Free Jazz está garantido, mas apenas este ano

Este ano, nada muda e, do futuro, só Deus sabe. Assim a produtora Dueto, responsável pelo Free Jazz desde 1985, encara a lei votada este mês na Câmara Federal, proibindo a propaganda de cigarros, mesmo como patrocínio de eventos culturais. Os shows do Free Jazz 2000 ocorrem de 19 a 21 de outubro, no Rio, e de 20 a 22 do mesmo mês, em São Paulo. A criadora do evento, Monique Gardenberg, não fala sobre o assunto e uma funcionária que não quis se identificar foi sucinta: "Estamos cuidando do Free Jazz deste ano e só depois vamos pensar no próximo."A lei ainda precisa ser votada pelo Senado, o que não deve ocorrer em seguida, pois não está na pauta de setembro nem na de outubro. Mas o Free Jazz de 2001, de qualquer maneira, já está ameaçado porque a Souza Cruz, que fabrica o cigarro que lhe dá o nome, anunciou que vai acabar com o investimento - e mais os da área esportiva - caso a lei seja aprovada. Segundo o presidente da empresa, Flávio de Andrade, US$ 20 milhões (cerca de R$ 37 milhões) são gastos anualmente com patrocínios.Andrade prefere não dizer quanto vai para cada atividade ou evento, mas lamenta a proibição legal. "Quem perde é o País, porque faltarão recursos para desenvolver atividades cuja importância supera o fato de serem patrocinadas por cigarros", diz o presidente da empresa. "O Free Jazz, por exemplo, em sua 16.ª edição, é o terceiro maior festival do gênero no mundo e não poderá contar mais com nosso patrocínio."O Free Jazz é o mais importante, mas não o único evento cultural promovido por uma marca de cigarros. Embora nos últimos anos a indústria do tabaco tenha privilegiado os patrocínios esportivos, especialmente os esportes de motor. A Philip Morris, que este ano pagou a vinda dos grupos de balé Alvin Ailey e Hubbart Street Dance ao Brasil para divulgar a marca Marlboro (investindo R$ 250 mil em cada um, sem usar incentivo cultural), lamenta as restrições da lei, embora a subsidiária brasileira não seja tão afetada."Nossos patrocínios são negociados em nível internacional, ou seja, fazemos um contrato com um grupo, geralmente de vanguarda, para uma turnê mundial", diz o vice-presidente de Assuntos Corporativos e Jurídicos da Philip Morris, Clodoaldo Celentano. "Neste caso, o que vai ocorrer é que o Brasil vai ficar fora dessas excursões ou então vamos usar os produtos de nossa linha alimentícia, da Krast (fabricante dos chocolates Lacta e Suchard), nossa subsidiária no exterior."Quem mais lamenta é a presidente da produtora Antares, Maria Rita Stumpf, que trouxe os dois grupos de dança ao Brasil. Apesar de não ser fumante e se dizer "quase" antitabagista, ela lembra que a oferta de patrocínios no Brasil é insuficiente para a demanda e fechar essa fonte prejudica um mercado que já é restrito. "É preciso lembrar que um evento patrocinado por uma marca de cigarros não manda ninguém fumar e que o cancelamento não leva o fumante a deixar o vício, mesmo sabendo o mal que o cigarro faz à saúde", diz Maria Rita. Ela faz coro com a posição da Associação Brasileira da Indústria do Fumo (Abifumo): "Se o produto é legal, se o governo não abre mão do imposto que arrecada com o cigarro, por que proibir a propaganda?"O diretor da Dell´Arte, Stephen Dalsberg, produtora de eventos de balé, música erudita e canto lírico, concorda com Maria Rita, mas lembra que a indústria do fumo tem contribuído pouco com eventos culturais, ao menos na sua área. "Nunca tivemos esse tipo de patrocínio e, nos últimos anos, as fábricas de cigarro nem foram receptivas a nossos artistas", conta ele. "Além disso, muitos artistas dessa área não aceitam ser patrocinados por marcas de cigarros."