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Fito Páez lança ao mesmo tempo três discos e um romance

Músico argentino faz 50 anos e reexamina a própria trajetória

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2013 | 05h00

Fito Páez tem uma presença de espírito inacreditável. Ao ouvir que sua nova canção Las Luces en La Ciudad (faixa de seu 20.º disco de estúdio, Yo te Amo, lançamento da Sony Music Brasil) lembra um pouco Radiohead, ele dá uma risadona. “Radiohead tem um pouco de Fito também. E tem um pouco de Charly García também”, brinca, dizendo que toda a cultura pop mundial é feita de vasos comunicantes, de diálogos, e que o tipo de romantismo épico que os ingleses fazem hoje eles já faziam nos anos 1980.

O cantor e compositor rosarino Fito Páez prefere se ver como uma espécie de portal cultural entre Argentina e Brasil. Já gravou em português com Caetano Veloso, Herbert Viana, Gil, Milton, Fagner e Djavan. Caetano transformou uma de suas canções, Un Vestido y Un Amor, num absurdo sucesso no Brasil. No ano passado, gravou com Chico e Ryuichi Sakamoto no disco Canciones para Aliens. Uma versão de Construção em espanhol e também uma música de Sakamoto (com vocais de Páez e Buarque), Ele definiu como uma experiência “engraçada”: “Uma música composta por um japonês que lembrava Tom Jobim e cantada por um espanhol que parecia Chico Buarque, e era”.

Vencedor de três prêmios Grammy Latino, Fito estreou Yo te Amo, o novo disco, num show único em Porto Alegre, no dia 6. O título do disco não é por acaso: Fito está vivendo um novo amor, tem namorada nova, Julia, a quem dedicou Ojalá que Sea.

 

 

O cantor acaba de fazer 50 anos, e além de seguir sendo um dos maiores ídolos populares da Argentina, está em processo de olhar para o retrovisor e reexaminar a sua própria trajetória. Em nome desse esforço, acaba de estrear na literatura com o romance La Puta Diabla (editora Mansalva), uma história de amor “desbocado e suicida”. O livro foi lançado na Espanha e deve sair também na América do Norte pela Random House.

“O romance se passa em grande parte no Rio e Trancoso”, revela o roqueiro, que se vale de um alter ego no livro, o artista Félix Ure (nome escolhido em homenagem ao diretor de teatro Alberto Ure). Ele tem diversas propostas para lançar em outros países, mas nenhuma do Brasil ainda, o que o estimula a desafiar editoras.

Ter se tornado um cinquentão não é algo pelo qual se passa batido, diz Fito. “É uma loucura total. Mudou tudo. A minha maneira de ver o mundo mudou. Hoje, não faço tanto drama por algo que não vale a pena. Tudo é tão grave na juventude. E agora tenho filhos, responsabilidade. Há 20 anos, não tinha nada disso. Mas foi fundamental para entender o que é a existência humana. Ter filhos opera uma mudança brutal na vida. Mas eu sigo relaxado, sigo sendo apenas o que eu sou.”

A nova fase lhe permitiu ampliar o revisionismo pessoal. Ele tinha 19 anos quando estourou a Guerra das Malvinas, entre Argentina e Inglaterra, que deixou 255 mortos e centenas de feridos, a maioria muito jovens. Para esse período, ele compôs Canción del Soldado y Rosita Pazos. “É muito triste, épica. É a história de um soldado que vai à guerra e, quando volta, se enamora de Rosita, mas eles não podem levar adiante o seu amor porque ele está maluco”, contou.

“(A Guerra das Malvinas) foi horrível, um delírio alcoólico da cúpula militar. Inventaram a guerra para tentar salvar a ditadura, para salvar sua honra. Foi uma coisa monstruosa”, analisa Fito.

Por conta de sua ânsia de abarcar tanto o pleno quanto as lacunas de sua carreira, ele decidiu que o inédito Yo te Amo não seria o único disco deste ano. Lançou logo outros dois: El Sacríficio, uma recompilação de suas músicas “malditas” que não couberam nos discos, entre 1989 e 2013; e Dreaming Rosario, gravado ao longo de duas décadas.

Em tempos de internet, downloads e comércio digital de música, qual o sentido de gravar logo três discos num único ano?

“Olha, para mim o álbum é um formato já habitual, como um livro. Não faço canções para ser contidas em um disco, faço canções o tempo todo. Só que algumas delas começam a organizar-se como um discurso, como se fossem mecanismos de uma mesma máquina. Aí nasce o álbum. Isso é algo que, para mim, vai além das mudanças tecnológicas, é uma necessidade como artista”, analisa.

Os temas são histórias de sua experiência, como a do menino de 17 anos que vai embora de casa, em Las Luces en la Ciudad. “Me inspirou a história do filho de um amigo, de 14 anos”, conta. Quando à política argentina, Fito parece não querer envolver-se muito. “É um país jovem, está se conhecendo. Vive coisas naturais de uma democracia jovem. O voto trata disso, de errar, acertar. Mais tarde, as sociedades vão definir se o governo funcionou ou não funcionou.”

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