Arquivo Pessoal
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Filha encontra carta escrita pelo pai, que morreu de covid, em disco de John Lennon

No dia em que completou 15 anos, Bárbara recebeu a carta que o pai havia escrito mesmo antes dela nascer. Homem que encontrou a correspondência perdeu um filho por covid

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 10h00

Em junho do ano passado, em um período ainda grave da pandemia de covid-19, a história de Karlo Schneider, um fã dos Beatles que havia escrito cartas para a filha ainda não nascida, emocionou muita gente. Agora, mais de seis meses depois, uma das cartas foi encontrada dentro de Imagine, segundo álbum de estúdio lançado por John Lennon.  A carta do pai, que morreu de covid no início do ano passado, pode, enfim, ser lida pela Filha, Bárbara, no dia em que ela completou 15 anos. Como se não bastasse, esse 'achado' foi possível graças à sensibilidade de outro pai - que tinha acabado de perder um filho para a mesma doença que levou Schneider.

Mas vamos recontar essa história. Há 15 anos, durante um jantar entre amigos, Karlo Schneider teve a ideia de celebrar a gravidez da esposa, Alcione Araújo, e o iminente nascimento de sua primeira filha, com uma brincadeira cinematográfica: naquela noite, todos iriam escrever cartas para a bebê, mensagens com conselhos e projeções para o futuro, que seriam abertas apenas quando ela completasse 15 anos.

Fã incondicional dos Beatles, Schneider teria recolhido as cartas e as guardado dentro de discos de sua banda favorita. Esses discos seriam parte de uma coleção estimada em aproximadamente 500 álbuns.

Poucos meses depois, nasceria Bárbara (batizada assim em referência a segunda mulher de Ringo Starr), anos mais tarde vieram Layla (nome tirado de um dos maiores sucessos de Eric Clapton) e Arthur (em homenagem ao Zico). "Ele era tão fã dos Beatles que, quando a gente se conheceu, a primeira coisa que ele quis saber foi se eu também gostava da banda", contou Alcione.    

As cartas escondidas nos encartes ficaram esquecidas ou esperando o tempo previsto para serem lidas. 

Schneider trabalhava como gerente geral de um hotel em Mossoró quando a pandemia se instalou no País. Sem turistas, o hotel precisou reduzir seu quadro de funcionários. Schneider foi um dos demitidos. Então, para se recuperar do tombo financeiro, Schneider vendeu mais da metade de sua coleção de álbuns, majoritariamente composta por raridades dos Beatles ou de discos solos de seus integrantes. "O sonho dele era recomprar tudo. Ele iria reaver a coleção tão logo a situação econômica melhorasse", disse a mulher.    

Em fevereiro do ano passado, um pouco antes da filha Bárbara completar 14 anos, Schneider contraiu o vírus da covid. "Ele tinha muito medo, se cuidava muito, usava máscara, álcool em gel... Mas também tinha fatores de risco, como pressão alta e obesidade", disse Alcione. 

No  dia 11 de março de 2021, Schneider morreu vítima da covid. Como não poderia deixar de ser, sua morte abalou familiares e amigos - que continuam celebrando a vida de Schneider com homenagens e muita música dos Beatles. Mas uma coisa ficou no ar, inconclusa, uma coisa que completaria um círculo e atenderia aquele que foi um dos desejos de Schneider.

Ano passado, Alcione falou com o Estadão e comentou sobre o sentimento da filha em relação às cartas do pai.  "Minha filha está muito abalada pela perda do pai. Essas cartas seriam um alento, uma lembrança boa para ela".

A mulher revirou os discos restantes do marido, mas, como era de se imaginar, a probabilidade das cartas estarem em discos que foram vendidos era muito grande. A procura pelos compradores dos discos de Schneider e, consequentemente, a busca pelas cartas, foi parar nas televisões e jornais. No início, nada aconteceu. Só que em dezembro do ano passado...

O Encontro.

Alcione contou que ainda em julho do ano passado, logo depois das notícias sobre as cartas serem divulgadas pela mídia, um homem, que se identificou como Roberto, entrou em contato. "Ele disse que tinha comprado um lote de discos dos Beatles, mas que ainda não tinha aberto nenhum deles. Ele tinha acabado de perder um filho para a covid-19 e precisava de um tempo para ficar sozinho, se isolar e vencer a depressão. Mas disse que depois olharia todos os discos e procuraria a carta", falou.

Depois desta ligação, o homem só retomou o contato em dezembro do ano passado. "Ele me perguntou se eu poderia ir para Natal pegar o disco em que havia encontrado três cartas, uma delas de Schneider e outras duas assinadas por outras pessoas (amigos que estavam na noite em que se decidiu escrever para a filha ainda não nascida). Tive medo, mas imaginei que ninguém poderia querer fazer mal pra mim ou para minha família usando essa história", contou.

Dito e feito. Alcione encontrou o homem, que se identificou apenas como Roberto, em Natal. Ele levou Imagine, segundo álbum de estúdio de John Lennon, com uma das cartas escritas pelo pai de Bárbara. "Ele me disse que estava em depressão pela morte do filho, mas me agradeceu por poder participar da vida de outra pessoa, dando um presente para a minha filha", disse Alcione. "Ele pediu para não exposto, mas que estava feliz em poder ajudar", completou.

Apesar da carta ter sido encontrada em dezembro, Bárbara quis seguir o desejo do pai. Ela só abriu, agora, no último dia 4 de fevereiro quando completou 15 anos. Alcione conta que a filha se emocionou com o que leu e, desde então, tem um semblante mais tranquilo - provavelmente por ter conseguido receber a mensagem que o pai havia deixado para ela há 15 anos.    

Na carta, Schneider fala para a filha sobre o seu amor por ela (e pela mãe dela), pergunta se ela já está fazendo aulas de inglês, se tem uma melhor amiga e se já viajou para algum país exótico, tipo o Afeganistão. Alcione revelou que o mais emocionante foi o fim da carta. "A caneta começou a falhar, a tinta foi se apagando, meio que sumindo... Os últimos dias de Schneider foram assim: aquela tinta desaparecendo foi como o pulmão do meu marido parando de funcionar, foi como se ele, naquele momento, também estivesse deixando de respirar", contou. 

 

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