ACERVO INSTITUTO CRAVO ALBIN/DIVULGAÇÃO
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Filme revisita a vida do lendário Jackson do Pandeiro

Documentário é inspirado em biografia sobre o músico; o livro, de 2001, desencadeou briga entre seus autores

Amilton Pinheiro, ESPECIAL PARA O ESTADO

31 Agosto 2015 | 06h00

Jackson do Pandeiro estaria completando hoje 96 anos. Morreu em Brasília depois de fazer um show, em 1982. Nascido em Alagoa Grande, Brejo Paraibano, José Gomes Filho foi um artista tipicamente autodidata – ainda criança, aprendeu o ofício de ritmista de vários instrumentos e de cantar primeiro tocando zabumba na banda da mãe. A formação artística se completaria ao frequentar clubes e cassinos de Campina Grande e de João Pessoa, além de trabalhar em rádios de João Pessoa e Recife. Ali, teve contato com outros ritmos como blues, jazz, tango, samba, baião. Logo, já se apresentava artisticamente como Jack do Pandeiro – o nome Jack seria rebatizado de Jackson, por Ernani Séve, e incorporado ao seu nome artístico.

Sua trajetória será contada no documentário Jacksons e Imagens (título provisório), dos diretores paraibanos Marcus Vilar e Cacá Teixeira, que está em fase de finalização. “Já rodamos 80% da história, fizemos várias entrevistas em cidades onde Jackson morou e em Brasília, onde morreria depois de fazer um show em 10 de julho de 1982”, revela Vilar. 

A ideia de fazer um filme sobre Jackson do Pandeiro nasceu quase que simultaneamente na cabeça dos dois diretores. Marcus Vilar pensou no projeto depois de ler a biografia Jackson do Pandeiro, O Rei do Ritmo (Editora 34), de Fernando Moura e Antônio Vicente. O diretor pretendia contar a vida de Jackson em um documentário de curta-metragem. Já Teixeira, que residia no Recife, tinha em mente um curta ficcional sobre um dos vários episódios rocambolescos envolvendo o artista. 

“Em 1955, Jackson já morava no Recife e trabalhava na Rádio Jornal do Commercio. Foi convidado para se apresentar num clube com a esposa Almira, morena bonita e dona de pernas de parar o trânsito. Durante a apresentação da dupla de cantores, um rapaz passou a mão nas pernas da Almira. Reza a lenda que Jackson, baixinho invocado, partiu para cima. Se alguém não socorresse e jogasse os dois do outro lado do muro do clube, eles teriam morrido”, conta Teixeira.

Depois que ficaram sabendo um do projeto do outro, decidiram se juntar e realizar um documentário de longa-metragem sobre Jackson. Para a empreitada, chamaram um dos autores da biografia do artista, Fernando Moura, que virou consultor do projeto e indicou aos diretores o elenco de entrevistados, não só os que ele e Antônio Vicente tinham feito para a biografia, mas outras pessoas que não entraram na época, como a da cantora Gal Costa, que regravou, em 1969, um dos grandes sucessos do cantor, Sebastiana, quando Jackson estava no ostracismo.

O projeto do documentário, orçado em R$ 800 mil, foi contemplado com dois editais – um da Paraíba, onde mora Vilar, de R$150 mil, e outro em Pernambuco, onde reside Cacá Teixeira, também de R$150 mil. “Temos ainda R$ 500 mil para captar e precisamos de parte desse dinheiro para fazer mais entrevistas e pagar direitos autorais de imagens e fotos do Jackson do Pandeiro”, explica Vilar, que pretende lançar o filme no próximo ano.

Os jornalistas Fernando Moura e Antônio Vicente eram amigos e planejavam fazer um livro sobre cantores paraibanos, mas, como a lista de nomes não parava de crescer, desistiram. “Foi aí que me veio o nome de Jackson do Pandeiro, já que todos os cantores paraibanos citavam seu nome como influência”, conta Moura.

Os autores dividiram as tarefas – Vicente cuidaria de fazer algumas entrevistas e transcrevê-las, enquanto Moura formataria o projeto e escreveria o livro. Em uma conversa com Gilberto Gil, receberam o conselho de procurar uma editora no Sudeste, já que Jackson do Pandeiro era um artista nacional. A editora 34 entrou no projeto depois que a pesquisa dos dois autores foi noticiada pelo jornal Correio Brasiliense.

Depois do lançamento do livro em 2001, os autores deixaram de se falar e passaram a se acusar mutuamente. “A editora 34 não queria colocar o nome de Antônio Vicente no livro. Insisti, pois trabalhamos juntos”, afirma Moura. Segundo ele, o contrato firmado entre Vicente e sua editora, Textoarte, deixava claro que a participação dele se resumia a 10% do projeto do livro, enquanto ele, Moura, detinha os outros 90%, pois fizera a maior parte da pesquisa, além da redação final. 

Ainda segundo Moura, o pagamento realizado a Vicente por sua editora foi para custear seu trabalho, além de saldar uma dívida de R$ 3 mil. Vicente, por sua vez, disse desconhecer da partilha do projeto, já que fez a maioria das entrevistas e da pesquisa, além de descobrir o paradeiro da família de Jackson do Pandeiro e de outros nomes importantes. Segundo ele, os motivos do rompimento foram outros. “Desconfiei do Fernando já na divisão dos livros: ele recebeu trinta exemplares da editora, e só me passou três, mas minha parcela era de quinze livros. Durante a pesquisa, Fernando me pediu emprestados R$ 3 mil e nunca me pagou. Quando fui cobrá-lo, ele alegou que já havia me pago com o dinheiro da ajuda de custo de pesquisa que recebíamos da editora 34. Mas esse dinheiro não era dele, mas da editora, arrecadado via Lei Rouanet para pagar despesas com a pesquisa do projeto do livro”, esclarece.


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