Força do Keane é animalidade vocal de Chaplin

Duas ou três coisas sobre o show do Keane, realizado na noite de quarta-feira, 18, no Credicard Hall.Primeiro, Tom Chaplin canta muito. Canta demais. Parece sempre que está sempre cantando na nave de uma grande catedral, colocando a voz ali naquele espaço sagrado, acompanhado por um órgão de missa. Parece também um daqueles meninos cantores de Petrópolis, com suas bochechas rosadas, cara de criança desamparada.Tom Chaplin fala demais. Nos intervalos entre uma música e outra, desmancha-se em puxação de saco da platéia. Chega a irritar.Alguém argumentou que sentiu falta de um baixo no som, que tinha apenas piano, bateria e voz. Mas o Keane é apenas um veículo para a animalidade vocal de Chaplin, que canta melhor que o Chris Martin, do Coldplay, e que o Fran Healey, do Travis. Quando ele canta Hamburg Song, acústico, no meio da passarela, é de arrepiar.Alguém disse que era um show de rock para meninas. Talvez. E daí? Esse tipo de apartheid da ignorância era mais comum nos anos 80, quando os roqueiros ironizavam bandas como Pet Shop Boys, Depeche Mode, Human League - diziam que era tudo boiola e que rock era coisa de macho. Jesus, que tempo confuso!Disseram também que as baladas do Keane seriam fatais para diabéticos. Besteira, ninguém tem que ter vergonha de gostar do que se gosta, mesmo quando é um lance descaradamente sentimental, emotivo. Se bateu, bateu.O show é tecnicamente e cenograficamente muito bem resolvido. As imagens estilhaçadas em diversos pequenos telões, no palco, são precisas e bonitas. Chaplin falou contra a guerra, auxiliado por um poema irlandês no telão, arriscou aquele português demagógico (?Exta cançau é dedjicada au Bracil?) e correu como um cabrito. E então alguém deu uma bandeira do Brasil para Chaplin, ele esticou no teclado com a ajuda de duas garrafas de água, mas um sujeito do meu lado não se conteve e gritou: ?It is upside down!?. A faixa Ordem e Progresso estava de ponta-cabeça. Não é só o Cho: tem tudo que é tipo de doido por aí.Certo momento (ali pela seqüência quebra-barraco de Somewhere Only We Know e Is It Any Wonder?), Chaplin pediu para todo mundo levantar e fazer o maior barulho possível com suas gargantas, balançando as mãozinhas. Oh, boy... E então terminou o show e o Keane parecia que já tinha cumprido sua missão. Daí, quando saíam de van, ali pela meia-noite, ainda tinha uma pá de fãs gritando e chorando nos fundos do Credicard Hall. Pois não é que eles desceram do carro e foram lá conversar com a moçada? Ficaram uma hora e meia, e falaram e tiraram foto com todo mundo. Garantiram um lugar no Paraíso.Moral da história: banda boa é banda boa, e não tem segredo, basta acreditar naquilo que faz. E ter pelo menos um cara talentoso no palco (tinham três, o pianista e o baterista também são bons músicos).

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.