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Filme de quatro horas entra com cautela na vida de George Harrison

'Living in the Material World' aborda a vida do 'beatle quieto'

Emanuel Bomfim,

21 de outubro de 2011 | 21h30

Quando entra em cena pela primeira vez, George Harrison não está em evidência. Encara a câmera protegido por uma parede de tulipas. Uma voz o provoca: "Vá em frente e voe, baby, apenas sinta-se livre." O tom enigmático prepara o espectador para a limitação da própria natureza da linguagem documental. Mesmo com as quase quatro horas de imagens, o ‘beatle quieto’ poderá até ficar mais próximo, mas não será plenamente compreendido.

Living in the Material World, exibido nesta semana no festival do Rio e lançado em DVD na Europa e nos EUA (ainda sem previsão de ser lançado aqui em DVD, embora já esteja na internet), traz o rigor jornalístico de Martin Scorsese para desvendar o personagem, guitarrista, membro da maior banda de rock.

Harrison, assim como Ringo, nunca desfrutou da idolatria gerada por Paul McCartney e John Lennon. Sempre foi um outsider, metido em descobertas religiosas e pouco preocupado em agradar o show biz. Ao reconstituir seus passos, o cineasta renova o fascínio por alguém que ignorou a posteridade.

"Não me importo se eu não for lembrado", disse certa vez, conforme relatou Olivia Harrison ao New York Times. Ela foi casada com o britânico entre 1978 e 2001, ano da morte dele. Olivia, também produtora do filme, foi quem procurou Scorsese para assumir a empreitada. O principal argumento para sensibilizá-lo foi uma afetuosa carta escrita por George para a mãe dele quando tinha um pouco mais de 20 anos. "Ele expressava a ideia de que sabia que a vida não se limitava à riqueza e à fama", afirmou o diretor também ao NYT.

A disposição em apresentar um Harrison mais espiritual do que 'material' ajuda a descolá-lo do 'efeito Beatles'. O foco aqui está nos depoimentos de quem conviveu com o músico, gente como Paul, Yoko Ono, Terry Gilliam, Ringo, Jackie Stewart, Eric Idle e George Martin. Fazem com carinho o panorama de um George impulsivo, perfeccionista e introvertido.

O produtor Phil Spector, por exemplo, descreve o 'tormento' de gravar algumas faixas de All Things Must Pass, primeiro álbum solo de Harrison pós-Beatles, por conta da obsessão harmônica do guitarrista em suas composições. Eric Clapton fala abertamente do caso em que ele roubou a primeira esposa do amigo, Patti Boyd - a famosa história por trás do hit Layla. Paul admite em um dos trechos de sua entrevista que a relação de trabalho com o companheiro nem sempre foi das mais equilibradas. O filme, aliás, mostra uma destas discussões no estúdio. Tom Petty relembra como foi montar os Travelling Wilburys, aprender a tocar o ukelele e sobre a estranha reação de George à morte de Roy Orbison. "Não está aliviado por não ser você?", disse o beatle ao telefone.

Há um vasto material audiovisual, que inclui vídeos caseiros, fotografias, gravações de áudio e cartas. Num dos arquivos exibidos, há um pitoresco prenúncio do fim. "Acordei, fui para Twickenham, pratiquei até a hora do almoço - deixei os Beatles - fui para a casa, e à tarde fiz King of Fuh no estúdio Trident, depois comi umas batatinhas", escreveu em seu diário em 1969. No ano seguinte, após as conturbadas gravações de Let it Be, a banda encerrou as atividades. Curiosamente, ele assina a primeira (Cry For a Shadow, com McCartney) e a última música registrada pelo quarteto (I Me Mine).

Harrison já vinha espremido pelas composições de Paul e John. Ao fim, se aprofundou no misticismo oriental. Boa parte do documentário se dedica a mostrar esta conversão, suavizando a questão das drogas na vida do músico. São abundantes as cenas ao lado de Ravi Shankar, o aprendizado da cítara, as viagens à Índia.

Livin in the Material World mostra um homem que, em seu silêncio, morreu cercado de grandes amigos. Ringo conta que quando visitou George na Suíça, nos seus últimos dias de vida, disse ao colega que logo precisaria viajar aos EUA, onde sua filha também lutava contra um câncer. E George disse: "Quer que vá com você?"

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