Filha de Vital Farias lança álbum de estréia

Da mesma forma como compõe suas canções - uma delas, Ai que saudade d´ocê, lançada por Elba Ramalho, foi gravada 40 vezes, inclusive no exterior -, sozinho e com as próprias mãos, o paraibano Vital Farias construiu a casa onde mora, no bairro central de classe média do Roger, em João Pessoa. E na casa, onde vive com a mulher e dois de seus oito filhos, montou um estúdio sem ajuda da tecnologia sofisticada, no qual gravou o disco de sua cantora favorita, a filha Giovanna Farias, 28 anos, Uyraplural, e prepara mais três: Vital Farias ao Vivo e aos Mortos Vivos ou..., Epopéia Negra (obra sinfônica, poética e teatral) e Missa dos Agricultores do Sertão do Cariri Parahybano (assim mesmo, com agá e ípsilon, como se grafava antes da revolução de 1930 e de todas as reformas ortográficas de antes e durante sua trajetória pelo Planeta).Vital vive basicamente de direitos autorais: uma vida modesta, sem os luxos da fama que sua obra lhe conferiu há algum tempo. Também faz shows, mas quase sempre eles fazem parte de seu projeto de militância política de esquerda, sem contribuir tanto para sua sobrevivência. Geralmente são espetáculos longos (duram em média três horas), nos quais discorre sobre seu ideário político - atualmente anda magoado com o partido em que militava, o PT, porque os petistas têm negado o apoio que o MST, em sua opinião, precisa e deveria ter - e interpreta seu repertório musical, do reconhecido ao inédito.Sua obra lhe garante um lugar de destaque na cultura brasileira. Da geração de Zé e Elba Ramalho, esse 52º filho de um agricultor, nascido em Taperoá, cidade plantada no alto da serra do Teixeira, no interior da Paraíba, cenário da obra teatral de Ariano Suassuna (inclusive do Auto da Compadecida), tem um estilo que só encontra semelhante em Elomar Figueira de Melo, o menestrel medieval de Vitória da Conquista, no sertão da Bahia.Algumas de suas canções mais conhecidas - caso de Era Casa, Era Jardim - guardam semelhanças com aquele som do medievo preservado nos ermos do interior nordestino. A diferença fundamental é que Elomar é um tipo que se construiu a si mesmo e Vital, um autêntico. Talvez por isso, enquanto o cancioneiro do baiano se aproxima do erudito, o do paraibano cai no gosto popular.O CD de Giovanna Farias - que contradiz todos os cânones da ordem de qualquer produtor de discos, pois mistura faixas ao vivo com outras de estúdio e está a léguas de distância de um projeto orgânico - reproduz a beleza, a autenticidade e a substância popular da obra do pai da cantora.Aliás, é bom que se diga, não é propriamente um CD da cantora estreante Giovanna Farias, mas de Vital Farias apresentando uma intérprete em quem aposta suas fichas. Está certo que ela gravou canções do maestro Waldemar Henrique (Tamba-tajá e Uyrapuru) e de outros dois autores da devoção do pai, Juvenal Pedro da Silva (Quem Vive assim como Eu) e Gilvan Santos (Ciranda de Terreiro). Mas a presença do "dono" da Discos Vital Farias se faz sentir na autoria de 15 das 21 faixas, só duas em parceria, com Livardo Alves e Fernando Guimarães.Vital também é homenageado por Alcyr Guimarães numa canção intitulada Vitalizar, sendo, assim, introduzido no rol dos compositores que viraram verbo, como Djavan ("djavanear") e Caetano ("caetanear"), embora o dele não seja um neologismo. E participa de mais da metade das faixas gravadas, sendo que em algumas nem se faz acompanhar da filha cantora.Só uma coisa: isso tudo é feito com beleza e naturalidade - as canções, as letras, os arranjos. Tudo é muito simples e bonito, de uma beleza esparsa e desigual, como a obra arquitetônica do catalão Antoni Gaudi: de Caso Você Case que, na voz de Marília Barbosa, foi incluída na trilha sonora da novela Saramandaia, de Dias Gomes, na Globo, a Sete Cantigas para Voar, sucesso do show coletivo Grande Encontro, com Elba e Zé Ramalho, Alceu Valença e Geraldo Azevedo, passando por Veja Margarida, por ele mesmo defendida em outro show coletivo, o Cantoria, com Elomar, Geraldo Azevedo e Xangai, e por Cantilena nº 3, uma jóia do cancioneiro popular no qual o autor, cujo maior ídolo é Patativa do Assaré, tem o condão de resumir os códigos criativos da poética repentista sertaneja com precisão e verve.O CD é dedicado ao Ministério da Cultura, às Secretarias Municipais, Estaduais e Federais, "por não terem ajudado em nada. Portanto, atrapalharam bem menos". E a cantora de voz madura, saudada pelo pai, patrão e produtor como alguém "que canta feito gente grande sem medo de amadurecer a voz de mulher que ao invés de estar fingindo criancice como a maioria das cantoras brasileiras que com medo da realidade política e social, se refugia no amor mentiroso das gravadoras, amor que cheira a mentira, a covardia e a cooptação com os canalhas que há muito tempo cometem o crime de fazer da cultura brasileira em discos, uma farsa e comandam essas estórias que o capitalismo sabe muito bem inventar, fugindo da verdade e procurando se esconder nos gabinetes silenciosos dos edifícios que não são fáceis"... E por aí vai. Vital puro!

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