Franz Ferdinand faz show histórico no Motomix

Insano! Delicioso! Inesquecível!E, certamente, uma aula do que o rock tem a oferecer de melhor, e de como é possível levar uma platéia à loucura sem demagogia, sem apelação, munido apenas de um estoque inacabável de entusiasmo e energia.Quem fez isso? O grupo escocês Franz Ferdinand, que pôs tudo abaixo em seu show no festival Motomix Art Music 2006, no Espaço das Américas, para um público de 6,2 mil pessoas.A banda tocou durante uma hora e meia, começando com "This Boy", às 2h07. Se tivesse continuado a tocar indefinidamente, ninguém arredaria pé, pela reação do público, que cantava a plenos pulmões todos os hits: "Walk Away", "Take me out", "Do You Want To", "Jacqueline", "Michael".Tocou também duas novas músicas, "Can?t Stop Feeling" e "L Wells" - que, pelo jeito, já anunciam que o Franz Ferdinand será uma presença garantida também no dial nos próximos dois anos. Os versos de "Can?t Stop Feeling" são matadores: ?E você me deixa dançando sozinho/Yeah, você me deixa para morrer na pista/Você não pode sentir/Não, você não sente.?Último show da turnê que já durava um ano, a apresentação era a deixa para que o Franz recuperasse seu prestígio no (talvez) único lugar no mundo onde fizeram uma apresentação meia-boca: São Paulo. Eles tocaram 40 minutos na abertura do show do U2, em fevereiro, e foi irrelevante daquela vez.Agora, foi fundamental. O show terminou com todo mundo destroçando os instrumentos, arrastando os pratos da bateria pelo palco (com um fã participando da ?orgia?, depois de içado da platéia). Era como se, a partir dali, nada mais fizesse sentido. Mas ainda havia mais três horas e meia de música pela frente, e mais três atrações.Parecia aquelas sessões tribais de Roots, do Sepultura, último grande show daquela que foi a maior banda brasileira internacional.O grupo inglês Art Brut abriu seu show à 0h25, com "Formed a Band", espécie de revisão do manifesto do punk rock, aquele do ?faça você mesmo?. Como um Didi Mocó de Bournemouth, um furioso combatente antifashion, com a feia camisa xadrez abotoada irregularmente, o cantor Eddie Argos mostrou-se um showman completo. Ele faz rir, emociona, conduz a platéia com habilidade e ainda.O Art Brut só tem um disco, "Bang Bang Rock?n?Roll", mas todas as músicas do álbum parecem ter se tornado uma espécie de esperanto, todo mundo conhece o som e a historinha que vem junto. "Emily Kane" veio acompanhada de uma história sobre como ele conversou com Jay-Z sobre a besteira de se insistir em romances fracassados. ?Se você tem uma namorada, alguém que não era para estar junto com você, deixe-a ir.? O baterista tocava em pé, coisa de louco. Eddie Argos ainda mandou ?uma outra canção que o meu irmão fez?, nova, cujo nome escapou porque o sotaque dele é infernal.O Radio 4, banda do Brooklyn, Nova York (que faz questão de lembrar sempre que vem do Brooklyn), entrou no palco para tocar, depois do Franz Ferdinand, com uma terra arrasada em volta. Difícil fazer frente àquela devastação. Mas o grupo foi se esforçando, foi encorpando a música e, quando começou a fazer uso da percussão para emoldurar o disco-punk do seu som, convenceu. Ao final, o Radio 4 ainda protagonizou outra farra percussiva, às 4h43, quando tocavam seu maior hit, "Dance to the Underground": subiram nos pratos da bateria Eddie Argos, Alex Kapranos e os integrantes de suas bandas para martelar nossos ouvidos.Já a cantora norueguesa Annie, coxas fartas à mostra, iniciou tudo por volta da meia-noite. Seu maior hit é "Come Together", do disco Anniemal. Ao final, em momento fotolog, ela pediu pose para a platéia e tirou fotos com sua maquininha digital, com os fãs ao fundo.Há um certo cansaço já dessa fórmula que sustenta Annie (e também Peaches, Miss Kittin, e os brasileiros Montage e CSS): gritos de filme de Hitchcock entremeados com sussurros de disco de Gainsbourg, com alguém soltando umas bases e outro alguém tocando mal uma guitarra.Já eram 5h17 quando os alemães do Modeselktor subiram ao palco. Gernot Bronsert e Sebastian Szary, uma das melhores duplas de DJs da cena tecno/electro atual, seguraram bem a onda com sua mistura poderosa de dub, reggae e eletrônica. Pitadas do melhor da música jamaicana com tempero electro. Tudo isso somado às imagens lisérgicas dos também VJs alemães Pfadfinderei.Missão cumprida e música boa para poucos e bons, que resistiram até de manhã e ganharam de bônus o som dos garotos prodígios do MFA. Os britânicos Rhys e Alastair, mostraram que, além de bonitos e talentosos, fazem jus à fama que ganharam nos últimos dois anos. A dupla, que já usou pop, rock, techno, house, drum?n?bass, breaks, neo-trance, electro, distorceu e retorceu várias batidas em quase uma hora de apresentação. O MFA não é fácil de ser rotulada, mas é fácil de ser ouvida. Eles fazem questão de dizer que a música para eles é hobby, mais que trabalho, é pura diversão. Para os heróis da resistência da noite de sábado, também foi. Colaborou Flávia Guerra

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