Filhos de Jair Rodrigues em carreira-solo

Os irmãos Jairzinho Oliveira e Luciana Mello dividem mais um momento de alegria: estréiam juntos em carreiras-solo. Ele se revela um compositor talentoso em Dis´ ritmia. Ela, que teve o primeiro CD-solo produzido há seis anos, mostra-se uma intérprete adulta de timbre bonito em Assim que se Faz. Os dois álbuns saem pela gravadora Trama, que neste ano apostou também em Max de Castro, Pedro Mariano e Wilson Simoninha.Metade das canções de Assim que se Faz foi composta por Jairzinho. "A construção dele, a sua criatividade quando fala de temas comuns não soa como clichê, como a música Reveilon, que fala do novo milênio de maneira não óbvia", afirma Luciana. Seu irmão também foi o produtor do novo disco, ao lado do parceiro mais constante, Daniel Carlomagno.Luciana procurou imprimir em seu trabalho suas preferências musicais, entre elas a soul music brasileira dos anos 60 e 70. "Quando falam sobre a volta dessa sonoridade, fico torcendo para que isso aconteça; ela caiu no esquecimento mas tem grande valor musical", diz. Há ainda o apreço pelo samba - ambos são filhos de Jair Rodrigues - no caso dela, a forma de interpretar do samba-de-roda, ao estilo Clara Nunes. "Sempre fui uma grande admiradora da Clara; no meu primeiro disco, priorizei o samba-de-roda e nesse também há essa influência." Ela reinterpreta O Mar Serenou, de Candeia, mas é cantando o samba Calados, de Jairzinho, que Luciana destaca-se entre as novas intérpretes.O samba é referência não só para Luciana. "Eu gosto muito de compor samba e de tocar também", conta Jairzinho. Desde que voltou de Boston, em 1998, onde estudou na Berklee College of Music, ele já tinha o conceito de Dis´ ritmia na cabeça. "Eu sempre quis misturar minhas influências, que são samba, jazz e hip hop."Produzir o próprio disco não foi um desafio para Jairzinho. Como sócio e fundador da produtora S. de Samba, ele vem fazendo trabalhos reconhecidos, como o mais recente CD de Vicente Barreto, os dois últimos do pai, o da irmã, além da co-produção do disco Artistas Reunidos (do show que juntou no palco ele, Luciana, Wilson Simoninha, Max de Castro, Pedro Mariano e Daniel Carlomagno durante um ano e meio) e de Volume Dois, de Simoninha. No momento, ele dá uma nova roupagem à produção do grupo MPB-4, que em breve lança um disco comemorativo de seus 35 anos de carreira.Revelação - Jairzinho inscreveu-se no Festival da Música Brasileira, da Rede Globo, em parceria com Daniel Carlomagno. Não se classificou. "Mandei pensando que ia ser uma proposta nova", conta. O evento fugiu da proposta e o resultado deixou ainda mais evidente tanto a falta de compromisso da emissora em revelar novidades quanto o talento autoral de Jairzinho. "Achei uma iniciativa boa, mas os meios de divulgar música são outros, não somente um festival."Sua ponderação não soa medrosa. Jairzinho é maduro, afastou-se do showbizz numa fase de sucesso fácil e hoje tem segurança de mostrar-se compositor. "Esse é um processo pelo qual a minha irmã está passando, de amadurecer as suas composições", aponta. "O que é muito natural, mas eu a incentivo a nos mostrar tudo; cada um tem um jeito de compor e, de repente, ela encontra uma parceria interessante", afirma, referindo-se a sua forma de compor, em que letra e música fluem com facilidade, apesar de ser fiel aos parceiros Simoninha, Max e Carlomagno.O empenho de Jairzinho em fazer o novo não é seu princípio para compor. Ele cria para expressar o que sente e a sintonia com o rap e a eletrônica estão evidentes. Jairzinho é também um homem-banda, como Max de Castro. Melhor: as citações do cancioneiro brasileiro não são tão claras e aparecem bem digeridas na sua linguagem pessoal. "O rap vem com cada novidade rítmica, tem gente que diz que não tem melodia, mas música não é melodia; o rap inova nas levadas, já a música eletrônica é feita de uma forma revolucionária, com os DJs, que em geral não são músicos, mas fazem música", analisa. "Música é o momento", como escreve na composição de abertura, Música É..., e, mesmo sem a intenção, define o pensamento de sua geração. Dis´ritmia tem esses elementos, mas tem instrumentação acústica bem amarrada ao seu estilo. Que começou bem na estrada.

Agencia Estado,

26 de setembro de 2000 | 16h06

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