente saudável. Quando era adolescente, ficava horas no quarto ouvindo discos. Hoje, não existe vínculo com a música. O público tem assimilado pouco o nosso trabalho. Nós músicos ficamos chateados com isso.

FREJAT

Teatro J. Safra. Rua Josef Kryss, 318, 

Barra Funda,3611-3042. Sáb. (31), 21h e 22h30; dom. (1º/11), 20h. R$ 80/ R$ 180. 

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