Francis Hime grava raridades em novo CD

Há mais de uma década, Francis Hime dedica seu tempo mais à composição de música sinfônica, ou trilhas sonoras, do que à canção para ser cantada, ao que se entende por canção popular (não que as outras peças não sejam populares), o molde que o fez famoso e lhe deu um lugar entre os maiores melodistas da história da música brasileira.Seu último trabalho registrado em disco foi a Sinfonia de São Sebastião do Rio de Janeiro, peça apresentada ao público em 2000 e lançada (em CD e DVD) dois anos depois. Antes disso houve o Choro Rasgado, de 1997. O grande compositor de sambas e canções é também um mestre do choro.Francis está lançando, finalmente, um disco só com músicas inéditas. Chama-se Brasil Lua Cheia e tem chancela da gravadora Biscoito Fino. É um primor. O autor sabe disso."Nunca me dediquei tanto a um trabalho", conta. Brasil Lua Cheia, considera, é resultado de "intenso trabalho de amadurecimento" de suas composições.Traz surpresas. Uma letra inédita de Vinícius de Moraes, outra inédita de Cacaso (que morreu em 1987); trabalhos com novos parceiros "Moraes Moreira, Adriana Calcanhotto, Joyce, Paulinho da Viola, Lenine; e outros com companheiros habituais de trabalho: Geraldo Carneiro, Paulo César Pinheiro, Olivia Hime, que assina Disfarçando, samba-choro que foi uma das últimas músicas feitas para o disco.Francis confessa que foi sempre muito desordenado com a composição. Jamais catalogou nada, eventualmente não teve o cuidado de gravar uma canção nascida de repente, na certeza de que depois se lembraria dela. Sabe agora que tem mais de cem músicas prontas, nunca mostradas em público. É que, no fim do ano passado, começou a garimpar os guardados: coisas gravadas em fitas cassete, poemas anotados em guardanapos, esboços de melodias deixadas de lado."Começou a dar aflição", conta ele. "A gente vai fazendo, larga pra lá e as coisas se perdem. Resolvi arrumar. Fui pegando no baú, fazendo gravação de piano e voz, escrevendo as partituras." O motor dessa súbita vontade de organizar a criação foi o lançamento do Songbook Francis Hime, produzido por Almir Chediak.No baú, encontrou uma canção feita com Vinícius de Moraes que - nem Francis sabia por que - nunca foi mostrada. "Eu me perguntei por que tinha escondido aquela música; descobri, então, que melodia e letra não casavam. A minha melodia era um tanto solene, épica; a letra de Vinícius era leve... Resolvi fazer outra melodia, mais de acordo com a música." Deu no samba Meu Coração.História diferente é a do poema de Cacaso, também tirado do baú. "Eu encontrei a letra anotada à mão, rabiscada, com coisas que eu não sabia se eram ou não para aproveitar; mas a poesia tinha um corpo, e eu havia, na época em que peguei a letra, esboçado uma melodia", lembra. "Baseado na memória, tentei reproduzir a melodia. Não sei se consegui. Em todo caso, a música de Minas Goiás respeita o espírito do poema." Francis tem outros escritos de Cacaso guardados.E, garimpando, sentiu coceira de compor. "Cheguei a fazer cinco músicas por dia; fui pensando em quem seria o letrista ideal para uma ou outra", conta. "Da coleção final de quase 100, escolhi umas 50 que pareciam ter alguma ligação, por sutil que fosse, entre si." Francis nunca havia composto com Paulinho da Viola. "A gente namorava; eu já havia mandado para ele uma canção, mas Paulinho não fez a letra. Agora, quando cobrei, ele pediu outra. E saiu o Choro Incontido" (que Paulinho canta em duo com Francis).Trabalhar com Joyce também era vontade antiga, e eles assinam, finalmente, o samba Cinema Brasil. Com Moraes Moreira foi também curioso. Moraes fez letra para uma melodia que Francis lhe mandou. No dia em que foi entregar a letra, deixou um papel com uns versos escritos. Francis leu, gostou, musicou e o resultado, Brasil Lua Cheia, deu nome ao CD.

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