José de Holanda/Divulgação
José de Holanda/Divulgação

Flavio Tris fala sobre seu primeiro disco e sobre a música brasileira hoje

O músico, cantor e compositor lançou, em 2013, CD produzido por Alê Siqueira e com participações de Tulipa Ruiz e Filipe Catto

Marina Vaz, O Estado de S. Paulo

22 de janeiro de 2014 | 22h34

Em um domingo ensolarado, o paulistano Flavio Tris, de 32 anos, recebeu o Estado em sua casa, para uma longa entrevista. Entre um cigarro e outro, falou sobre o início de sua ligação com a música, sobre seu primeiro CD e sobre o que pensa sobre a música brasileira hoje (a boa e a ruim). Confira abaixo os melhores momentos da conversa:

Você começou a tocar piano com 5 anos de idade. Sua família é ligada à música ou era mais um passatempo?

Tem uma ligação com música na família, sim. Meu pai toca piano; queria ser maestro quando era jovem. Minha mãe toca piano. Esse piano que você está vendo aí (aponta para o instrumento, em sua sala de estar) é um piano que meu avô deu para o meu pai quando ele tinha 15 anos; está há 60 anos na família. Tenho uma foto com menos de 2 anos de idade sentado no piano brincando. Fiz aula dos 5 aos 15 anos de idade. Um pouquinho antes de eu parar de fazer aula de piano, comprei um violão, e, com ele, passei a me aventurar mais em cantar canções. Sempre gostei de cantar. Mas o violão despertou uma vontade de cantar e tocar ao mesmo tempo.

Nessa fase da adolescência, você pensava em fazer música profissionalmente?

Não, no colégio, não. Tanto que não fui fazer faculdade de música, fui fazer faculdade de Direito. Advoguei durante alguns anos. É uma coisa de que eu quero distância; precisei me livrar daquilo. É aquela coisa: o tempo vai passando e vão dizendo “isso é fase, é coisa de moleque.” Daí, eu vi que estava com quase 30 anos de idade e vibrando muito mais com música do que com qualquer outra coisa. Porque nunca foi vocacional; foi uma escolha errada. Mas também não me arrependo, vivi o que tinha que viver.

E a compor, você tinha quantos anos quando começou?

Quando eu terminei a faculdade de Direito, fui morar alguns meses na França. Morava numa república, mas ficava muito tempo sozinho; tinha muito tempo livre. Lá eu comecei a compor, e foi uma enxurrada. Em seis meses, fiz umas 40 canções. Eu tinha uns 22, 23 anos. Eu nunca me imaginei intérprete e, por isso, nunca me imaginava músico. Quando comecei a compor, pensei: “agora eu tenho esse caminho.” Quando eu voltei da França, abri um escritório de advocacia, mas já estava com isso (de fazer música) na cabeça.

Como e quando foi seu primeiro show?

Uma amiga poetisa, Júlia Hansen, me deu 14 poemas pra musicar. Eu musiquei todos, alguns com a letra, outros com temas instrumentais. Quando ela foi participar de uma exposição, em um projeto com vários artistas intervindo em exemplares datilografados dela, ela me chamou para fazer o show de abertura. Isso foi em agosto de 2009, na Associação Cultural Cecília. Fiz esse show lá e teve uma recepção ótima. Aquilo me turbinou pra começar a fazer alguma coisa.

No mesmo ano, no Centro Cultural Rio Verde, eu fiz o primeiro show com banda, com o Mauricio Mass e o Tchelo Nunes. A partir daí, a gente fez vários shows em trio, na Casa de Francisca, no Sesc. E, no final de 2010, começo de 2011, lançamos um EP. Era mais amador, com 5 faixas, algo produzido na raça mesmo. Eu criei um site, que é o flaviotris.com, que tenho até hoje, e disponibilizei o EP. A diversão era tocar, ir pros lugares e sair distribuindo o EP. Nessa época, eu terminei o mestrado em Filosofia do Direito, e larguei o escritório de advocacia. Abandonei definitivamente e, a partir daí, o investimento foi total em música.

Que tipo de música você sempre ouviu? Quais foram suas referências?

