Fim de Os Raimundos é só mistério

Primeiro, a surpresa. Agora, o mistério sobre as razões que levaram o vocalista Rodolfo Abrantes a abandonar uma das bandas mais bem-sucedidas e copiadas dos anos 90 no Brasil. A notícia confirmada ontem pela Assessoria de Imprensa da Warner, gravadora do grupo brasiliense Raimundos desde 1995, foi mais um duro golpe no pop nacional.Rodolfo anunciou a saída aos companheiros de grupo na segunda- feira, após falarem com a imprensa sobre o lançamento do DVD MTV ao Vivo. Segundo a assessoria da Warner e pessoas ligadas intimamente ao quarteto, não havia nenhum prenúncio da decisão do vocalista. Os Raimundos vinham de uma extensa turnê de divulgação dos dois volumes do MTV ao Vivo, álbum de maior vendagem do grupo, 700 mil exemplares. Estava tudo no cronograma, o grupo encerrou, no dia 10, a série de shows, em Americana, no interior de São Paulo, tiraria rápidas férias e retornaria ao trabalho para dar início à pré-produção do novo disco, previsto para chegar às lojas em novembro.Após o encontro com os jornalistas na sede da Warner, em São Paulo, Rodolfo reuniu-se com Digão (guitarra), Fred (bateria) e Canisso (contrabaixo) e disse estar desistindo da carreira artística. "Eu já não teria o perfil necessário para tocar numa banda como os Raimundos", teria, supostamente, dito ele, ex-malucão de carteirinha e recém-convertido ao neopentecostalismo. O vocalista propôs aos remanescentes que seguissem com as estripulias musicais com outro crooner, mas a idéia foi terminantemente desconsiderada pelos candangos. Decretaram o fim das atividades, acreditando que, sem Rodolfo, a banda perderia o sentido. Nenhum dos integrantes foi encontrado para dar mais esclarecimentos.A assessoria da gravadora alega que tudo se deu de maneira abrupta. "Estamos todos de bobeira", reconhece uma das assessoras. Calam-se também os funcionários do escritório central do grupo que se notabilizou por canções como Puteiro em João Pessoa, Me Lambe e Eu Quero Ver o Oco.Independentemente do mistério, Rodolfo disse à revista Capricho que se converteu em janeiro na Igreja Cristo é Vida na Vila Carrão, e tem freqüentado os cultos da Igreja Sara Nossa Terra. Criada há nove anos em Brasília pelo ex-físico e atual pastor Robson Lemos Rodovalho, a congregação tem mais de 100 mil fiéis no País. São cerca de 300 templos espalhados por todos os Estados e conexões em Portugal, no Paraguai, na Bolívia e nos Estados Unidos. O início da Sara Nossa Terra remete às reuniões semanais lideradas pelo então professor de física da Universidade Federal de Goiás (Ufgo). Passado algum tempo, Rodovalho resolveu fundar a igreja. Deixou de lado o ensino da física, mudou-se para a capital federal e batizou a igreja inspirado numa passagem bíblica em que Jesus Cristo teria dito que retornaria para "sarar a terra".Uma das caracteríticas marcantes da igreja é a "tolerância dos costumes". O que os põe na contramão dos evangélicos mais ortodoxos. "Somos uma igreja que aceita a todos, não a tudo! Aceitamos as pessoas do jeito que elas são e estão. Somos uma igreja chamada para ser sal e ser luz, para sarar", informa o bispo Tomaz na página da congregação na internet. Esse perfil liberal tem revertido-se em mais fiéis, sobretudo, os notáveis. Nos templos, é possível encontrar desde o jogador de futebol Marcelinho Carioca até a ex-modelo e apresentadora da Rede TV Monique Evans, passando pela cantora Baby do Brasil, a modelo Cristina Mortágua e o ex-trapalhão Dedé Santana.Durante a toda a terça-feira, a reportagem tentou falar com o pastor Wesley Bandeira, responsável pelos 25 templos paulistas. Entre eles, o recém-inaugurado na Rua Augusta e freqüentado pelo ex-Raimundos. Segundo os funcionários, o pastor estaria muito ocupado com a preparação do culto direcionado aos namorados. Por conta disso, não atendeu a nenhum dos telefonemas da reportagem.A saída de Rodolfo põe fim a uma carreira de sucesso e traquinagem que começou como uma paródia "forró-core" dos Ramones. O grupo foi revelado ao Brasil no festival alternativo Juntatribo, em Campinas (SP), em 1993. O disco inicial, Raimundos (1994), foi o primeiro lançamento do Banguela Records, selo de vida curta tocado pelos Titãs e pelo produtor Carlos Eduardo Miranda. O álbum de estréia bateu as 250 mil unidades vendidas. Em 1995, assinam com a Warner e gravam Lavô Tá Novo (1995), Cesta Básica (1996), Lapadas do Povo (1997), Só No Forevis (1999) e MTV ao Vivo (2000). O grupo ganhou prêmios da MTV, conquistou o grande público, rodou o mundo, fez e aconteceu. O fim é surpreendente, longe se vão os mistérios...

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