Leo Aversa
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Francis Hime comemora meio século de carreira com shows e disco de inéditas

Pianista e compositor, parceiro de Vinicius de Moraes e Chico Buarque, apresenta neste fim de semana em São Paulo seu álbum 'Navega Ilumina'

Lucas Nobile , Especial para O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2014 | 03h00

Na década de 1960, Vinicius de Moraes (1913-1980) estava com seu “ouvido clínico” apurado. Como se não bastasse toda a influência que já tinha exercido sobre a garotada daquela geração com a bossa nova, ele ainda encampava a missão de fazer com que alguns jovens abandonassem carreiras acadêmicas em outras áreas e apostassem na música. Daquela turma de rapazes seduzidos por Vinicius, a maioria, nomes como Chico Buarque, Edu Lobo e João Bosco, está aí até hoje, com carreiras mais do que consolidadas. Entre eles está Francis Hime, que completa 50 anos de carreira e apresenta neste sábado, 15, e domingo, 16, no Sesc Pinheiros, o repertório de seu disco, Navega Ilumina.

A presença do poeta foi tão marcante na vida de Francis que se engana quem pensa que ela se mantém viva para o pianista, compositor e arranjador apenas no campo da saudade e da memória. Trinta e quatro anos após a morte de Vinicius, ele aparece neste novo álbum de Francis não como um parceiro do passado, mas vivo, pela inédita Maria da Luz.

Em março deste ano, o músico revirava seu baú de composições a fim de encontrar o manuscrito de um concerto para harpa, ainda inédito, escrito para Cristina Braga. Lá pelas tantas, já aflito por não encontrar o que procurava, Francis se deparou com outro manuscrito: a letra de Maria da Luz. O poema havia sido escrito por Vinicius na década de 1970 para o balé Polichinelo, do cineasta francês Jean-Gabriel Albicocco.

“Ano passado, no centenário do Vinicius, alguém comentou comigo sobre este balé, mas eu não me lembrava de absolutamente nada. Por alguma razão, ele não foi para frente e o poema do Vinicius acabou ficando esquecido”, diz Francis. “Ao encontrar o manuscrito, vi que tinha uma recomendação anotada com a letrinha do Vinicius: ‘Para Francis fazer a música’. Sentei no piano e a música veio. Em meia hora, estava pronta. Parece que o Vinicius me soprou a música, foi algo impressionante, isso não acontece sempre”, completa.

A identificação entre os dois já dura mais de meio século. Em 1957, quando Francis tinha apenas 18 anos, os dois se conheceram em uma festa na casa do pianista. Vinicius estava lá por ser muito amigo da mãe de Francis, a pintora Dália Antonina. Já naquela época, “recomendava vivamente à minha mãe que eu fizesse música”, relembra o músico.

A parceria dos dois só seria consumada em 1964, quando Francis, ainda no primeiro ano da faculdade de Engenharia, cedeu às investidas de Vinicius para que lhe mostrasse algumas músicas a fim de que ele “botasse umas letrinhas”. A primeira a surgir foi Sem Mais Adeus. Naquele mesmo ano, a canção foi gravada no LP Wanda Vagamente, de Wanda Sá (com o nome do compositor registrado na contracapa do álbum como “Francisco Heime”), e no disco Os Seis em Ponto, considerado por Francis como o trabalho inaugural de sua carreira. “A gente brincava, dizendo que o melhor daquele disco era a contracapa”, se diverte Francis sobre os dois textos escritos por Tom Jobim e Ronaldo Bôscoli para o LP.

Poucos anos depois daquele álbum, Francis, que tivera aulas de piano clássico desde os 6, resolveu pegar as malas e seguir para a Califórnia, onde estudaria composição, arranjos, orquestração e trilhas para cinema (com Lalo Schifrin) entre 1969 e 1973. No ano de sua volta ao Brasil, retomou a carreira com o álbum Francis Hime. Daquela década para cá, compôs com os maiores nomes da música brasileira, fez trilhas para filmes de sucesso, como Dona Flor e Seus Dois Maridos, formou com Chico Buarque sua parceria de maior sucesso, escreveu obras tanto no campo do popular quanto no erudito, somando mais de 20 discos de carreira. 

Criatividade em dia. No caminho contrário do que fazem muitos medalhões, que comemoram efemérides de carreira com coletâneas, discos ao vivo com regravações de sucesso, Francis lança um álbum com 12 temas inéditos, dando provas de que mantém o vigor da criatividade em dia.

Para o disco, que traz na capa o nome de batismo do autor, Francis Victor Walter Hime, ele teve como ponto de partida a intenção de traçar um panorama de sua produção. Mas como fazer isso sem cair na armadilha fácil de regravar sucessos? A saída encontrada foi gravar inéditas que carregam a marca do estilo de composição de Francis, sempre na fronteira entre o popular e o erudito.

“O disco traça um painel da minha obra. Fiquei me perguntando como é que funciona a unidade de um disco que tem uma fantasia para violino e, ao mesmo tempo, um samba-enredo, como é o Navega Ilumina, e eu achei que isso era mais uma questão de elaboração do roteiro, da ordem das músicas, como isso podia ser desenvolvido, e consegui juntar essas facetas todas”, comenta Francis.

Na tentativa de construir esse “painel da obra” e apresentar suas diferentes “facetas”, o músico gravou sua produção mais ligada à “música de concerto”, como ele mesmo define, representadas por Cecília – Fantasia para Harpa e Orquestra e Isabel – Fantasia para Violino e Orquestra.

O restante do repertório passeia mais pelo popular, em parcerias com parceiros importantes na trajetória de Francis: sua mulher, Olívia Hime (Amorosa, Canção Noturna e Canção Apaixonada) e Geraldo Carneiro, no tema que batiza o álbum. Além deles, há dois sambas com letras escritas pelo próprio Francis (Ilusão e Mistério) e duas canções com parceiros mais recentes do pianista, Thiago Amud (Breu e Graal) e Joana, filha de Francis, na primeira parceria entre os dois, Sessão da Tarde.

Aos 75 anos, o compositor segue cheio de projetos. “Tenho muita vontade de escrever concertos para solistas, algo na linha que fazia o Radamés Gnattali. Vou começar a escrever um Concerto para Clarinete e Orquestra, depois quero fazer um para cello e orquestra”, diz ele. Francis ainda aguarda a encenação de uma ópera feita por ele, e que tem o futebol como pano de fundo, e também vai escrever um livro sobre o processo de criação e as histórias de suas composições, incluindo sucessos como Trocando em Miúdos, Atrás da Porta, Vai Passar e Meu Caro Amigo.

FRANCIS HIME
Sesc Pinheiros. Teatro Paulo Autran. Rua Paes Leme, 195, 3095-9400. Sábado, 15, às 21 h; domingo, 16, às 18 h. R$ 15/R$ 50. 
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