Eu escutei muita música clássica quando era moleque, rolava até um bullying dos primos (risos). Porque eles gostavam de rock pesado e tal. Eu escuto e gosto muito de música clássica até hoje. Daí, quando cheguei mais perto da adolescência, estava numa aula revisando as proparoxítonas e a professora falou da música ‘Construção’, do Chico Buarque. Lembrei que meu irmão André ouvia aquilo e pedi para ele gravar uma fita K-7 pra mim. Era metade Chico e metade Caetano. Daí, eu não gostei do Caetano, e fiquei louco pelo Chico.

Foi aí que eu saí do universo erudito e entrei de cabeça na canção. Viciei em Chico Buarque, tinha todos os discos, conhecia a obra inteira. Daí, eu comecei a pular de um por um, conhecendo esses grandes nomes, a obra toda. Sou devoto. Depois, me apaixonei também pelo Caetano, e por Gil, Jorge Ben, Tom Jobim, todo o pessoal da Bossa Nova. Sou louco por João Gilberto – às vezes tenho a sensação que não existe ainda nada mais moderno do que João Gilberto.

Sou louco por música. E isso não quer dizer que eu goste de tudo. Acho que muita gente trata a música hoje em dia muito indignamente. Tem coisa que eu não posso nem chegar perto.

Como assim indignamente? O que mais o incomoda?

Me incomoda, de certa forma, a falta de conhecimento sobre o que já foi feito. Isso não é nenhuma postura passadista nem nostálgica, mas eu acho que tem que se conhecer o passado para poder olhar pra frente. Só pode voar quem tem pé no chão.

Eu estava escutando um disco recente que era só de voz e violão. Eu ouvi o disco todo e não guardei nenhuma frase, nenhum caminho melódico, nada. Era como se o sujeito não tivesse escutado João Gilberto. Isso me dá um certo cansaço – alguém que resolve fazer, em 2014, um disco de violão e voz que parece descolado de tudo o que foi feito nessa seara há 50 anos.

Outra coisa que vejo muito por aí é o total descompromisso com a questão poética, com o lirismo. E isso vem, geralmente, de uma geração de músicos que, ao contrário da geração passada, estudou muito mais, fez faculdade. Uma coisa é estudar música e fazer música instrumental. O problema é focar naquilo e depois querer fazer canção. Claro que quanto mais estudo melhor, mas, pra fazer canção, isso não basta.

E outra coisa que me incomoda é música de entretenimento. Outro dia eu parei para escutar alguns fenômenos pop. E a sensação escutando aquilo é que é muito pior do que a música pop de entretenimento que se fazia 20 anos atrás. É vazio, é num grau de oco que eu não consigo acreditar. Sem contar que os cantores pop de hoje vem totalmente carregados de maneirismos, de uso de americanismos.

Antes, a música de massa era um Gil, um Caetano, um Chico. Deixou de ser. E talvez nunca volte. Nesse sentido, quanto à cultura de massa, eu sou um pouco pessimista. O lugar que a gente chegou, de entreter as massas com migalhas... Não sei se agora tem condição de reverter isso. Precisaria de uma revolução mesmo, cultural, educacional.

Agora eu, como amante de canção, sinto que minha estrutura toda – minha estrutura emocional, quase espiritual – é muito composta de tudo aquilo que eu escutei. Isso me construiu, fez eu me interessar por uma série de coisas, fez eu me tornar uma pessoa mais tolerante, mais compreensiva com diferença, me tornei uma pessoa melhor por isso. E eu fico achando que isso deve fazer bem pra todo mundo. Se todo mundo tivesse a oportunidade de entrar em contato com arte, e aí nem é só música... É nesse sentido que faço uma crítica a essa música de entretenimento, porque ela aprisiona o sujeito num baixo nível, num lugar raso de conteúdo, de matéria-prima. E pra pessoa se libertar daquilo depois? E, ao mesmo tempo, tem muita coisa boa. Dá pra ficar bem feliz.

De quais nomes dessa geração atual você gosta?

Dessas figuras que estão num processo contrário, que estão sofisticando a música pop – que é a Tulipa (Ruiz), o (Marcelo) Jeneci. Admiro muito. Jeneci é um super hitmaker, e tem uma sofisticação em termos harmônicos, em termos de arranjo. É uma coisa maravilhosa. E é pop. Totalmente pop. E a Tulipa também faz isso. Ela, um pouco mais roqueira, menos doce que o Jeneci. A Tulipa é um fenômeno, né? Um fenômeno vocal absurdo. Eu fico super feliz de ver esse povo trabalhando o universo pop e de um jeito incrível.

