Freire está na coleção que mapeou a história do piano neste século

Genial em cada uma das obras que executou, proclamou a crítica americana depois do concerto que Nelson Freire deu, em abril de 1984, no Kauffmann Concert Hall de Nova York. Os aplausos mais prolongados foram os que ele recebeu após a Fantasia em Dó Maior Op. 17, de Robert Schumann, peça de complexidade excepcional, que o público desta cidade teve a oportunidade recente de ouvir, num recital de Freire na Sala São Paulo. O refinamento com que executa um repertório muito abrangente, de Mozart a Bartok - mas tem uma afinidade toda especial com o romantismo - justifica que Nelson Freire tenha sido um dos escolhidos para integrar a gigantesca coleção Great Pianists, em 200 volumes, da Philips, que mapeou a história do piano neste século. Tendo feito sua primeira apresentação pública aos 4 anos, Nelson Freire precisava viajar oito horas diárias até Varginha, vizinha de Boa Esperança, em Minas Gerais, onde nascera, pois era ali que ficava o professor de piano mais próximo. Muito cedo, porém, esse professor procurou o pai do menino, dizendo-lhe que nada mais tinha a lhe ensinar. Impressionado com a facilidade com que o filho aprendia, o pai de Nelson mudou-se com a família para o Rio e, ali, ele estudou com Nise Obino e Lúcia Branco. Uma bolsa de estudos na Europa foi o prêmio por, com apenas 12 anos, ter vencido o 1º Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro. Oito anos depois de estar estudando em Viena, ele venceu o Concurso Internacional Vianna da Motta, em Lisboa. E entrou para o circuito internacional, conquistando nele um lugar de primeiro plano, ao surpreender a platéia com uma poderosa interpretação do Concerto nº 2 de Tchaikovski, em 1966, na então Alemanha Ocidental. Essa peça, incluída pela Columbia num álbum em que ele faz também os concertos de Schumann, Grieg, o nº 1 de Tchaikovski e a Totentanz de Liszt, constitui até hoje um de seus maiores sucessos fonográficos. Mas Nelson Freire grava relativamente pouco. "Prefiro fazer dez recitais a gravar um disco", declarava ele ao Estado em agosto de 1983. "É difícil transmitir para o disco a emoção de uma apresentação ao vivo. É tudo muito mecânico: uma luzinha acende no estúdio e você tem de começar. Além disso, as gravadoras têm a mania de fazer projetos com a integral de determinados autores, enquanto nos recitais sou eu que seleciono o repertório." Nelson detesta a rotina: "Às vezes, os recitais são marcados com até quatro anos de antecedência, não só o horário, mas também o repertório. Já imaginou saber o que você vai tocar daqui a quatro anos?" Por isso, ele é conhecido pelas mudanças de última hora que costuma fazer em seus programas (aqui mesmo, na Sala São Paulo, onde estavam anunciadas peças de autores brasileiros, ele decidiu, após o intervalo, fazer uma segunda parte dedicada apenas a Chopin). Essa é a forma encontrada por um artista ultra-solicitado, que tem cinco empresários, de não tornar mecânico o seu trabalho. Naturalidade - Essa é a razão pela qual já se observou que, apesar da extrema precisão com que ele executa as peças de seu repertório, o frescor da interpretação dá sempre a impressão de que ele está tocando aquela música pela primeira vez. À tendência, tão comum entre os instrumentistas de hoje, de selecionar fragmentos de diversas sessões de gravação e, com elas, montar um master de perfeição artificial, ele opõe a preferência por uma execução espontânea, se possível ao vivo - ainda que com o risco do pequenino erro que, na verdade, confere até mais naturalidade ao registro. Isso está perfeitamente de acordo com o artista que, em entrevista de junho de 1985 ao Jornal do Brasil, declarou: "Música tem de ser como uma namorada. Amor à primeira vista. Como em qualquer relação entre duas pessoas, há uma infinidade de coisas que podem acontecer entre o intérprete e a obra. Na música, como na comida, tudo depende do momento. Gosto de tudo. Tocando, quero sentir prazer. Não sou uma máquina."

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