Flauta Mágica é ponto marcante das homenagens a Mozart

Um espetáculo de grande encanto visual, com um elenco ainda mais equilibrado do que o da encenação original, no Festival do Teatro da Paz, em Belém do Pará, de onde ele vem; uma corretíssima realização musical, da Orquestra Experimental de Repertório e de seu titular, Jamil Maluf, diretor do Teatro Municipal: tudo indica que esta montagem da Flauta Mágica, que estreou no sábado, será o ponto mais marcante das comemorações paulistas, este ano, dos 250 anos de nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart. A concepção visual de Fernando Anhê - apoiada em trabalho bastante preciso de iluminação feito por Wagner Pinto - reproduz, sem se repetir, as características básicas de Joãozinho e Maria, que já marcou época na história das montagens de ópera feita no Brasil. As possibilidades poéticas abertas pelo uso da luz negra, e pelos imaginosos recursos cenográficos criados por Anhê, são ideais para pôr em cena uma obra de tão desabrida fantasia como Die Zauberflõte, feita do casamento da sofisticação simbólica com a mais ingênua e espontânea imaginação. À moldura formada pelos belos cenários, e pelos figurinos inteiramente novos desta produção, amolda-se a flexível direção cênica de Cleber Papa, que repensou o trabalho feito em Belém, tornando-o ainda mais fluente. Situações como o encantamento de Monostatos e seus asseclas pelo carrilhão mágico, para ficar só com um exemplo, tiveram um efeito cômico muito feliz. Mas nada disso teria realmente importância se o elenco reunido para esta retomada da ópera não reagisse com tanta homogeneidade e bom nível de interação. Fisicamente muito bonita, cenicamente à vontade e com desempenho musical bem satisfatório, Rosana Lamosa faz de Pamina uma criação na medida de seus recursos vocais e sua sensibilidade. À graça das passagens em que contracena com Tamino ou Papageno, uniu-se um Ach, ich fühls de bela temperatura, fazendo da heroína mítica da Flauta talvez o seu melhor papel no palco. A seu lado, Fernando Portari demonstrou a afinidade natural com o estilo mozartiano. No primeiro ato, talvez pela tensão da noite de estréia, a sua voz soava um pouco cansada; embora tenha sido muito correta a sua interpretação de Dies Bildnis ist bezaubernd schõn. No segundo ato, a própria evolução bem calorosa do espetáculo ajudando, isso havia desaparecido, e Portari foi particularmente persuasivo na cena das provas da água e do fogo. A técnica e o belo timbre de Lys Nardotto fizeram com que, embora ainda muito jovem, se saísse bem no temível papel da Rainha da Noite, e o público soube reconhecer isso, com a forma como a aclamou. Do ponto de vista expressivo - além de uma leve, mas não comprometedora, quebrada de nota - foi meio neutra a maneira como realizou, na noite da estréia, a sua primeira ária. Foi melhor, porém, a execução da segunda, Der holle Rache, não só do ponto de vista de uma coloratura muito bem resolvida, como também da sensação maior que ela passou da raiva impotente da personagem. A voz de Lício Bruno, escura e pesada, não é naturalmente adequada para o papel de Papageno, que requer um barítono mais leve, mas Bruno é um ator muito desenvolto, que soube dar bastante comicidade ao papel - em especial no dueto do finale, com Papagena, deliciosamente composta por Edna de Oliveira -, decerto o número que fez convergir, mais espontaneamente, a graça do canto e da atuação cênica. Registre-se também o esforço constante que ele fez para clarear a voz e adequá-la à natureza ágil e jovem do personagem. A tessitura impiedosamente grave de Sarastro não deixou de cobrar seu preço, até mesmo de um baixo competente como José Gallisa, em especial na sua primeira aparição, no finale do primeiro ato. Mas o sacerdote foi feito com autoridade e simpatia, com bons resultados em O Isis und Osiris e especialmente em Im diesem teuren Hallen, na qual Gallisa fez passar muito bem a ternura de Sarastro por Pamina. Muito à vontade como Monostatos, papel que convém a seu registro de tenor característico, Sérgio Weintraub saiu-se bem; embora prejudicado, na cena em que tenta, pela segunda vez, seduzir Pamina, pela movimentação excessiva, que interferiu em seu fôlego e, em conseqüência, na segurança de emissão da linha melódica. Mas ele se coadunou bem com a regularidade de resultados de uma distribuição que, mais do que exibir interpretações individuais excepcionais, valeu pela homogeneidade do conjunto. Nesse sentido, foi muito boa a integração do elenco de apoio: Stephen Bronk, o Orador, um dos sacerdotes e um dos guardas (ao lado do bom Miguel Geraldi); as três Damas (Adélia Issa, Elenis Guimarães, Lídia Sch?fer), de vozes que se casaram muito bem; e os três Gênios (Dênia Campos, Marivone Caetano, Silvana Freire). Como sempre, é variável o resultado do diálogo, quando ele é entregue a cantores que não são profissionais de teatro falado, e esta Flauta Mágica não fugiu à regra. Mas, de modo geral, o diálogo, a que já nos acostumamos a ouvir em português, intercalado às partes cantadas em alemão, funcionou a contento: haja vista a pronta resposta do público às suas gags ingênuas. A regência de Jamil Maluf extraiu da Orquestra Experimental rendimento apreciável: cordas elegantes, boas madeiras, ótima flauta. Favorecendo andamentos que tendiam para o lento e o dinamicamente discreto, a sua concepção da partitura foi relativamente plana e carente, aqui e ali, de um pouco mais de energia - em especial na seqüência do finale em que a Rainha da Noite tenta, sem êxito, invadir o Templo do Sol. Mas credite-se a Maluf ter feito um estilo de direção que abriu perfeitamente espaço às vozes, para que elas desabrochassem plenamente. Foi o tipo de condução orquestral voltada para a glória do canto e, nesse sentido, teve os seus méritos. É de todo necessário saudar, aqui, a importância de ter-se trazido de Belém um espetáculo significativo como esta Zauberflõte, e formular o voto de que esse processo de intercâmbio, havia tanto tempo necessário, prossiga e dê outros bons frutos. Bem encenada, bem cantada, bem tocada, esta Flauta estará com certeza cavando, para si mesma, um nicho de destaque, dentro de uma temporada de ópera que, este ano, promete ser cheia de boas surpresas. A Flauta Mágica. Teatro Municipal (1.464 lug.). Pç. Ramos de Azevedo, s/n.º, tel. 3222-8698. Hoje, de R$ 10 a R$ 20. Ingressos esgotados.

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