Em Belo Horizonte tem uma cena riquíssima, tem o Graviola e o Lixo Polifônico, que é uma banda de lá. Também tem o Gabriel Lopes, que participou do meu disco e que tem um trabalho solo. A Juliana Perdigão tem um disco maravilhoso – essa é uma que canta com verdade. Aqui em São Paulo, tem bastante coisa boa: o próprio pessoal que participou do meu disco, o Leo Cavalcante, o Filipe Catto. Eu fico impressionado com o Filipe, tem uma voz, uma interpretação.

Eu vejo muita riqueza no que está sendo feito. E o que me chama mesmo, mais do que a sonoridade, é sentir verdade na canção. Eu acho que a canção é feita de verdade. E verdade pessoal mesmo. A verdade minha que vai alcançar quem escuta. E quem escuta vai transmutar aquilo na sua própria verdade, vai interpretar aquilo do jeito que quiser. Não é falar que precisa ser do coração, não é exatamente isso. Precisa querer de fato dizer alguma coisa.

E qual é a sua verdade pessoal? O que te inspira a compor? 

Acho que a ideia é transpor para a canção aquilo que eu sinto, aquilo que eu penso, passando pelo filtro do meu universo lírico, do meu universo poético – que é, inevitavelmente, composto por tudo aquilo que eu escutei, que eu vivi em termos de arte.

Então, eu faço música às vezes baseado num conceito, num insight, numa percepção sobre uma determinada coisa. E tem que conseguir colocar isso na canção, porque, se você for explicar o insight da canção, a canção fica explicativa. Aí você perdeu, e a canção não serve pra nada. Se você vai simplesmente dar um recado ali, aí melhor escrever um texto do que fazer uma canção.

E aí é que está a maestria desses grandes nomes – eles conseguem transmutar em um universo lírico que faça sentido. Porque o caminho radical disso também acontece, que é quando as músicas não são explicativas, mas são nonsense num grau que, no final, você está só preenchendo. Em vez de preencher com som, você está preenchendo com sílaba, com palavra. Aí não faz muita diferença.

Como foi o processo de produção desse seu primeiro disco?

Os direcionamentos do Alê Siqueira (produtor), as escolhas dele, era tudo muito afinado com meu jeito de ser, não necessariamente com a minha música. A gente se entendeu muito bem. A Alê é o profissional de música mais competente com o qual eu já trabalhei. O ouvido mais absurdo, uma sensibilidade musical... E totalmente aberto, sem verdades, disposto a conhecer, a aprender junto. Foi um processo maravilhoso.

Foi ele quem chamou o (Rodrigo) Sestrem, que fez os sopros em metade do disco. O Sebastian (Notini), que é conhecido do Macalé (Maurício Mass, que toca acordeom e bateria), nós encontramos por acaso em uma festa na Bahia, onde gravamos o disco.

Agora, as participações vocais eram aqui de São Paulo. Foram escolhas minhas. Eu tinha vários amigos músicos que eu queria que participassem. A única certeza era o Celso Sim. Acho ele espetacular, único em termos de expressão poética e vocal. Eu não vejo muitos no nível dele. Um nível acima e muito menos conhecido do que deveria. Em ‘Sol Nosso de Cada Tempo’, nossas vozes parecem uma coisa só. Ele veio me dizer isso, que nós criamos uma terceira voz, que não é nem a minha, nem a dele.

Daí pensei em um dueto feminino em uma música, ‘Sejas Tu’ – e só podia será a Tulipa (Ruiz). Casou muito bem, eu tenho timbre mais grave, ela puxa pro agudo. E, na faixa ‘Tudo’, eu queria que a energia de algumas pessoas estivesse presente. Daí, chamei o Filipe (Catto), o Leo (Cavalcanti). Dá até um pouco de pena de chamar esses cantores super feras, porque naquela bagunça ali nem se ouve direito as vozes (nesta faixa, eles formam, junto com Celso Sim, um coro de vozes sobrepostas). Mas eu queria a energia deles no disco, mais do que qualquer coisa.

O processo todo foi muito fluido, junto de pessoas em que eu confio, em que eu acredito muito.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.