Filipe Catto fala sobre sua carreira e seu primeiro DVD ao vivo

Marina Vaz,

13 de junho de 2013 | 20h31

Foi numa casa de vila, nos Jardins, que o cantor e compositor Filipe Catto conversou com o Estado sobre seu primeiro DVD e CD ao vivo, ‘Entre Cabelos, Olhos e Furacões’. Mas só depois de dar um abraço apertado na repórter que via pela primeira vez. Abraço intenso, como tudo o que Filipe faz. Confira abaixo os melhores momentos da entrevista.

Você começou a cantar ainda na adolescência, não é mesmo? Como foi esse início?

Cantar mesmo eu comecei na adolescência, mas eu já cantava desde criança. Eu nunca tive dúvidas de que iria fazer isso, porque sempre foi muito natural estar junto de instrumentos, com meu pai e meu irmão tocando. As pessoas da família viviam ao redor disso, então, eu sempre soube que era uma coisa que eu sabia fazer, que era do meu DNA. Meu pai fazia eventos, casamentos, tocando e cantando. Aí, quando eu tinha uns 11 anos, pedi para ele me levar a esses eventos, para eu cantar uma música. E começou até a crescer o pedido de trabalho por minha causa, porque tinha um atrativo a mais – uma criança que cantava bem; uma coisa que é até meio clichê. Depois, comecei a me apresentar na noite, a formar bandas com meus amigos. E eu sempre tive uma pegada muito autoral, queria fazer as minhas músicas. Sempre foi muito forte a vontade de buscar uma identidade musical.

Como vieram as primeiras composições?

Foi nessa época de adolescência. Eu tinha um violão e comecei a compor. E eu sempre gostei muito de escrever também. Escrevia poesias, contos. ‘Redoma’, por exemplo, que entrou no meu disco (Fôlego, de 2011), eu fiz quando eu tinha uns 15 anos. Eu queria dizer coisas, mas não conseguia dizer só pela literatura, pela poesia simplesmente escrita. E aí que começou a ficar mais forte o lado compositor.

Suas músicas têm, com frequência, narrativas quase cinematográficas. Você sempre gostou de inventar personagens? Gostava, gostava muito. Mas acho que isso veio mais com meu lado intérprete. Antes de eu gravar o Fôlego, eu era essencialmente um compositor. Eu não gravava músicas dos outros. Quando vim pra São Paulo, comecei a me descobrir um artista de palco; descobri que esse era o meu diferencial. E, como eu não tenho um compromisso de cantar só as minhas músicas, então, posso compor com mais flexibilidade, com mais leveza. Sem pensar que, daqui a um ano, eu preciso gravar um disco de músicas só minhas.

Como foi essa mudança para São Paulo? Eu mudei para cá em 2010, depois de lançar o Saga (álbum independente, com seis faixas). Passei 2009 fazendo shows em Porto Alegre, e também em Buenos Aires. Em 2010, foi derradeiro, eu tive que vir pra cá. Lá eu não conseguia trabalhar; eu fazia um show a cada seis meses. Eu vim pra cá para fazer o Prata da Casa (projeto do Sesc Pompeia) e não voltei mais.

E como São Paulo o influenciou? Foi muito importante para uma coisa – São Paulo me colocou dentro de um contexto, me colocou dentro da minha geração. Em Porto Alegre, sempre fui muito isolado dentro da música; eu não tinha contemporâneos. Lá, eu sempre fui muito mais ligado à cena do rock gaúcho, do rock de garagem. Eu vim desse ninho, e eu tinha essas bandas. Só que, dentro da MPB, eu era o único mais jovem. Quando vim para São Paulo, eu estava com o Pélico, com a Tulipa (Ruiz), com a Blubell... E pensei: ‘Gente, essas pessoas têm a minha idade, são grandes artistas, e estão fazendo um som próprio’. Existia um frescor novo.

A sua música ‘Saga’ entrou na trilha da novela ‘Cordel Encantado’, mas você não sabe até hoje como, não é mesmo? Juro que eu não sei. Essa é uma história que eu ainda não entendi. Não sei como isso chegou para produção que estava fazendo a trilha; se alguém viu um show meu, se ouviu a música na internet. A novela tinha um cuidado musical forte, era uma novela super elaborada, muito artística; e a trilha também. Foi um presente do céu mesmo. Eu tenho certeza de que ‘Saga’ é aquela música que vou cantar pro resto da minha vida. E graças a Deus, porque acho que é uma música que me define. A letra dela me define; a interpretação dela me define. Acho que foi a música certa para abrir os caminhos.

Como é o seu processo criativo, como surgem as composições? Sinceramente, eu não tenho um padrão de composição; depende muito da linguagem, do momento. Por exemplo, ‘Saga ‘é uma música que veio toda de uma vez. ‘Ascendente em Câncer’ talvez eu tenha demorado um ano pra fazer; eu fiz a melodia e não conseguia botar letra. Aí, o Fernando Calegari, que é meu amigo e escreve poesia e prosa poética, me mandou os originais de um livro que ele tinha feito. E tinha esse texto: “E se um dia me vires chorando, partindo de dor, como uma pobre coisa desgraçada...”. Era um texto, não era uma letra. Aí eu li, pirei e foi muito surreal – porque o texto encaixou na melodia perfeitamente.

Quando você está em uma fase movimentada como essa, lançando DVD e CD, com agenda lotada, isso o inspira a compor? O silêncio me inspira mais do que o barulho. Tocar com a banda me inspira muito também. Mas essa coisa de compor de uma forma mais artesanal vem mexendo muito comigo; de pensar a canção como um bordado, que a gente faz dia após dia. E, às vezes, é preciso bordar três toalhas horríveis para fazer uma incrível, porque aquilo vai exercitando nossa técnica.