É o caso das grandes orquestras filarmônicas, como a de Chicago, Viena e Berlim, do New York City Ballet e, obviamente, da maioria dos cantores líricos, entre eles Luciano Pavarotti, José Carreras, Montserrat Caballé e Norman Jessie. Para esses, o cigarro é um inimigo mortal de seu principal instrumento de trabalho, a voz. Entre os grupos de balé, a posição é menos radical e os principais grupos de vanguarda do mundo só puderam vir ao Brasil, entre 1986 e 1992, com o patrocínio da Souza Cruz no Carlton Dance.Adaptação - "Com essa lei, não seria possível reativar o festival que mudou o panorama da dança no País", lamenta Maria Rita. "Deveria haver um período de adaptação para que outros patrocinadores fossem encontrados ou, então, a indústria do cigarro não deveria beneficiar-se com as leis de incentivo à cultura, como fez a Philip Morris, no caso do Alvin Ailey e do Hubbart Street Dance." Clodoaldo Celentano lembra que o benefício legal não foi usado porque a subsidiária brasileira sempre investe pouco nos patrocínios. "Como são fechados no exterior, só gastamos com a logística aqui ou, seja, hotéis, alimentação, transporte, etc." Ele acrescenta: "Nosso principal produto, o Marlboro, não é líder de mercado e nossa verba para patrocínio é pequena."Não é o caso da Souza Cruz, que usou a Lei Rouanet, no ano passado, para patrocinar o Memorial do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Segundo a empresa, foram gastos R$ 3,5 milhões, dos quais R$ 2 milhões vieram através da renúncia fiscal e o restante, como mecenato. O mesmo ocorre com o Museu de Arte Moderna do Rio (MAM) e o Museu de Arte de São Paulo (Masp), que têm a Souza Cruz entre seus patrocinadores. Nos três casos, a propaganda é mais institucional que de marcas.A verdade é que os eventos culturais perderam terreno para o esporte na preferência das empresas fabricantes de cigarros. A Philip Morris investe pesado nas Fórmulas 1 e Indy e no motociclismo, em nível mundial, patrocinando tanto eventos (como alguns Grandes Prêmios da Fórmula 1, incluindo o Brasil) quanto equipes (a Ferrari). Já a Souza Cruz, que teve em anos anteriores o Hollywood Rock e o Carlton Dance, ficou restrita ao Free Jazz. No caso do primeiro, que ocorreu entre 1988 e 1995, quando os Rolling Stones se apresentaram no Brasil pela primeira vez, também houve problemas de artistas que não aceitam ser patrocinados por cigarros. É o caso do grupo irlandês U2 e também do americano R.E.M e do canadense Rush. "Assim, fica mais difícil trazê-los ao País", avisa Maria Rita Stumpf.Apesar do aviso, tanto o Carlton Dance quanto o Hollywood Rock deixaram de ocorrer e o motivo não foi qualquer restrição ao cigarro. Na época, a Souza Cruz havia deixado de ser apenas patrocinadora; era também sócia do Hollywood Rock e, como tal, participava da bilheteria. Nem a Dueto nem a Souza Cruz divulgam as bases do contrato do Free Jazz - ou quanto é investido no evento -, mas em anos passados havia essa sociedade. Isso não impediu a vinda de vários grupos importantes entre eles os americanos do Take 6, cujos integrantes, por religião, são antitabagistas.A Artplan, que produziu duas edições do Rock in Rio (em 1985 e 1991) e vai realizar mais uma no início do ano que vem, não enfrentou o problema até porque nunca buscou patrocínio de marcas de cigarros. A terceira edição vai ser co-produzida pela provedora de acesso America on Line (AOL), que pode até interferir na escolha do elenco brasileiro e estrangeiro. Mas, definitivamente, o patrocínio de produtos derivados do tabaco está riscado de seus planos. "Com o tipo de filosofia que imprimimos ao festival, não teria o menor sentido", conclui o assessor de Imprensa da Artplan, Fernando Calais.

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