Você sempre teve essa intensidade na interpretação, ou isso começou a surgir em algum momento especial? Acho que isso é uma coisa muito minha. Eu sempre fui muito intenso, desde sempre. Até as músicas e os intérpretes de que eu gosto têm uma carga pesada – e não necessariamente técnica. Desde adolescente, eu sempre fui muito fã da PJ Harvey, fã de carteirinha. Porque é uma coisa extremamente intensa, as letras são pesadíssimas. Eu gosto muito de ver quando o artista se expõe, de uma forma mais corajosa, dentro do trabalho. Isso me chama atenção, isso sempre me comoveu muito. Então, a PJ Harvey, a Cássia Eller, o The Doors, a Janis Joplin, a Elis Regina, o Milton Nascimento foram artistas que formaram a minha vida. Então, eu aprendi a cantar dessa forma. Não teria como eu ser uma pessoa mais na boa.

Eu já vi três shows seus e você nunca cantou as músicas da mesma forma... Todo dia é diferente, sempre muda alguma coisa. Eu não penso na interpretação. A única diretriz que eu tenho é saborear, é valorizar cada palavra. Isso é só. Ensaio é ensaio; a gente passa a música, mas a coisa só acontece mesmo no palco. E a gente nunca sabe o que vai acontecer. O público também muda as músicas. Em ‘Adoração’, por exemplo, tem um momento no DVD que é a galera aplaudindo. Isso foi uma coisa que nasceu da plateia, e que acabou virando um incidental dentro da música.

Você é um artista que tem uma presença de palco muito forte. Como é registrar esse momento em um DVD? Isso é o que chega mais próximo da minha essência artística – que é me comunicar com o público no palco. Eu me sinto bem representado por esse trabalho. Eu fiz o que tinha que fazer com esse repertório. Fechei um ciclo. Isso aqui são os primeiros anos da minha carreira. Tem o ‘Saga’, tem o ‘Fôlego’, com outras músicas que não estão em nenhum dos dois, e com coisas que apontam para o que eu estou já fazendo agora e para o que farei. Acho que esse trabalho é um pouco presente, passado e futuro.

E como foi a concepção do show? Acho que o mais bacana de pensar, em um espetáculo, é ele se transformar e transformar as pessoas. Eu gosto de falar que é como botar a pessoa dentro de um carrinho de montanha russa. A gente começa com ‘Alazão’, que é uma coisa até solene, grandiosa. Depois vai pra uma música que é mais com a banda. Depois eu canto só com um piano. E depois já tem ‘Adoração’ em que a galera canta junto. Depois, já bate para ‘Rima Rica/Frase Feita’, que é mais contida. Acho que a maior preocupação é fazer um trabalho que consiga mexer com as sensações. Eu não consigo dialogar com o público de uma forma racional. A maneira como eu me exponho não é calculada, nem nas interpretações, nem nas músicas. As coisas acontecem, e mudam, e se transformam, e geram outras coisas. E o contato é muito visceral mesmo. Às vezes, até eu me assusto com a reação das pessoas. Graças a Deus minha plateia é extremamente respeitosa e bacana, mas eu sinto que existe uma coisa maluca e animalesca rolando entre mim e o público. E é esse tipo de contato que eu quero. Não quero contato superficial. Eu não quero entrar na cabeça, quero entrar no coração das pessoas.

No making of, você diz que esse DVD mostra do que você é feito. Exatamente. Eu sou feito de som, eu sou feito de interpretação, eu sou feito dessas parcerias felizes, como a com o Ricky (Scaff), que concebeu comigo esse show. Eu sou feito desse cuidado com as coisas. O meu rigor com o trabalho está todo aqui. Toda a edição foi acompanhada por mim, a mixagem também. Isso aqui é um produto que me representa.

Em outro momento, você aparece de costas para o público, chorando. O que passou pela sua cabeça naquele momento? Cara... 25 anos de idade, eu fiz um disco de estúdio mesmo, estava gravando o primeiro DVD, que era uma coisa que eu sempre quis fazer. Como é que eu não iria chorar? É impossível. Vendo aquela galera cantando a minha música, eu desmoronei. É muito forte. É real. É uma sensação de gratidão imensa. Eu me sinto muito sortudo de poder fazer um espetáculo com esses profissionais, com aquelas câmeras, com aquele áudio, com tudo. Meu Deus, era o dia mais feliz da minha vida.

Você encerra o bis com ‘20 e Poucos Anos’, do Fábio Jr. Citando um verso da música, o que você quer fazer e ainda não fez? Engraçado você falar de ‘20 e Poucos Anos’, porque ela entrou no repertório porque fiz um projeto de artistas cantando outros artistas, com músicas que cantava no chuveiro, essa coisa toda. Eu cantei essa música e o público gostou muito na época. E, ouvindo o disco e vendo o DVD, eu achei perfeito ela ser a última, exatamente porque ela acaba falando tudo. A letra é exatamente tudo, tudo, tudo que aconteceu no meu percurso. Agora, talvez o que eu não tenha tido tempo de fazer ainda é poder criar com tranquilidade e harmonia no dia a dia. De poder me dedicar às coisas, às letras e às músicas uma de cada vez. Poder ser esse ‘artesão’. Não que eu nunca tenha feito isso, mas meu projeto de vida, nesse momento, é me dedicar às minhas coisas... Como é que é mesmo? “Meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais”. Acho que é isso: é preservar as coisas preciosas e aproveitar cada momento. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.